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Rua Morais Soares
©Mariana Valle LimaRua Morais Soares

Morais Soares, a rua que não dorme

A Morais Soares, em Lisboa, parece nunca ter confinado. Percorremos a rua de cima a baixo a falar com os comerciantes e voltámos para contar a história.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Da Praça do Chile à Parada do Alto de São João, a Rua Morais Soares tem 1 km de comprimento e muito comércio essencial. Mercearias, correios, farmácias, talhos, lojas de conveniência ou sucursais bancárias são alguns dos exemplos que ao longo do último ano mantiveram as portas abertas, numa zona central de Lisboa que continua a ser muito residencial. Esta é também uma das principais vias de passagem para quem ruma ao oriente da capital. Uma rua atarefada, que não caiu no silêncio geral causado pela pandemia mas que, ainda assim, não tem os cofres cheios.

Loja do Japão
Fotografia: Gabriell VieiraSupermercado Japão

Nasceu há mais de um século e começou por se chamar Rua do Conselheiro Morais Soares (o nome foi encurtado em 1916), num troço da antiga Estrada da Circunvalação. A antiguidade está à vista em casas maduras, como é o caso do Supermercado Japão (nº 137), nascido em 1919 e, na altura, conhecido pelos moradores como Loja Japão. Primeiro era especializado em cafés, em 1983 mudou de rumo para acolher uma grande variedade de produtos regionais portugueses. “O sócio que estava cá passou a quota ao funcionário e depois nós nos anos 80 comprámos a quota e renovámos o comércio, que estava muito velho. Mantivemos o nome, a firma é a mesma e o número de contribuinte também”, explica Jorge Santos, o actual proprietário. É a loja mais portuguesa da Morais Soares, apesar de se chamar Japão, e integra-se no conjunto de negócios que nunca teve de fechar a porta.

As quebras nas vendas resultantes da pandemia, aqui não chegaram. “Pelo contrário, houve um acrescimozinho. Mas agora está-se a notar um decréscimo, porque as pessoas não têm dinheiro, há muitas pessoas desempregadas, com dificuldades e isso torna o comércio um bocadinho mais difícil”, lamenta. O serviço de entrega ao domicílio já existia antes, uma máquina oleada que aceita encomendas por e-mail e telefone e faz entregas com funcionários da casa. “É uma rua que tem muito movimento, numa zona residencial muito populosa. E depois há muita gente aqui que se desloca para todo o lado, porque os transportes são fáceis. Ao final do dia é um fluxo grande de gente, cruza-se o transporte para Chelas, para o Alto de São João…”, descreve Jorge, que conhece bem os cantos à rua. Para ele, os pontos fracos da rua são a falta de limpeza da via pública, a fraca qualidade dos negócios que vão florescendo e, acima de tudo, a demora nas obras da estação de metro de Arroios, que já lhe custaram umas boas dezenas de milhares de euros.

talho na morais soares
©Mariana Valle LimaTalho's 29

Também popular, e com filas à porta nos horários mais concorridos, é o Talho’s 29 (nº 50 A), a loja mãe, inaugurada em 1984, de uma pequena cadeia que já tem três talhos em Lisboa e um em Loures. “Correu tudo normal, dentro do que se está a passar. As pessoas têm de comer alguma coisa”, conta o dono, João Simões, quanto ao número de clientes ao balcão. Mas uma fatia importante da clientela deixou de aparecer: a que costumava chegar dos restaurantes, que tiveram de encerrar por causa dos sucessivos Estados de Emergência. Além disso, o Talho’s 29 teve uma pequena quebra aos sábados em que, em vez de fecharem às 20.00, tiveram de parar às 17.00.

Ao longo da Morais Soares há ainda três farmácias, negócios que também estão na linha da frente como serviços essenciais à comunidade. Uma delas é a Farmácia São João (nº 56 D), adquirida por Rita Costa e Silva há 20 anos: um espaço bonito, com chão a imitar calçada portuguesa e um banco de jardim no interior. “A farmácia não fechou nem sábados, nem domingos, nem feriados”, diz a farmacêutica, ressalvando que agora estão a fechar ao domingo. Mas mesmo com a porta aberta, notou uma diminuição do número de clientes, de uma forma geral. “É a crise económica, directa ou indirectamente as farmácias vão sofrer, não há dinheiro para tudo. As pessoas sem emprego também não têm dinheiro para a farmácia.” Ainda assim, Rita diz que não há comparação entre o movimento da Morais Soares e, por exemplo, Belém, o seu bairro de residência. “Ali estamos numa pequena aldeia. Aqui as pessoas vêm à rua, sempre foi assim. Vêm aos bens essenciais e fazem a sua vida toda aqui.”

Farmácia na Rua Morais Soares
©Mariana Valle LimaFarmácia São João

Portas entreabertas

A pastelaria Nilde (nº 61) é um clássico da Morais Soares. Fundada em 1946, vende também produtos regionais, dos queijos aos enchidos, do folar de Valpaços ao bolo-rei, que aqui se come o ano inteiro. Na parede vê-se uma fotografia antiga da rua, a preto e branco, em memória dos velhos tempos. Encontrámos Márcio Alves, proprietário, ao postigo, sozinho a servir os clientes, a tratá-los pelo nome (“Cafezinho, João?”) e a fazer maratonas atrás do balcão. Os seus pais estão nesta casa há quase 25 anos, foi onde ele praticamente cresceu, o que explica a proximidade com a clientela.

A Nilde fechou totalmente nos primeiros dois meses de confinamento de 2020 e em Janeiro deste ano. Agora tem a porta aberta, mas a entrada vedada e Márcio a assumir as rédeas de tudo, já que os funcionários estão em layoff. Mas mesmo com um elevado fluxo de pessoas na rua, o proprietário considera a zona “uma aldeia”. E preocupa-se com os vizinhos de uma faixa etária em específico. “Se reparar, a maior parte são pessoas idosas. Pessoas que estão sozinhas em casa e não têm com quem falar. Vão ao supermercado duas ou três vezes e isso é o resultado da solidão. As pessoas sobem e descem a rua só para procurar uma palavra, para verem alguém”, diz, referindo-se a um dos seus principais grupos de clientes, habituados a um comércio mais “fresco e próximo”, como descreve.

A Nilde, na Morais Soares
©Mariana Valle LimaPastelaria Nilde

Menos antigo na rua, mas com experiência de 96 anos nos Restauradores, é o snack-bar Pirata, que se mudou para a Morais Soares em 2018, por não ter resistido à vaga de ocupação hoteleira no coração da cidade. Com ele levou os seus cocktails pirata (vinho generoso com gás) e perna de pau (vinho generoso, gás e ginjinha) e instalou-se noutra movimentada artéria, mantendo o espírito de sempre. No arranque da pandemia fecharam as portas e a facturação ressentiu-se. Mas José Almeida, gerente, prefere ver o copo meio cheio. “Tem-se remediado, não é mau de todo, porque há sítios bem piores, mas nada do que era. Não podemos negar que o layoff foi uma pequena ajuda. E contámos com a Câmara Municipal de Lisboa”, diz. A abertura para a venda de café ao postigo também foi uma lufada de ar fresco para as contas: “Quando se pode beber café já é um pouco melhor.”

À porta do Pirata, escondida num cantinho junto a uma caixa de electricidade, a cliente Isabel Pinto bebe o seu galão. “Agora venho só para isto. É uma pena, porque se houvesse esplanada eu pediria um galão e um bolo ou outra coisa. Tenho o hábito de parar aqui e comer um bitoque, por exemplo, que é fantástico”, diz a cliente, que reside na Estrela e que nas suas idas ao Celeiro, supermercado saudável da rua, aproveita para visitar o Pirata. “É horrível estar a beber no postigo, desta forma. Com uma esplanada, uma coisa puxa a outra…”

snack-bar Pirata
©Mariana Valle LimaPirata

Portas fechadas

Nem todos os negócios da Morais Soares foram considerados essenciais nos últimos meses, como é o caso do salão Teresa Cabeleireiros (nº 54 C), um dos espaços de beleza da rua. Mas mesmo com a porta aberta, as coisas parecem não ter voltado ao normal. “A cada confinamento, quando abrimos vêm menos pessoas. Ontem não fizemos nada. Trabalhamos bem, temos produtos profissionais e condições”, diz Idelma Cândida de Jesus, gerente do salão há quase cinco anos.

Não pouparam em gel desinfectante, em produtos para eliminar vírus do chão e cadeiras ou em máscaras que oferecem aos clientes, que assim não precisam de molhar as que levam, mas não parece surtir efeito. “As pessoas estão a ir para o mais barato do mais barato, mesmo que não seja bom. As lojas mudaram, agora há mais kebabs a um euro, cortes de cabelo de 4,50€, uma concorrência desleal. É outro tipo de atendimento, mas está na rua toda”, diz Idelma, que considera os preços das rendas “exorbitantes” na Morais Soares. Por isso mesmo, é possível que o salão rume a Benfica ainda antes do Verão.

Restauros e antiguidades São Luís
©Mariana Valle LimaSão Luís

Mais junto à Praça Paiva Couceiro encontra-se o antiquário São Luís (38 A), com bonitas peças de mobiliário bem guardadas pelo simpático cão Tupac. O seu tutor e dono do negócio, José Carlos Fernandes, estava à porta (uma pausa pelo meio do restauro de uma peça), mas os clientes teimam em não aparecer. “As lojas de manufactura de móveis em Lisboa fecharam quase todas, o comércio tradicional a este nível está decadente, e com a pandemia ainda pior. É quase uma quebra de 100%, devido ao medo de sair à rua”, conta. Tem feito restauros por marcação, mas a perda de poder de compra tem levado as pessoas a optar por soluções mais baratas para a decoração da casa. “Torna-se muito difícil. Estas coisas têm muito trabalho e parece que as pessoas não têm sensibilidade para dar esse valor.” A Morais Soares não dorme, mas no São Luís o negócio teima em não voltar a acordar.

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