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Há um novo restaurante de cozinha portuguesa que vira clube: fomos ao Rivage

O novo restaurante de Algés com vista para o rio transforma-se ao longo do dia e em breve terá uma esplanada. Lá dentro, um altar de família abençoa o espaço e acolhe os DJs.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Rivage
DR | Um altar de família transformou-se na cabine do DJ do Rivage
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Filipa Crespo nunca sonhou com o mundo dos restaurantes – aliás, fugia dele. “Sempre trabalhei com comunicação e marketing, às vezes em projectos relacionados com restauração, mas gostava mais de moda e viagens”, explica à Time Out. Quando visitou este espaço com Miguel Celestino da Costa, fê-lo para lhe dar uma opinião, sem mais nenhum cenário em cima da mesa. Ele, porém, tinha outra ideia na manga: sabia que Filipa era a sócia de que precisava para abrir um restaurante e usou todos os argumentos para lhe mostrar que tinha razão. Ela percebeu o que lá vinha: um restaurante, mas não apenas isso. Ali podia fazer eventos e activações de marca, desenvolvendo outras vertentes que a apaixonam. “Foi esse complemento que me convenceu, além de poder construir tudo de raiz.”

Foi numa agência de publicidade, onde ambos trabalharam, que se conheceram, mas Miguel Celestino da Costa já tinha 15 anos de experiência em restauração e queria regressar à área. Foi no centro de Lisboa que começou a procurar um espaço, mas o destino levou-o para uma direcção diferente, mais precisamente até ao Centro Náutico de Algés. O edifício inaugurado em 2021 tinha no primeiro piso o cenário ideal para um restaurante. 

No início de tudo está o nome, Rivage, “a palavra francesa que significa ‘à margem de’, no fundo um pedaço de terra junto à água”, descreve. A partir daí, Miguel e Filipa construíram o projecto. “Queríamos fugir ao típico azul ou às bóias. Por isso, inspirámo-nos nas cores dos barcos mediterrânicos dos anos 50.” 

Rivage
DRRivage

Castanhos, bordeaux e verde azeitona dominam a decoração, idealizada por Joana Tavira. O mobiliário é português, tal como os candeeiros, a loiça ou os talheres. Há um sofá longo que acompanha as janelas com um detalhe de cabos náuticos – também presente na esplanada – e o bar tem uma curvatura que faz lembrar uma onda. A decorá-lo está a versão XXL de uma pintura que está à entrada e que pertence ao artista português David Almeida. Numa das paredes está outra pintura, da artista peruana PSY. Foi o último detalhe a ficar pronto e demorou quatro dias até estar concluído. “Tem a vela do barco, mas também as andorinhas, um símbolo bastante português”, justifica Filipa.  

Portugal à mesa e um pezinho de dança

A cozinha é liderada por Gonçalo do Canto, a quem os donos fizeram um único pedido: comida portuguesa. A partir daí, o chef teve carta branca e muniu-se da experiência de uma década em Inglaterra e do conhecimento de várias técnicas e culturas para pegar em receitas tradicionais e dar-lhes uma volta. 

Rivage
DRO nigiri do Rivage
Rivage
DRO estufado de rabo de boi do Rivage faz lembrar um ovo Benedict

Nas entradas, o sashimi de atum (16€) é uma reinvenção do típico escabeche, juntando ao peixe uma cebolada de maracujá. Provámos ainda o estufado de rabo de boi (22€), uma versão alternativa do ovo benedict com um mini bolo do caco na base, a carne desfiada e um ovo perfeito, cozinhado a 65 graus durante uma hora. Por cima, lá está ele: o molho holandês.

Não deixe passar os mais discretos croquetes de farinheira (7€, duas unidades), bolinhas crocantes que sabem a conforto, acompanhadas por aioli de alho e coentros, e o creme de cenoura (6€), com um bhaji de cebola roxa, um detalhe surpreendente. “Consiste em laminar cebola roxa muito fina, macerá-la em sal para ela largar o sabor ácido, removê-lo, lavar outra vez e enrolar depois com coentros e farinha de grão para fazer uma bolinha que é frita. A sopa é terminada com azeite de malagueta e coentro bebé”, explica o chef. 

A ideia do Rivage é ser um espaço que se vai transformando ao longo do dia, passando por almoços, jantares e clube a partir das quintas-feiras. “Esse é o principal desafio, conseguirmos conjugar os três ambientes”, diz Miguel. “Pegámos um bocadinho neste conceito de o rio ser o almoço, um momento mais calmo, um momento mais introspectivo, onde a luz entra dentro do espaço. E depois passamos então para a hora do jantar, que é a foz, é onde a maré fica um bocadinho mais agitada. E por fim o Atlântico, é aí que entra o clube, onde as pessoas já podem dançar, há uma socialização mais descontraída e orgânica”, completa Filipa. 

Rivage
DRRivage

Nessa fase, as cortinas fecham-se, tapando a cozinha aberta, e as mesas do meio são retiradas para que, quem quiser, possa dançar. De quinta-feira a sábado, o DJ instala-se um pouco depois das 22.00 e mantém-se no comando até às 03.00 ou 04.00. A cabine é um altar que era da trisavó de Miguel e foi recuperado para o espaço. A primeira que tinham previsto era metálica e amovível, mas Miguel teve uma espécie de epifania quando, numa visita à quinta de família em Alcácer do Sal, olhou para o altar abandonado. “Não queríamos que fosse só uma cabine de DJ, tinha de estar envolvida no ambiente. Eu olhei para a peça e fez todo o sentido.”

A cruz que tinha à frente foi substituída pelo R de Rivage e a avó já viu a peça na nova casa. Apesar de reticente, foi sossegada pelo neto: “Estamos em tempos modernos, até já existem padres DJ”.  O aniversário da irmã de Miguel foi uma espécie de test drive. “A 11 de Abril celebrámos aqui os 42 anos dela. Queríamos ver como é que a equipa e o espaço funcionavam e o feedback foi muito positivo.”

No dia 17 o Rivage começou a funcionar oficialmente, embora ainda em modo soft opening, após oito meses de obras. “Os sofás ficaram completamente destruídos na tempestade de Leiria. Por causa da tempestade, os equipamentos da cozinha e do bar também sofreram atrasos consideráveis”, lembra Filipa. 

No interior há espaço para 82 pessoas e na esplanada vão sentar-se mais 70 a partir do próximo mês. Essa zona é um terraço enorme com vista para o rio e, quando estiver aberto, terá um menu específico das 15.00 às 18.00, mais dedicado a petiscos. Terá também cocktails e batidos. “Nesta zona, ao fim de semana, há muita gente a fazer exercício. Queremos que as pessoas tenham vontade de se sentar um pouco na esplanada, beber alguma coisa ou petiscar”, diz Miguel.

No meio do nada – e qual é o mal?

Regressamos ao menu, agora aos pratos de carne. A barriga de porco (20€) é cozinhada durante 12 horas, a 86 graus, e depois prensada. Chega acompanhada por couve braseada e no topo tem uma maionese de coentros e cebola crocante. A acompanhar, “e porque faz parte do mesmo animal”, justifica o chef, a mesma bola de farinheira das entradas. O prato é terminado com molho de porco com moscatel e é rico em sabores e texturas, desfazendo-se na boca a cada dentada.

O bife Wellington (60€, duas pessoas) deixou para trás a tradicional massa folhada para dar aqui lugar à quebrada, mais estaladiça. Tem espinafres e um puré de cogumelos e envolvem uma peça do lombo pincelado com mostarda. Leva vinhos branco, tinto e da Madeira. Não precisa de muletas, mas inclui dois acompanhamentos (entre arroz, batata frita ou puré de batata trufado, por exemplo). 

“A minha cozinha trabalha com os cinco sentidos e a boca é a última a comer. A primeira coisa que temos é a visão, se é visualmente apelativo; depois a audição, se o prato faz barulho; o tacto, logo a cortar a cortar a carne consegue-se perceber se a carne é boa; o cheiro, como é óbvio, vem logo depois; e só no final é que provamos, chega o paladar”, diz o chef, exemplificando com o bife Wellington o que acaba de explicar.  

Rivage
DRA posta de robalo Rivage.

Nos peixes, a posta de robalo (24€) tem a pele crocante, é leve, fresca e bem temperado. Vem com risotto de amêijoas à Bulhão Pato, cuja cremosidade contrasta com o resto. 

O Rivage apresentou-se como um espaço enorme, cheio de potencial, mas também com a desvantagem de ser no meio do nada (fica literalmente no meio da zona onde anualmente se instala o NOS Alive). Porém, isso não foi uma entrave na decisão de Miguel. “Quando as pessoas me falavam do acesso, eu perguntava sempre: ‘Quando é que, hoje em dia, uma pessoa vai a um restaurante sem reservar’? É muito raro. A percentagem de pessoas que passa à porta de um restaurante e decide ‘vou jantar aqui’ é muito pequena”, recorda. 

Uma vantagem: não há problemas para arranjar lugar para o carro – nem se paga o estacionamento. E já que o parquímetro não está a contar, há tempo para as sobremesas.  

Rivage
DRCarpaccio de abacaxi do Rivage

No tiramisù Rivage (9€), o creme de mascarpone passa pelo sifão, tornando-se leve. O biscoito é embebido em amaretto, ficando com um travo a amêndoa e o prato é finalizado com chocolate em pó, já na mesa. No carpaccio de abacaxi (8€), as raízes dos coentros, muitas vezes ignoradas, são adicionadas a uma calda de acúcar. “O abacaxi é cortado e fica a beber a calda durante dois dias.” A frescura está lá toda, sendo terminado com raspas de lima, micro coentro e gelado de lima limão. Ideal para ajudar na digestão. 

O risotto doce cremoso (10€) vai buscar inspirações a Inglaterra. “Nós, em Portugal, servimos o arroz doce frio. Em Inglaterra come-se uma coisa chamada rice pudding, que é praticamente arroz doce, mas quente, e eu lembro-me da tradição da minha família em que a minha avó fazia o arroz que comíamos a sair da panela.” Gonçalo do Canto tem razão: este prato sabe a memória e ao aroma espalhado pela casa de férias com o arroz acabado de sair do fogão. Por cima leva raspas de lima e, claro, canela em pó. 

Cabe sempre mais um

Pela sala do Rivage o aroma perdura e, mesmo que o espaço seja amplo, é sempre confortável. As mesas grandes – há duas e sentam, no mínimo, cinco pessoas e, no máximo, 14 — pareciam um quebra cabeças no início, mas revelaram ser uma mais valia. Há já muitos grupos a escolherem o Rivage e para eles, além da carta, há três menus que podem ser definidos previamente (a 35€, 50€ ou 65€ por pessoa, sem bebidas).

Nas reservas são as que se preenchem mais rapidamente e a Filipa só caiu a ficha de que era realmente sócia de um restaurante quando, ao tratar dessas marcações, percebeu que tinha de começar recusar pedidos. “Agora, sim, o Rivage é real e está a funcionar.”

Edifício Centro Náutico de Algés, Passeio Marítimo de Algés, piso 1. Ter-Qua 12.00-15.00 e 19.00-00.00, Qui-Sáb 12.00-15.00 e 19.00-3.00, Dom 12.00-15.00.

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