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‘A Viagem de Monalisa’
DR‘A Viagem de Monalisa’

Monalisa, uma personagem que podia ser de Almodóvar

‘A Viagem de Monalisa’, documentário sobre o escritor chileno e performer Iván Monalisa Ojeda, chegou este mês à Filmin.

Por
Clara Silva
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Iván Monalisa Ojeda é um nome praticamente desconhecido na Europa, a não ser que esteja a par do submundo nova-iorquino de artistas e performers trans. Como Pedro Almodóvar, que recomendou o ano passado o livro de Monalisa, Las Biuty Queens, da Alfaguara, para salvar os dias de confinamento. Segundo Almodóvar, o livro publicado em Outubro de 2019 relata o “sonho americano visto do alto de uns bons saltos altos que a realidade transforma em pesadelo”. São 13 contos protagonizados por personagens trans e travesti que o chileno Iván Monalisa foi conhecendo em 26 anos a viver na cidade. “Os relatos podiam ser muito sórdidos, mas Iván Monalisa tem talento para dar vitalidade e graça às suas personagens. Conta-te as suas misérias como algo inevitável, com humor e sem vitimização.” E compara as personagens às vizinhas da sua mãe: “Partilham drogas, chulos, prémios de beleza, síndromes e delírios, mas são uma comunidade unida.”

Na altura, o escritor reagiu a esta recomendação do realizador numa entrevista ao jornal La Tercera e considerou-a “uma boa notícia na grande morgue que é Nova Iorque neste momento”. É este submundo pré-pandémico que é documentado no filme A Viagem de Monalisa, que chegou à plataforma Filmin em Abril. O documentário já se tinha estreado na última edição do Queer Lisboa, com a presença da realizadora, a também chilena Nicole Costa, que conheceu Iván na faculdade, ainda no Chile. Dezassete anos depois deste último encontro, Nicole Costa muda-se para Nova Iorque e em 2012 decide traçar um retrato do seu amigo, que vive ilegalmente na cidade desde 1995, onde se prostitui para pagar as contas.

Iván vive na dualidade dos dois pronomes ele/ela e identifica-se com os dois géneros. Monalisa, o seu alter ego, surgiu depois de deixar o Chile, onde abandonou uma carreira promissora no mundo do teatro para se reinventar neste universo mais marginal de Nova Iorque e descobrir a sua própria identidade. Além de acompanhar Monalisa na tentativa de conseguir um visto e nos seus primeiros sucessos na escrita, o filme também compila imagens antigas em VHS, conversas telefónicas e antigas performances, ao mesmo tempo que acompanha Monalisa a desfilar pelas ruas de Nova Iorque.

Numa entrevista ao site Women and Hollywood, a realizadora contou que o seu objectivo com o filme era que as pessoas sentissem empatia com a personagem, com toda a complexidade do ser humano, sem preconceitos morais. “E que possam ver Iván Monalisa como eu: com a profundidade e a consequência de quem teve a coragem de encontrar o seu próprio caminho, embora isso implicasse uma luta constante não só com os seus próprios fantasmas, mas também com os sistemas políticos e idiossincrasias dos países em que viveu.”

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