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Na Casa Capitão, Bernardo Agrela mostra com quantas carcaças se faz uma "neo-tasca"

Numa ementa, clássicos da cozinha portuguesa moldados à modernidade. Na outra, ingredientes improváveis num papo-seco. À mesa ou no bar, a Casa Capitão renasce também como paragem gastronómica.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Mesa Casa Capitão
Filipe Gonçalves
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"Mesmo que não goste muito do rótulo, somos claramente uma neo-tasca." A nota introdutória de Bernardo Agrela ajuda a antever o que vamos encontrar na Mesa da Casa Capitão, espaço de buchas ligeiras, mas também também de demorados convívios – em termos de ambiente e da própria culinária que ali se pratica. "Tentamos não deixar morrer o sabor, mesmo que o receituário não seja o mais óbvio e tradicional português. Acho que se pode fazer fusões e pode-se modernizar e trazê-lo para o século XXI", esclarece o chef.

A proposta não é nova para a restauração lisboeta, nem para Agrela, que por sua vez também não é novo nesta casa, que reabriu portas no final do Setembro. Depois do pop-up na altura da pandemia, durante a primeira vida deste espaço cultural – quem lá esteve dificilmente esquecerá as bolas de Berlim recheadas com língua de vaca estufada – o chef volta com Mesa, projecto assente em duas cartas: as sanduíches, que também são servidas no bar, e uma ardósia com inscrições voláteis, onde interpreta receitas tradicionais portuguesas, constrói pratos a partir de ingredientes-estrela e reaviva memórias pessoais.

Bernardo Agrela
Francisco Romão PereiraBernardo Agrela

A abrir caminho, chega à mesa um escabeche de perdiz (13€). Um petisco para partilhar que anuncia aquela que será uma das apostas da casa, os pratos de caça. "Acho que encaixa muito na questão da sustentabilidade e que nós, cozinheiros, devíamos usar muito mais caça, porque são espécies autóctones, porque o animal viveu livre, a morte foi rápida e normalmente sem dor porque o tem um sabor especial, se compararmos com os perdizes da aviário", anota.

E de aves percebe Bernardo Agrela, que é também mentor do projecto Frangos do Além, fornecedor das carnes brancas, mas também dos ovos (de pata, quando há, ou de galinha). Através da relação directa que mantém com caçadores, outras carnes sazonais podem vir a ter lugar na Mesa. A este novo ramo do negócio chama Caça do Além.

Mesa Casa Capitão
Filipe GonçalvesBochechas com arroz de enchidos

Da tal ardósia, que ciranda pela sala, chegam outras delícias – escondidinho de bacalhau (13,50€), bochechas de vaca que se comem à colher e servidas com arroz de enchidos (14€) e um orzotto feito com caldo de marisco, acompanhado por uma lula recheada picante (16€), receita da avó, servida sobretudo ao domingo. O sabor está lá. Num restaurante pensado para bem servir, fazer dele uma opção democrática para picar ou jantar (almoçar só ao fim-de-semana) esteve desde início no caderno de encargos do chef. Afinal, vai funcionar em parte como complemento aos eventos, festas e concertos que aqui vão acontecer todas as semanas. "A Casa [Capitão] é um sítio com muitas pessoas diferentes, portanto a Mesa também tem que ter um bocadinho a capacidade de ir a todos os tipos de clientes. Temos coisas muito baratas em todo o lado, tanto nas sandes como no restaurante."

Sandes clássicas, assadas e especiais: o mundo numa carcaça

Restaurante e bar partilham uma outra carta, um rol de sanduíches que tem tanto de apetecível como de intrigante. A lista de ingredientes é igualmente extensa. Contudo, acabam todos no mesmo sítio: dentro de uma carcaça. "O fio condutor é a carcaça, para que não se extinga numa Lisboa cada vez mais globalizada, ainda mais a nível do pão", assinala Bernardo Agrela.

Amassado e cozido em casa, o tradicional papo-seco atravessa toda a ementa. Dentro dele, multiplicam-se as combinações improváveis. A começar pela sandes de polvo grelhado (11€), com feijão verde, cenouras à algarvia, alho frito e emulsão de ostra e agrião. Segundo o chef, "podia ser uma travessa de polvo à lagareiro, mas está dentro de um pão. Continuamos a respeitar a nossa tradição e os nossos sabores. Não comes numa travessa cheia de azeite. Não obstante, o sabor está lá".

Mesa Casa Capitão
Filipe Gonçalves

Entre as favoritas de Agrela estão também as sandes de espada frito (9€), que acomoda ainda molho vilão, escabeche de legumes, puré de milho doce e malagueta, de cachaço de porco panado (11€), que leva marmelada, salada de couve, funcho e maçã, e de ovos estrelados com sobrassada (5€). Promessas de dentadas felizes, que podem sempre ser acompanhadas com as sugestões da página seguinte – um "sticky rice" com lentilhas e couve-flor (9€), batatas fritas (4€), salada de verdes com maionese de café (3€) ou uns "noodles d'arroz" com legumes, lima e amendoim (9€).

Quanto à nobre missão de enaltecer a carcaça, a ideia já paira na cabeça de Bernardo Agrela há, pelo menos, cinco anos. Perante o que diz ser uma "descaracterização brutal" do centro da cidade, são novos núcleos como o Beato que começam a atrair cada vez mais as atenções. Aí, a gastronomia desemprenha um papel essencial. Na Casa Capitão, o chef quer alavancá-la com adaptações de produtos e receitas tipicamente portuguesas. "Eu achava que se estava a matar a nossa autenticidade. Agora, acho que ela só se está a adaptar, está a mudar. Hoje, se calhar, vamos muito mais facilmente a Sacavém, a Moscavide, a Loures ou à Damaia comer um prato de comida tradicional. O Bogotá, por exemplo. Se não houvesse um hit no downtown de Lisboa, o Bogotá nunca iria aparecer no mapa. Entra no mapa porque, no centro, deixou de haver aquele tipo de conceitos, estão a fechar", reflecte. "Também queremos que o Beato seja um novo centro na cidade e, por isso, é imperativo ter boa comida e bom ambiente. Se não há boa gastronomia, as pessoas só vão lá para beber e vão morrer", remata.

Mesa Casa Capitão
Filipe GonçalvesLula recheada com orzotto

Morrer parece ser precisamente a acção contrária do que ainda se está a fazer. Além de uma carta dinâmica – Agrela "não diria micro sazonal, mas quase" –, o arranque de 2026 vai trazer um pleno de eventos e colaborações. Os almoços de fim-de-semana são dignos de nota. A cabidela (12€) serve-se ao sábado, a feijoada (13€) chega ao domingo. No separador Bernardices, o chef explora por uma noite apenas ideias menos viáveis na restauração. Em Janeiro, recebe o chef de pastelaria Márcio Baltazar para executar um menu composto exclusivamente por sobremesas.

Já a rubrica Como em Casa passará sempre por receber um convidado na cozinha, seja ele profissional ou não. No dia 10 de Janeiro, a Mesa recebe Anaís Almeida, uma sanduicheira nata e figura cimeira do Clube Internacional da Carcaça. Será o primeiro de um ciclo mensal em que a chef também convidará alguém para dar tudo na cozinha – tudo o que couber dentro de um papo-seco, claro.

Rua do Grilo, 119 (Beato). Ter-Sex 19.00-00.00, Sáb-Dom 12.00-00.00

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