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Manicómio: os loucos de Lisboa montaram uma galeria de arte no Beato

Manicómio
Manuel Manso Manicómio, no Beato

Fomos conhecer o Manicómio, a nova galeria e ateliê da cidade onde os artistas assumem a loucura e lutam pela inclusão.

“Houve uma voz cá dentro que disse ‘tem calma’.” Pedro Ventura ri-se. Tem esquizofrenia paranóide, mas está medicado e não ouve vozes há três meses. Com um à-vontade desarmante, brinca com o seu diagnóstico psiquiátrico e relembra como se sentiu quando entrou pela primeira vez no Manicómio, o espaço de criação e “hub social”, para pessoas com experiência de doença mental, que está a nascer no Beato. A medicação controla a doença, mas não controla paixões nem talento. “Quando estou a fotografar, estou logo a pensar na fotografia seguinte”, confessa, com um brilho nos olhos. “É um vício.”

“Péssimo com datas”, Pedro não sabe determinar quando começou a fotografar. “Aconteceu por acaso”, no Hospital Júlio de Matos, onde dão aulas José Gonçalves, formador de fotografia e vídeo, e Sandro Resende, artista plástico. “O José estava lá e pediu-me para fotografar. Eu tirei umas fotografias e ele provavelmente percebeu que havia potencial para mais”, sugere. “Como pode calcular, não tenho formação, tudo o que sei foi ele que me ensinou.”

Portugal é, segundo um relatório sobre saúde da OCDE, o quinto país da União Europeia com mais casos de perturbações mentais, desde as relacionadas com a ansiedade às mais graves, como a esquizofrenia. Matar o estigma associado nunca foi tão premente. “Apesar de todas as intervenções feitas no Júlio de Matos, as pessoas têm receio de entrar. Esse estigma existe na cabeça dos doentes, dos familiares, dos próprios técnicos de saúde e do público”, alerta Sandro Resende, que começou a apresentar os trabalhos dos seus alunos às galerias, quando se apercebeu “da existência de obras com conteúdo”. “Mas não apostavam neles porque eram doentes.”

Manicómio

 

Sandro Resende, artista plástico, no Manicómio
Fotografia: Manuel Manso

 

Há décadas que Sandro transforma pavilhões devolutos em espaços expositivos, artísticos e de reabilitação, onde mistura criações de pacientes psiquiátricos com as de artistas de renome, como o arquitecto Souto Moura. “Muitas vezes o trabalho é igual em termos de qualidade, mas o mercado desqualifica o doente pela falta de formação.” É fundamental, acredita, trocar o preconceito pelo conhecimento. E está convicto que, fora de muros hospitalares, é possível fazer mais. No Manicómio, a inaugurar antes do final de Março, trabalham agora dez artistas, “com experiência de doença mental”. A galeria-ateliê, onde se conjuga a criação e a aproximação ao público, encontrou casa num espaço de coworking, no Beato. Aberto desde 2018, o Now (No Office Work) é, cada vez mais, “um local de criatividade”. Amplo, é inundado pela luz do sol que entra pelas janelas e pelos cheiros das plantas e da cafetaria saudável. Há um cão que parece uma estátua quando se senta a observar. As ideias (nas revistas, nas cabeças ou nas pontas dos dedos) ganham ânimo.

As paredes do Manicómio, por outro lado, estão vazias. Serão decoradas com projecções de vídeo, fotografias e textos emoldurados. “Já tenho trabalhos para este espaço”, orgulha-se Pedro Ventura. “Não sei se vão ser seleccionados, mas já estão feitos.” Para além de fotografar, Pedro também escreve (“ficção inspirada em mitologia e religião”) e começou a experimentar vídeo. Na primeira exposição do projecto Manicómio, “Insubordinar”, que esteve patente na Fidelidade Arte, no Chiado, expôs trabalhos seus. As peças que não foram vendidas, vão poder ser vistas (e compradas) no novo espaço.

Manicómio

 

Escultura de Anabela Soares
Fotografia: Manuel Manso

 

“Não existe paternalismo, mas sim exigência para que seja possível mostrar uma exposição de arte contemporânea condigna”, assegura Sandro. Criar é, mais do que uma terapia, uma profissão. Além de controlarem os próprios horários – como Pedro que, por morar longe, só trabalha duas vezes por semana –, os ocupantes do Manicómio têm direito a uma bolsa de estudo. Inclui refeições, transportes e um ordenado. Depois há as peças que vendem. “A Anabela vendeu, há pouco tempo, uma peça por 1500€.”

Anabela Soares e Francisco Gromicho, cujos trabalhos também estiveram na exposição do Chiado, são outros dos artistas residentes. Nas mesas de madeira, à mão de semear, estão as obras em barro de Anabela. Em monstros e frases cravadas, como “abandonada, atormentada, dor coração”, a artista exorciza os seus medos, vozes e anseios. A cabeça não manda nada, são os dedos que moldam a argila. Autora de pratos e esculturas, Anabela está em destaque no primeiro volume de uma colecção de livros editada pelo Manicómio. Para breve, está pensado o workshop “Faça um Monstro com a Anabela”. Além de oficinas, a programação vai incluir conferências sobre direitos sociais. No futuro, sonha-se em “replicar o projecto noutros espaços de coworking” e abrir um restaurante, também Manicómio, onde a arte será a da cozinha. Sandro explica: “Li um dia, não me recordo onde, ‘Manicómio, lugar de artistas e vanguardistas’.”

Rua do Grilo, 135. Seg-Sex, 09.00-19.00. Entrada livre

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