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Heroína Local: Ana Maria Viegas, a galerista

Há uma galeria muito especial na cidade, inteiramente dedicada à arte sobre azulejo. Estivémos à conversa com Ana Maria Viegas, a fundadora da icónica Galeria Ratton.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
Ana Maria Viegas
Fotografia: Mariana Valle LimaAna Maria Viegas
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“Na Ratton não há paredes para pendurar coisas, há paredes que têm de significar coisas.” Quem o diz é Ana Maria Viegas, fundadora da Galeria Ratton, um espaço inaugurado em 1987 na Rua Academia das Ciências, que desde então tem desafiado reputados artistas contemporâneos a trabalhar a sua arte sobre azulejo, muitos pela primeira vez. E não há lisboeta que não se tenha cruzado com os frutos de inúmeras colaborações que a galeria tem realizado ao longo dos anos e que decoram o espaço público, de estações de metropolitano a edifícios e peças escultóricas. Seja no traço de Menez na Estação do Marquês de Pombal (1995), de Irene Buarque na da Ameixoeira (2002), de Graça Morais na da Amadora Este ou de João Vieira na do Terreiro do Paço, alguns dos muitos exemplos de intervenções realizadas na rede do Metropolitano de Lisboa, por onde tantas vezes passamos a correr. Mas vale a pena parar para apreciar este trabalho único na cidade (e noutras terras do país e até além fronteiras).

Nos anos 60, Ana Maria Viegas formou-se como tradutora e intérprete no antigo ISLA e chegou a tirar uma pós-graduação em Língua Inglesa, na Davies’School of English, em Cambridge. Só que a galerista e as traduções não falavam a mesma língua. O ponto de viragem aconteceu em 1980, à boleia de um projecto que a levou à Fábrica Bordalo Pinheiro, na companhia da amiga Rosa Almeida, para fazerem um estudo e recuperação de azulejos de Rafael. “Consegui ter um conhecimento profundo da cerâmica, fiquei completamente deslumbrada com o azulejo e percebi que era uma coisa que eu queria fazer”.

A primeira exposição da Ratton, em 1987, foi colectiva e juntou os artistas Paula Rego, Lourdes Castro, Júlio Pomar, Menez, João Vieira e Bartolomeu dos Santos, sob o tema “Azulejos para a Arquitectura”, um prenúncio dos muitos projectos que a Ratton desenvolveu, juntando arte e arquitectura. Até hoje, a Ratton já representou cerca de 60 artistas. Em 2005, Tiago Montepegado, filho e arquitecto, torna-se sócio da Ratton, amplia as actuais instalações e enriquece o portfólio da galeria, desenhando também peças de arte pública revestidas a azulejo, como é o caso de “Espaço Entre a Palavra e a Cor” (2020), o memorial em homenagem a Sophia de Mello Breyner, com azulejos de Menez, que podemos ver em Belém, no espaço verde que separa o Terreiro das Missas da Estação Fluvial de Belém.

Os planos da Ratton permanecem fortes e a galeria ate já fez propostas para algumas das futuras estações de metro da cidade. “Depois, seja o que for que se faça, já não é nosso. É das pessoas. Mas o que é importante é chamar a atenção para um património único que nós temos e que está a ser delapidado”, alerta esta heroína que pede a todos os cidadãos que ajudem a tomar conta dos azulejos com valor patrimonial que continuam, indevidamente, a ser retirados de outrora belas fachadas da cidade.

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