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A Travessa dos Mastros voltou a ser pedonal este Verão, a tempo da abertura da encarnação lisboeta da Palms. Uma coincidência feliz. Nascida e muito elogiada em Inglaterra, esta pizzaria é um espaço de boa comida, boa bebida e boa onda.

“Sicker than yo’ average”, parafraseando o oportuno The Notorious B.I.G., a nova pizzaria de Lisboa é o sítio perfeito para abrir os braços e entoar A$AP Twelvyy: “I feel like Frank Sinatra, bitch!” Desde logo por ser bem provável que “Jus Lef Phoenix” (ou “Hypnotize”) estejam a tocar no espaço da Travessa dos Mastros, ex-Miss Dumpling, mas sobretudo porque a Palms está pensada para nos transportar para Nova Iorque, para o seu espírito boémio, comunitário e desempoeirado: as enormes pizzas vendidas à fatia, a área exígua, as luzes baixas, as letras à diner americano, a música (hip-hop old school e punk) e a informalidade típica dos sítios com boa onda que fomentam o convívio e contagiam a rua.
A Palms é uma importação, embora não dos EUA. A pizzaria original fica em Margate, uma pequena cidade costeira de Inglaterra, a cerca de uma hora de Londres. Existe desde 2022 e, no ano passado, entrou na lista das 50 melhores pizzarias do Reino Unido para o jornal The Times. “Essa loja já tem [quase] quatro anos e está bem estabelecida”, diz Josh Ward. “Nós andávamos a pensar onde é que poderia ser a próxima, mas simplesmente não nos apetecia que fosse no Reino Unido, isso não nos entusiasmava. Queríamos uma mudança de estilo de vida e adorávamos Portugal. Já tínhamos vindo a Lisboa várias vezes. Fizemos a nossa pesquisa e percebemos que não havia ninguém na altura a fazer pizza ao estilo nova-iorquino. Sei que agora há a Rico. Mas, para além deles, praticamente ninguém.”
O “nós” de Josh inclui o sócio e amigo Stuart Clarke, sentado à mesma mesa. Conhecem-se há cerca de 20 anos, ambos a trabalhar na indústria musical como managers e promotores – não é um acaso que a música desempenhe um papel tão central na Palms. É a “identidade” da pizzaria, como lhe chama Stuart, no cruzamento entre Amyl and the Sniffers, Viagra Boys, Jay-Z e MF Doom. “E aplicamos no restaurante tudo aquilo que aprendemos na indústria musical, como dar festas, colaborar com chefs e tornar tudo divertido. É isso que faremos aqui”, antecipa Josh. Desde que abriram, em Agosto, já receberam o chef Whyte Rushen, que arrebatou a Time Out com o Whyte’s, em Londres, recentemente fechado, e o vizinho João Magalhães, do Tricky’s. Ambos prepararam pizzas especiais.
Haverá certamente outras oportunidades. No resto do tempo, continua a valer a pena descer o Poço dos Negros, uma das zonas mais cool da cidade (palavra de honra!), e parar para uma fatia de pizza. O menu é curto e simples, mas não é por isso que deixa de ser surpreendente – depois de provarmos quatro generosos triângulos, decidimos, contra todas as expectativas, que a nossa preferida era a Sausage & Pesto. Isso mesmo, salsicha e pesto. Cinco euros a fatia, 25€ a pizza inteira. O que não é caro. As pizzas são enormes, com “20 polegadas” de diâmetro, ou seja, mais de meio metro, como dizemos deste lado do Canal da Mancha. Alimentam uma família de quatro. E esse é, aliás, o motivo para a Palms não estar a usar plataformas de entrega. Como é que se leva uma caixa deste tamanho numa mochila ou numa motoreta? Para já, para comer em casa, só com take away.
Provámos ainda a Marg (3€/20€), que é a ilustríssima margherita de serviço, também disponível em versão vegetariana; a House Pie! (5€/25€), com pepperoni, stracciatella e mel picante, que vem a brilhar; e a Vodka Pie (5€/25€), um clássico de Nova Iorque em que o molho é feito com o destilado que lhe dá nome e que facilmente ganha o consenso da mesa. Em qualquer uma delas se pode adicionar burrata (2€) e mel picante (1€). As duas que sobram no menu são a Classic Pepp (4€/23€), de pepperoni, e a Magic Mushroom (5€/25€), que até pode ser mágica mas não tanto como o nome sugere (garantem-nos).
As pizzas foram sobretudo desenvolvidas por Josh, o único com experiência de cozinha, tendo passado por restaurantes de fine dining em Londres, bistrôs e “pouco tempo” numa pizzaria. Também é dele a experiência da pizza de Nova Iorque, onde chegou a viver por um ano. “Quando era pobre, vivia de fatias muito baratas, de um dólar. Adorava a cultura em torno disso, poder pegar e levar em dois minutos. E havia sempre uma personagem que trabalha na loja a gritar com as pessoas, a servir pizza muito rápido”, ri-se. Aqui, ninguém grita com ninguém, e a pressa é igualmente dispensada e trocada por uma bebida.
Nesse departamento, há os refrigerantes habituais (3€), a cerveja da casa, a Palms House IPA (5€, em lata) e vinhos Supernatural (6-7€ o copo, 28€-32€ a garrafa), uma marca de vinhos naturais que a dupla está desenvolver e a produzir em Portugal, e que estão a promover como “good sauce” – ou, se preferirmos, boa pomada. (É aqui que já estão. Quando abriram a pizzaria no Reino Unido, Josh e Stuart pensaram que este seria um projecto paralelo, mantendo os afazeres musicais. Agora estão completamente embrenhados.) Há ainda dois shots: mistério (3€) e pickleback (6€). Este último é um shot de whisky seguido de um shot de sumo de pickle. “É um clássico dos bares americanos”, explica Josh. “Supostamente serve para dissipar o ardor do whisky no sumo de pickles. E é bom para a saúde intestinal. É um win-win. E fica-se bêbado. É perfeito.”
A sala tem 14 lugares, mais um banco largo e um ou outro assento individual no exterior, para quem quiser levar o copo e apanhar ar, ou pôr a conversa em dia. “É tudo muito descontraído. Não temos serviço de mesa, mas as pessoas ficam ali, à volta do bar. Nós meio que desenhámos isto para as pessoas ficarem de pé e se divertirem juntas. Muita gente fica depois no exterior, na rua. É uma vibe óptima”, observa Josh. Para isso, muito contribui o facto de a Travessa dos Mastros ter sido fechada ao trânsito em Junho, pouco antes da inauguração. “Mas não teve nada a ver connosco”, adianta-se Stuart, elogiando a vizinhança, responsável pelo finca-pé com a autarquia que conduziu a esse desfecho.
Apesar da boa disposição que os proprietários querem para este espaço, a Palms não quer ser um factor destabilizador da comunidade em que se insere. Mesmo abrindo só às 18.00, a hora mais tardia de encerramento é às 23.00, à sexta-feira e ao sábado. Nos demais dias, fecha às 22.00. Nem se pense que é um ambiente só para adultos. As crianças são bem-vindas. Josh e Stuart sublinham, a esse propósito, que não faltam famílias à mesa desde que abriram. Seria, de facto, um desperdício. Ainda por cima com tanto espaço lá fora para brincar, para jogar à bola, saltar à corda ou improvisarem uma qualquer desgarrada.
Travessa dos Mastros, 25 (Poço dos Negros). Ter-Qui e Dom 18.00-22.00, Sex-Sáb 18.00-23.00
O chef Pedro Pena Bastos concretiza o sonho de ter um restaurante "mais próximo" e português – sentámo-nos com ele à mesa do Broto. Já o grupo do Praia no Parque abriu um novo espaço na Linha: chama-se Bugio e tem uma carta inspirada no Mediterrâneo. Mas há mais: a emblemática Bica do Sapato, em Santa Apolónia, ganhou uma nova vida. Está em soft opening e promete muitas novidades para o futuro. Por fim, veja a nossa lista dos melhores smash burgers de Lisboa.
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