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Madonna no Coliseu de Lisboa
STUFISH Madonna no Coliseu de Lisboa

Madonna, uma divindade às portas de Santo Antão

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Lisboa – e Madrid, e Berlim, e Rio de Janeiro, tudo no Coliseu dos Recreios – acolheu Madame X de braços abertos e coração ao alto. Ao vivo, os novos temas ganham uma coesão que não têm em disco, ainda que para isso se sacrifiquem os clássicos. O momento da noite pertenceu, no entanto, às batukadeiras cabo-verdianas. Não há mensagem política mais forte.

Quando Ben regressar à Alemanha, guardando na mala o sutiã Gaultier que trouxe para usar em Lisboa, ninguém vai acreditar que Madonna saiu do palco para com ele partilhar uma cerveja e dois dedos de conversa. Ele vai contar aos amigos como ficou nervoso, como tropeçou no inglês trocando cerveja entornada (spilled) por cuspida (spitted) para hesitação da estrela planetária que estava ali, bem ali, ao seu lado, a questionar sobre o que fazia, de onde vinha, que vestimenta era aquela. Tanga, dir-lhe-ão. Onde estão as fotos? Não havia telemóveis para captar o momento. Quem viu, viu, partilhou da ansiedade, riu-se com ele, aplaudiu. Quem não estava lá, no Coliseu dos Recreios, na segunda de oito noites da tour Madame X em Lisboa, vai ter de recuperar um velho hábito: acreditar na palavra dos outros.

É sintomático que mesmo um ícone como Madonna, que toda a carreira viveu uma relação co-dependente com as câmeras, sinta agora a necessidade de impedir a mediação da sua relação com os fãs através do obturador. “É uma forma de comunicarmos melhor”, disse ela, de não haver nada entre o público e o palco. Os telemóveis foram guardados em estojos especiais, logo à entrada, e só podiam ser abertos no final com a ajuda de uma maquineta. Ora, uma das vantagens da invenção dos telemóveis é que permitiu uma grande poupança em relógios, que desde então passaram a ser um gadget menos comum. O que significa que a ausência de telemóveis levou a que poucos espectadores soubessem quantificar o atraso com que o concerto começou. Embora, ao contrário do que é habitual, aqui a espera tenha compensado: antes de subir a cortina, parte da entourage lusófona de Madonna – Gaspar Varela (guitarra portuguesa), Jéssica Pina (trompete), Miroca Paris (guitarra) e Carlos Mil-Homens (percussão) – ocupava a boca de cena, à direita, recriando os ambientes de música e tertúlia que encantaram a cantora norte-americana em Lisboa.

Madonna sabe dar uma festa. Com o público sentado, envolto numa atmosfera de acontecimento, receber assim os fãs foi um toque de charme e uma forma de dar as boas-vindas à sua “segunda casa”, como viria a designar a cidade que a acolheu. Entre os temas que esse pequeno grupo tocou, ouviam-se já versões de Madonna que puseram toda a gente a cantar ainda no preâmbulo da noite. “Like a Virgin”, por exemplo, entrou por essa via oficiosa para o alinhamento, com a trompete de Jéssica Pina a dar conta da melodia vocal. A música de Alcácer do Sal teve, aliás, uma presença marcante ao longo de todo o espectáculo, apesar de aparentemente discreta. O coliseu ficou a dever-lhe uma vénia.

Madonna no Coliseu do Recreios

 

Madonna no Coliseu do Recreios
Ricardo Gomes

 

O desfile das múltiplas faces de Madame X, as personagens ora sedutoras ora extravagantes em que se desdobra no seu mais recente disco, é feito num cenário montado por um texto do escritor e activista norte-americano James Baldwin. “Os artistas estão aqui para perturbar a paz.” É a toada do concerto. As palavras de ordem ficam a cargo da própria Madonna em “God control”, “Dark ballet”, “Come alive”, “Future” ou, já no encore, em “I Rise”, com imagens das manifestações contra o uso e o porte de armas nos EUA, após o massacre de Parkland. A cantora defende uma “nova democracia” e pugna, como sempre, pelos direitos civis, pelo feminismo, pela comunidade LGBT+, pela liberdade (colectiva e individual), pela paz. Nunca o fez com subtileza: toda ela era provocação, ousadia, coragem. Agora, à boleia da ideia de que este é um espectáculo intimista, perde-se em tiradas políticas que não destoariam num concurso de misses e graçolas sugestivas sobre a “pila pequena” de Donald Trump (nas imediações de “American Life”). Uma rainha, mesmo que emérita, pode tudo – mas exige-lhe outra verve.

Essa elevação aconteceu com a Orquestra Batukadeiras, que entrou na sala pelas portas laterais da plateia e tomou o palco por completo. Que momento. Que ritmo. Que alma. Que profundidade. Madonna não precisava de lhes ter cedido lugar, dando-lhes o protagonismo do momento. Era inevitavelmente delas. Bastou dizer àqueles ouvintes de pop industrializada, através dos ecrãs, que os batuques era uma forma de resistência destas mulheres desde os tempos coloniais, uma deserção – e uma provocação. E foi o bastante para que sentissem em pleno a força ancestral que estas mulheres carregam. Madonna tem o inegável mérito de lhes reconhecer valor e de as pôr à frente da sua audiência global. Dino d’Santiago, que promoveu este encontro, agradeceu-lhe por isso mesmo quando subiu ao palco como convidado especial para com ela cantar a “Sodade” de Cesária Évora. Madonna nomeou-o “rei do funaná” e ele mostrou toda a doçura da sua voz.

Diminuída por “25 lesões”, a cantora batalhou muito contra as suas limitações físicas durante o espectáculo: coxeou, descansou, estendeu os momentos de interacção com o público, contando histórias da sua vida em Lisboa, declarando-se à cidade, revelando saber o mínimo indispensável de calão em português. O corpo de bailarinos e de músicos apoiou-a sempre, em movimentos disfarçados, em ajudas minuciosamente coreografadas para se tornarem parte da teatralização. Não era Madonna que estava lesionada a fazer um espectáculo de quase duas horas e meia. Era Madonna lesionada aos 61 anos. A idade pode ser só um número, mas por vezes os algarismos pesam como chumbo.

Se há algum apontamento a fazer ao concerto, no entanto, não é esse. É a opção de fundo por sonoridades e práticas musicais do nosso tempo menos interessantes. Os insistentes efeitos de voz são uma pena. Madonna está na posse de todos os seus dotes vocais, como se pode ouvir na entoação a capella de “Express Yourself”, na inultrapassável “Vogue”, na frugal e belíssima encenação de “Frozen”, ou no regresso aos crucifixos gospel de “Like a Prayer”. Ou até mesmo quando chama Gaspar Varela para com ele cantar, expondo as suas fragilidades, o “Fado Pechincha” popularizado por Celeste Rodrigues (cuja memória foi destinatária de um sentido elogio por parte da artista). Madonna, despida, é artifício mais do que suficiente.

 

Madonna em “Like a Prayer”
STUFISH

 

Artificial foi também a prometida proximidade deste espectáculo. Não é possível com uma estrela planetária. A meio do espectáculo, Madonna tira uma selfie com uma polaroid e vende-a a alguém do público. O dinheiro, disse, é para caridade. Na noite desta terça-feira, conseguiu mil euros de um fã espanhol. Chamou-o a palco, mas não o deixou subir. “Não tapes a minha luz”, atirou ao microfone. A certa altura, parecia que ia descer – mas ficou-se pelas escadas laterais, sempre rodeada da sua equipa. Quando baixou a guarda, para se sentar ao lado de Ben, fê-lo de forma controlada, pedindo a todos que se sentassem. Por fim, para a saída apoteótica ao som de “I Rise”, que fez pelo meio da sala, os seguranças iam empurrando, decididos, quem se acercava de Madonna e tentava tocar-lhe no punho fechado e erguido. As aparências iludem: a artista é tão inatingível aqui como nas grandes arenas e estádios que costumam recebê-la. Uma eremita, isolada pela própria fama. Uma eremita com muitos seguidores, como Santo Antão, o padroeiro da rua do coliseu.

+ Madonna já cá estava. Só faltava chegar o voguing

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