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Teatro Aberto
Fotografia: Filipe Figueiredo'Só Eu Escapei', em cena no Teatro Aberto

Há chá e catástrofe no Teatro Aberto a partir deste fim-de-semana

Prepara-se para ficar com vontade de atirar o bule ao ar. Em ‘Só Eu Escapei’, que se estreia domingo no Teatro Aberto, a placidez dos dias é entrecortada por visões apocalípticas do futuro.

Por Raquel Dias da Silva
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Quatro mulheres conversam no jardim de casa. Quatro pessoas conversam num estúdio. Reflectem sobre o quotidiano, as mudanças, os empregos que tiveram, o que acabaram de perder, os seus desejos e medos mais profundos. No palco e na vida real, esses momentos mais ou menos plácidos – em que o chá tanto se pode servir em chávena como em metáfora – são entrecortados pelas visões extraordinariamente proféticas de Caryl Churchill, autora de Só Eu Escapei, que poderá ver a partir de domingo, 8 de Novembro, no Teatro Aberto, em Lisboa. “Quando começámos a ensaiar e deu-se o que se deu, fomos para confinamento e dissemos, meio a brincar, parece que fomos nós”, conta à Time Out o encenador João Lourenço, ainda assombrado pela força e actualidade do texto, que parece espelhar cada vez mais as inquietações do mundo inteiro.

A narrativa é ambientada durante o “chá das cinco” de três vizinhas, surpreendidas pela misteriosa Sra. Jarrett, que entra no quintal por uma abertura na cerca. A partir desse prosaico encontro discorre-se, com ironia, sobre os dramas dessas mulheres mais velhas, desde as dificuldades de comunicação, da solidão e dos segredos, até à falta de força para se sair da cama, numa referência subtil mas premente à brutalidade da depressão. E não só. Entre o medo irracional de gatos, revelado num monólogo aflitivo, e a violência das agressões ecológicas, provocadas pelo capitalismo, há uma reflexão profunda sobre o estado do mundo à escala global.

“Como é que ela [Caryl Churchill] imagina que estas mulheres estão a tomar chá e há tudo isto a acontecer à nossa volta?”, questiona-se João Lourenço, que assina também, juntamente com Vera San Payo de Lemos, esta nova versão da peça, cuja montagem original estreou em 2016, no The Royal Court Theatre, em Londres. “Estamos todos a tomar chá e não paramos. As cheias, os incêndios, a fome, está tudo a acontecer. Os ditadores a aparecer. Nós criticamos, achamos graça e continuamos a tomar chá.”

Como será a vida num planeta apocalíptico é a pergunta chave. A resposta, essa, é-nos confiada pela Sra. Jarrett, a mensageira interpretada por Márcia Breia, que tanto faz a apologia do ócio, tónico diário ao alcance de todos, como nos lembra que é tempo de mudar modos de ver e agir, para que a Terra permaneça habitável. Porventura também para que o ritual das três vizinhas – personificadas por Catarina Avelar, Lídia Franco e Maria Emília Correia – não nos pareça tão supérfluo, mas sim um feliz vício, mais para recuperar a dimensão humana do agora do que para escapar da realidade.

“Fiquei com muito medo, como nunca tive”, confessa João Lourenço, referindo-se ao início da actual pandemia, quando os teatros foram forçados a fechar. “É importante o que a Greta [Thunberg] está a fazer para inspirar os jovens [para o combate às alterações climáticas]. Mas também é importante ver quatro mulheres com mais de 70 anos [a mais nova tem 73 e a mais velha 81], no palco, em Portugal, sem medo, sobretudo neste contexto, a dizer coisas tão relevantes. Se fossem mais novas também era, mas têm esta idade. Têm a vida delas em cima e mostram-na, com os seus problemas pessoais e com os que dizem respeito a todos nós.”

Teatro Aberto. Rua Armando Cortez (Praça de Espanha, Lisboa). 8 de Novembro a 28 de Fevereiro. Qua-Sáb 19.00 e Dom 16.00. 17€.

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