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Mare of Easttown
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‘Mare of Easttown’: uma pequena série para uma grande Kate Winslet

A actriz faz um papelão na nova minissérie da HBO, que se estreia segunda-feira e é um drama criminal e familiar. Não conseguimos esconder o entusiasmo.

Por
Hugo Torres
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Dez anos depois de Mildred Pierce, Kate Winslet está de volta à televisão. E se a série anterior lhe valeu um Globo de Ouro e um Emmy para melhor actriz numa minissérie, é muito provável que Mare of Easttown a impulsione para uma segunda vaga de prémios nesta categoria. A nova produção da HBO, com estreia marcada para esta segunda-feira, é uma montra em sete episódios do imenso talento de Winslet. A actriz interpreta uma detective da polícia, a Mare do título, cuja vida se desarticulou devido a vários traumas e tragédias familiares. Uma mulher com todas as defesas erguidas. Dura. Obstinada. Efusiva. Uma mulher retratada como um vulcão em constante erupção, lenta, certa, devastadora, sem explosões nem violência. Winslet tem a câmara persistentemente em si e percebe-se porquê: é impossível tirar os olhos dela e da construção de personagem que preparou e executou para aqui. Fica-se estarrecido, imobilizado com a dor de Mare, com o desespero espelhado no rosto contraído, o desespero que se instala em quem tenta manter-se à tona sabendo que já não aguenta muito mais. Como a lava que avança serenamente e sem freio para nos engolir. E nós parados perante o espectáculo. É quase transcendente.

Easttown é uma pequena cidade da Pensilvânia. Não um daqueles vilarejos da América rural que tantas vezes vemos no ecrã, mas suficientemente pequena para que toda a gente se conheça, toda a gente tenha um familiar, um amigo em comum, famílias que se entrelaçam e histórias que se sobrepõem. Ou seja, socialmente claustrofóbica. Nos EUA, elogia-se o criador e argumentista Brad Ingelsby por ter captado tão fielmente o ambiente destas cidades, compostas mas estagnadas, com uma tensão amistosa no ar, com um ressentimento resignado e palpável. É natural: Ingelsby foi nado e criado numa delas, e regressou à Pensilvânia para escrever esta minissérie. Mas isso não torna o seu trabalho menos notável. A forma como Winslet modula o seu very british accent para o sotaque local, sem um artificialismo evidente, também tem sido elogiado. No entanto, nada disto é um fim em si mesmo. São os meios que Mare of Easttown usa para nos cercar e embrenhar na sua história. Somos sugados por ela. É quase uma inevitabilidade querer ver todos os episódios de uma assentada. Sente-se uma ansiedade crescente, no lado do espectador, à medida que a série se vai desenrolando e que as personagens se vão desenvolvendo.

É um êxtase lento mas inexorável. Há um factor determinante para que assim seja: Mare of Easttown está sempre do lado de lá da tragédia, a carburar nas consequências. Não vemos as circunstâncias da morte do filho de Mare; não sabemos por que o seu neto, filho desse filho, mora com a avó e não com a mãe; não acompanhámos o divórcio de Mare após um longo casamento; chegámos com um ano de atraso face ao misterioso desaparecimento de uma jovem, filha de uma amiga de escola de Mare, sem que a investigação conduzida pela própria tenha encontrado qualquer indício desde então, resultando na deterioração da relação de confiança entre a comunidade e as autoridades policiais; e não sabemos quem matou a mãe adolescente cujo corpo surgiu no riacho com uma bala na cabeça e um dedo em falta. É no decurso desta investigação que vamos entrar na vida destas personagens, juntando-nos a Mare na obrigação de desconfiar de todas elas e no desconforto de ter de as confrontar. O empenho é visto como uma afronta – e é mesmo, apesar dos segredos que todos escondem. É difícil respirar. E os casos das duas jovens, estarão relacionados?

Mare of Easttown é simultaneamente um drama policial e familiar. Para cada uma dessas facetas, o realizador de todos os episódios, Craig Zobel (A Caçada, The Leftovers), tinha à disposição dois personagens-escape, que aliviam a tensão narrativa à volta da protagonista: Colin Zabel (Evan Peters), um detective do condado, que é chamado a ajudar na investigação e que, apesar de hierarquicamente superior a Mare, se vê inevitavelmente na posição do ajudante; e Richard Ryan (Guy Pearce, que tal como em Mildred Pierce dá corpo ao interesse romântico pós-divórcio de Winslet), um escritor que se mudou para a região para dar aulas na universidade local. Dois forasteiros, portanto. Mas é mais: a série tem momentos de sitcom, passados em casa de Mare, onde além dela própria, do neto órfão e da filha mais nova, mora também a mãe, Helen, interpretada por uma impiedosa Jean Smart. Os diálogos entre as duas matriarcas ora são passivo-agressivos ora de uma candura lancinante, introduzindo na história notas de humor negro à altura de tudo o resto. E o resto é um beco sem saída. Kate Winslet percebeu-o e por isso construiu esta personagem de fora para dentro – e vai ser necessário um embate de vida ou morte para lhe romper a couraça, deixando ver finalmente o medo colossal e humano que a corrói.

HBO. Seg (estreia)

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