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Júlia Reis
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Júlia Reis canta ‘Ó Nossa’ em mais uma Matiné Fetra na SMOP

A baterista de Pega Monstro, que também é uma louvável escritora de canções, tem um álbum a solo para nos apresentar. Vamos ouvi-lo este domingo. Vai ser uma festa.

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
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Apareceu de mansinho, sem grande alarido. No início de Dezembro, a Cafetra enviou um e-mail onde se lia que estava prestes a sair Ó Nossa, o primeiro álbum de Júlia Reis, e passados uns dias estava no Bandcamp para todo o mundo o ouvir. E os fiéis, que pensavam que o Nível Lounge de Putas Bêbadas tinha fechado o ano desta editora com estrondo e chave de ouro, regozijaram. Só ficou mesmo a faltar um momento de celebração comunal daquelas canções, puras e pueris. Vamos tê-lo e partilhá-lo finalmente este domingo, 22, a partir das 17.00, em mais uma Matiné Fetra na SMOP.

Para os mais distraídos, Júlia Reis é a baterista de Pega Monstro, foi de Os Passos em Volta, abrilhantou ainda no ano passado o disco da irmã Maria Reis. Deixou Lisboa há já algum tempo, foi mãe, ganhou o pão a fazer pão, honestamente. Parecia que tinha deixado a música para trás, para desconsolo daqueles, tantos, que vibraram com as Pega Monstro e dos outros, poucos, demasiado poucos, que nunca esqueceram o EP de estreia a solo, Só no Fim, editado há dez anos, gravado por Luís Severo quando ainda era O Cão da Morte e masterizado por Leonardo Bindilatti quando ainda escrevia Rabu Mastah em vez de Rabu Mazda. Bons tempos.

Bora falar um bocado de Só no Fim, até porque nunca se escreveu sobre ele aqui – apesar de este maduro lhe ter dedicado lençóis de texto em chats privados que foram sendo apagados à medida que relações chegaram ao fim e vidas divergiram. Apenas três canções com charme lo-fi, onda emo e ancoradas na folk ianque, uma preciosidade. Música de coração na lapela a lembrar os melhores Bright Eyes, mas no feminino, uma espécie de Phoebe Bridgers antes de haver a Phoebe Bridgers. Negócio sério, mágoas carpidas sem vergonha nem medo. Repita-se: uma preciosidade, mas também uma delícia e tantos outros substantivos de valor.

Ó Nossa é outra coisa, porque a mulher que hoje se assume Júlia Reis também já não é a pós-adolescente que assinava como Jewels. A música continua a ser folk, mas portuguesa. Estão aqui as tradições orais do interior do país; histórias universais e intemporais, verdadeiras mesmo quando efabuladas; uma vivência pacata longe do geo-inferno lisboeta (o tipo de coisa que não se ouve assim tanto em discos destes). Só no Fim era diferente. Mas a qualidade das canções é a mesma. A escrita é imaculada, Júlia Reis sabe o que faz. Sim, vai ser sempre a baterista de Pega Monstro. Não obstante, continua também a ser uma cantora e compositora tão boa quanto as e os melhores. O país está cheio de homens e mulheres que ganham a vida a escrever cantigas e não têm metade do talento desta senhora. Pensem nisso. E depois falem em meritocracia, se tiverem coragem.

Calma! O concerto. Estão aqui para ler sobre o concerto, não é? Pelo menos é o que está no título. Este domingo, a partir das 17.00, há mais uma Matiné Fetra na Sociedade Musical Ordem e Progresso, ou apenas SMOP, apesar do concerto de Júlia Reis ser o único de uma artista da editora. Em palco, Júlia terá ao seu lado a irmã Maria Reis, o primo Lourenço Crespo e a prima emprestada Sallim. Ou seja, vai ficar tudo em família, como estas canções idílicas pedem. E é tão certo que vai ser especial como certo é o sol pôr-se ao fim da tarde e voltar a abrilhantar os nossos dias de manhã – pelo menos quando não há nuvens.

Além de Júlia Reis, vai subir ao palco magz, vulgo Margarida Honório, outrora das Ninaz. O seu primeiro disco a solo, până la stele, saiu há exactamente um ano e é um dos bons. Música pop caseirinha, que não teve a atenção que merecia na altura. Talvez agora. Vão ouvir que vale a pena. Toca também O Triunfo dos Acéfalos, duo electro-punk de Santo Tirso, debutantes em Lisboa. Lançaram há uns meses o EP Vivemos num Inferno e têm mais material no Bandcamp.

Por fim, e por princípio e pelo meio, o outro representante da Fetra nesta matiné, Hipster Pimba, o homem que dantes era Smiley Face (se calhar ainda é, mas não grava há tanto tempo que não temos a certeza) e que foi um quarto dos Kimo Ameba, pioneira banda de fuzz-rock da Cafetra. DJ de cassetes, vai dar-nos música sempre que ninguém estiver a tocar. Paguem-lhe finos, em jeito de reconhecimento e agradecimento. Ele merece. Merecem todos. Merecem tudo.

SMOP. Dom 17.00. 5€

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