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Colecção Outono - Inverno
©Francisco Correia“Descobrir um através do outro", da artista Sara Chang Yan

Lojas com História – e com arte contemporânea na montra

A Baixa de Lisboa volta a transformar-se numa galeria de arte com a Colecção Outono/Inverno, uma iniciativa da EGEAC que instala arte contemporânea nas montras das lojas históricas de Lisboa.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Entre Abril e Maio, dez espaços com o selo Loja com História receberam a Colecção Primavera / Verão, a primeira parte de um projecto apresentado pela EGEAC que ocupou uma série de montras do centro da cidade com arte contemporânea. Agora há uma nova colecção de artistas plásticos portugueses, consagrados ou emergentes, para conhecer: é a Colecção Outono / Inverno.

O novo percurso (ou exposição, se preferir) pode ser feito a gosto até ao dia 15 de Novembro, mas se quiser seguir os passos sugeridos pela EGEAC, a casa de partida é a Livraria Trindade (Rua do Alecrim, 32/36), onde encontra a peça “Descobrir um através do outro”, da artista Sara Chang Yan. Um “desenho suspenso” e “uma espécie de papel que se encontra num livro, desdobrado”, mas sem letras, descrevendo coisa nenhuma. E uma peça que “não é sobre o branco, é sobre o espaço”, brinca a artista que em 2015 recebeu o Prémio Artes Visuais para Jovens Criadores, da Fundação Calouste Gulbenkian.

A próxima paragem é a Carioca (Rua da Misericórdia, 9), histórica loja de chás e cafés que agora também aposta em pastéis de nata veganos, da Vegan Nata. Na montra, encontra-se a instalação de Ana Pérez-Quiroga, conceituada artista visual, performer e frequentadora assidua de lojas especializadas em chá e café. A cultura oriental foi o ponto de partida para este “Breviário do Quotidiano #8”, uma extensão do projecto homónimo iniciado em 2014, sobre "os regimes acumulativos dos objetos e as suas determinantes", onde leva a sua própria casa a outros espaços. Neste caso, uma jarra candeeiro, feita em vidro soprado manualmente, uma gaiola que lembra a sua estadia prolongada em Xangai ou objectos pessoais que replicam uma cerimónia do chá.

Colecção Outono - Inverno
©José Frade“Breviário do Quotidiano #8”, de Ana Pérez-Quiroga

Segue-se uma visita à montra da livraria mais antiga do mundo em funcionamento, a Livraria Bertrand (Rua Garrett, 73). Aí é a jovem artista Adriana Proganó que está em destaque com a peça “Why can’t I fit in”, uma escultura que representa o corpo de uma mulher a ocupar espaço. Um óleo sobre tela que é uma escultura com enchimento. “Quis brincar com isto de ser uma escultura para ser uma pintura”, explica esta artista habituada a trabalhar com muita figuração.

Colecção Outono - Inverno
©José Frade“Why can’t I fit in”, de Adriana Proganó

A Luvaria Ulisses (Rua do Carmo, 87A) também faz parte do percurso e a dupla responsável pela obra exposta nas vitrines mais pequenas da cidade é Sara & André, que expõem juntos desde 2006. Os dois artistas tiraram partido da simplicidade da montra para uma intervenção minimalista chamada "Luvas de 22 artistas famosos" que apenas salta à vista dos mais atentos. Sara & André optaram por acrescentar pequenas placas gravadas com nomes de artistas portugueses a cada par de luvas, de Aurélia de Sousa a Almada Negreiros. Isto depois de em 2020 terem exposto no Museu Berardo a peça “Cuecas de 39 artistas famosos”.

Colecção Outono - Inverno
©José Frade"Luvas de 22 artistas famosos", da dupla Sara & André

O próximo momento inesperado está à vista na montra da Ourivesaria Sarmento (Rua Áurea, 251), com a obra “Alianças para uma segunda mão”, de Isabel Cordovil, artista plástica e também cineasta, que fala sobre o ciclo do ouro. Mais especificamente sobre o ciclo do ouro associado a casamentos e divórcios, entre as ourivesarias onde se compra a aliança e a loja de penhores que testemunha o fim oficial desse amor banhado a ouro a caminho de ser derretido.

Colecção Outono - Inverno
©José Frade“Alianças para uma segunda mão”, de Isabel Cordovil

Na rua mais pequena de Lisboa mora outra história, a da Manuel Tavares - Mercearia e Charcutaria (Rua da Betesga, 1A/B), em cuja montra moram agora recortes de Ana Vidigal, que, podemos dizer, meteu mesmo o Rossio na Betesga. Ou seja, para a montra cheia de garrafas de vinho, e com pouco espaço entre elas, a artista criou “Não quebrar (nem em caso de emergência)”, uma obra que preenche o espaço entre garrafas com materiais utilizados nas colagens/pinturas (neste caso recortes de muitas bandas-desenhadas infantis), transformando a montra uma “caixa de entregas”.

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©José Frade“Não quebrar (nem em caso de emergência)”, de Ana Vidigal

A Barbearia Oliveira (Rua D. Antão de Almada, 4H) é outra das galerias desta colecção e dá montra a “Está disposto a mudar”, de Vasco Araújo, o artista que pegou nos códigos de corte de bigodes e barbas e partiu para outros “códigos e discursos”, de género e sexuais, num vidro que é agora uma espécie de catálogo de cortes de barba, bigodes e cabelos desta histórica barbearia.

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©José Frade“Está disposto a mudar”, de Vasco Araújo

A penúltima paragem pode ser bem regada e é a única onde vai ter de entrar para ver. Para uma das paredes interiores da Ginjinha Sem Rival (Rua das Portas de Santo Antão, 7), Francisco Vidal criou “Estudos de pintura sobre o rótulo do Licor Eduardino”, duas pinturas inspiradas no rótulo que celebram “Eduardo o Palhaço”, um icónico personagem do Coliseu dos Recreios, feitas em óleo sobre papel manufaturado.

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©José Frade“Estudos de pintura sobre o rótulo do Licor Eduardino”, de Francisco Vidal

O percurso termina na montra das Ferragens Guedes (Rua das Portas de Santo Antão, 32) com “Crossing The Line 1999-2021”, de Ângela Ferreira e da australiana Narelle Jubelin, uma instalação composta por duas fotografias de bordado, um vídeo e um texto. A história remonta a 1999, ano em que Jubelin bordou uma imagem a partir de uma fotografia tirada pela mãe de Ângela Ferreira em 1964, onde a artista, então criança, deita a língua de fora a bordo do paquete Príncipe Perfeito. Mas em petit point, a artista australiana não conseguiu reproduzir a língua da fotografia, o que levou a portuguesa a produzir uma performance em vídeo em que a sua língua é o foco principal. “O título remete para a problemática das divisões norte/sul, criadas ou assinaladas pela linha imaginária do Equador” e todos os anos a instalação é exposta alternadamente entre hemisférios.

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©José Frade“Crossing The Line 1999-2021”, de Ângela Ferreira (na foto) e Narelle Jubelin

Joana Gomes Cardoso, presidente da EGEAC, espera que este projecto tenha continuidade, mesmo que tenham de se repetir lojas, embora com diferentes artistas. "Tentamos que haja um equilíbrio na faixa etária, género e estilos, mas a ideia é rodar e tentar ir a todos. Agora a Baixa já não está deserta, mas sentimos que há necessidade de promover a memória que estas lojas transportam".

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