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"La noire de...", de Ousmane Sembène
Ousmane Sembène"La noire de..."

IndieLisboa faz retrospectiva de Ousmane Sembène, “o pai do cinema africano”

Por
Hugo Torres
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O Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa revelou a programação de três secções especiais da edição de 2020, que apresentam “o cinema como arma”.

“De Berlim ao Senegal destruímos muros e levantamos vozes.” É assim que o IndieLisboa revela, nesta sexta-feira, parte da programação do festival, que decorrerá de 30 de Abril a 10 de Maio em várias salas de cinema de Lisboa. Refere-se a “celebração” dos 50 anos do Fórum da Berlinale e a uma retrospectiva integral do senegalês Ousmane Sembène, co-programada pela Cinemateca, e que dará aos cinéfilos alfacinhas a oportunidade de ver em tela a obra de um realizador que é frequentemente apontado como o pai do cinema africano.

A oposição de Ousmane Sembène à europeização da cultura do Senegal, o combate ao colonialismo, a luta de classes e o feminismo são posições marcadas nos seus filmes. “Com Sembène inicia-se uma viagem vinda de dentro, um contraponto à visão europeia que domina a produção cinematográfica. São filmes que operam uma reparação fílmica e histórica, que não se contentam com estereótipos, não procuram a estetização”, sublinham os programadores do IndieLisboa em comunicado. “Um cinema sem calculismo ou medo de uma nova linguagem e que respira livre.”

Sembène (1923-2007) era de uma família humilde. Filho de um pescador, chegou a experimentar o ofício do pai antes de participar como combatente na II Guerra Mundial, em campanhas contra o nazi-fascismo. Depois trabalhou numa fábrica de automóveis e foi estivador. A sua produção artística só arrancou em meados dos anos 1950, pela literatura. Mas Sembène cedo percebeu que, se queria chegar às massas, o cinema era o meio certo. Os primeiros filmes que realizou foram Borom sarret (1963) e Niaye (1964), curtas que abrem as portas a uma cinematografia que conta ainda com Black Girl (1966, trailer abaixo), Mandabi (1968), Tauw (1970), Emitaï (1971), Xala (1975), Ceddo (1977), Camp de Thiaroye (1988), Guelwaar (1992), Faat Kiné (2001) e Mooladé (2004). Tudo para ver no IndieLisboa.

Para assinalar o meio século da secção que o Festival de Berlim dedica à vanguarda do cinema, o Fórum, o IndieLisboa exibirá uma selecção de filmes exibidos na primeira edição desse espaço de ousadia da Berlinale – que decorreu em 1971, ainda sob a designação Fórum Internacional do Novo Cinema. “Foram filmes que colocaram em causa o status quo e que abriram portas para novas estéticas. Eram reacções à política turbulenta dos seus tempos e, por isso, foram essenciais para o fenómeno político”, adiantam os programadores do festival lisboeta. “Na altura, abordando temáticas como as lutas anti-coloniais, os direitos das mulheres e direitos LGBTQ, abriram novas estradas políticas e cinematográficas.”

Por fim, para completar o que o IndieLisboa chama de “triangulação de vozes tantas vezes abafadas ao longo da história política, social e cinematográfica”, a secção Silvestre será focada na realizadora franco-senegalesa Mati Diop (n. Paris, 1982), que estreou a sua primeira longa-metragem, Atlantique, no Festival de Cannes do ano passado. Além desse filme (trailer abaixo), farão parte da programação as curtas Snow Canon (2011), Big in Vietnam (2012) e Liberian Boy (2015), assim como Mille Soleils, homenagem ao filme Touki Bouki, do seu tio e cineasta senegalês Djibril Diop Mambéty. Mille Soleils venceu em 2013 a a competição internacional de curtas do IndieLisboa.

O programa de filmes recentes do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa será revelado a 2 de Abril. Na semana passado tinham já sido anunciados os títulos que farão parte da secção IndieMusic deste ano, que incluirá filmes sobre Billie Holiday, Rolling Stones ou Charles Aznavour.

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