A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
Língua gestual portuguesa
Fotografia: ©João Tuna/TNSJ

Língua gestual “fala mais alto” no São Luiz Teatro Municipal

A companhia de teatro Estrutura imaginou um espectáculo onde a língua gestual portuguesa é o veículo primordial de comunicação.

Por
Raquel Dias da Silva
Publicidade

Tente lembrar-se de todas as vezes em que foi ao teatro para assistir a uma peça. De como se deleita com a encenação, as cenografias, o desenho de luz e – se for ouvinte  as vozes claras e poderosas que modelam as personagens. Se calhar, as vozes são tão claras e tão poderosas que nem repara quando há interpretação em língua gestual portuguesa, num canto discreto do palco para “não distrair”. Mas e se, imagine só, não houver texto para ouvir? Ou se, existindo texto, os gestos falarem mais alto que as cordas vocais? Seria capaz de entender o que se passa em palco? As interrogações são do colectivo portuense Estrutura, que se propõe a combater o fonocentrismo com um espectáculo falado com as mãos, letra a letra, palavra a palavra.

“Uma vez, a ver um espectáculo com uma intérprete num cantinho com pouca luz, para não atrapalhar o que se passa em cena, ficámos com vontade de inverter esta situação”, conta José Nunes, um dos responsáveis pela dramaturgia de Língua, que poderá ver, ouvir e ler entre 21 e 31 de Maio, no São Luiz Teatro Municipal. A peça, uma criação original de Cátia Pinheiro, José Nunes e Diogo Bento, reúne em palco uma actriz surda, uma intérprete e três actores ouvintes, que experimentam um novo idioma para desempenharem os seus papéis. “Propusemo-nos a conhecer a comunidade surda, a sua história e a sua língua. Tivemos aulas e desafiámos a Joana Cottim, que é professora e é surda, e a Cláudia Braga, que é ouvinte e intérprete, a participar. Como encenador, foi desafiante, porque nunca tinha encenado uma pessoa surda.”

A maioria dos ouvintes só desperta para o problema da surdez quando precisa de comunicar com alguém que não ouve ou ouve muito mal. Mas, quando as cortinas subirem e o espectáculo começar, a comunidade surda é quem estará no lugar de privilégio. Em palco, a língua gestual portuguesa será o veículo primordial de comunicação. “Sentem-se desconfortáveis?”, perguntará Joana Cottim por duas vezes. Na primeira, sem legendas à vista, é provável que, mesmo sem saber o que a actriz pergunta, nos sintamos, de facto, desconfortáveis. Depois dessa primeira provocação, espera-se que o desconforto dê lugar à reflexão sobre a própria ideia de língua, que se comece a associar os gestos às palavras, que se aprenda a lê-los, a ouvi-los. “É mais fácil os ouvintes aprenderem a língua gestual do que as pessoas surdas falarem”, diz Joana, no final de um ensaio, acompanhada por Cláudia Braga, que a interpreta e traduz.

Quando a Associação Portuguesa de Surdos foi criada, em 1958, o oralismo ainda era central na educação dos surdos e contribuía para a perpetuação de relações de violência – é que, entre as duas línguas, a portuguesa e a gestual portuguesa, há uma infinidade de diferenças, e é preciso reconhecê-las para nos (des)entendermos melhor. A língua gestual portuguesa só foi reconhecida pela Constituição da República em 1997. “A comunidade surda há anos que luta, que quer que a língua gestual portuguesa seja uma disciplina obrigatória, para que as crianças ouvintes possam aprender, tal e qual como aprendem outra língua qualquer. Se aprendem inglês, porque é que não aprendem a língua gestual portuguesa?”, pergunta Joana. E faz mais. Põe-nos a pensar como seria se, sempre que vamos ao teatro, tivéssemos de decidir se vemos a cena ou o que se diz em cena. 

Felizmente, promete, ainda há tempo para mudar. Para conhecer a história da sua comunidade, assombrada por personalidades como Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, que defendia fervorosamente o oralismo, por oposição a uma língua de sinais. Para calçarmos os sapatos das pessoas surdas, que são imunes a piropos na rua e a crianças a gritar em restaurantes, mas não à confusão que lhes vai na cabeça sem que quase ninguém as entenda. Para aprender como o silêncio é só uma palavra inventada por quem ouve, como a língua que une também pode separar. “Curtam os gestos”, desafiam. “Pensem em dança contemporânea”, brincam. “Confiem”, pedem.

São Luiz Teatro Municipal, Sala Mário Viegas. Qua-Sáb 19.30 e Dom 16.00. 12€.

+ As peças de teatro para ver esta semana

+ Leia já, grátis, a edição digital da Time Out Portugal desta semana

Últimas notícias

    Publicidade