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A nova livraria da cidade abriu no Bairro Alto e vai ter programação cultural, incluindo pequenos concertos.

São dez da manhã e estamos na Rua do Trombeta, no Bairro Alto. Júlia Oliveira e Luís Gonçalo recebem-nos no número 4, onde fizeram nascer uma livraria alfarrabista no lugar de um antigo bar. Chama-se Utopia 111, encontra-se mesmo em frente à famosa sauna gay Trombeta Bath e vai ter programação cultural, como conversas e pequenos concertos. A ideia, contam-nos, é que seja um espaço de encontro, que faça também parte da vida nocturna, e que convide a estar, mais do que a passar.
O nome é, por um lado, um desejo – o de criar uma espécie de paraíso cultural – e, por outro, uma homenagem – ao Armazém 111, o negócio dos pais de Júlia, que nasceu em Tavira, mas costuma estar presente em feiras do livro por todo o país. “Os livros são-me mais familiares do que certos familiares”, confessa a jovem livreira entre risos. “Os meus pais são alfarrabistas desde que me conheço como gente e tenho um gosto pela leitura muito grande. Sempre entendi trabalhar no meio de livros, não como algo árduo, mas prazeroso. Por isso, quando chegou a altura de decidir o que fazer, foi aqui que me vi.”
Os pais avisaram-na – “olha que não é fácil”, revela Júlia –, mas não estar sozinha na aventura deu-lhe força para ir em frente. Conheceu Luís na Alameda da Universidade – estavam os dois a estudar na Faculdade de Letras, Júlia História da Arte e Luís Ciência da Informação – e foi em conjunto que começaram a sonhar com uma livraria “que tivesse mais do que livros”. “Basta entrar para perceber que também temos posters, postais, CDs, DVDs… E queremos ter concertos, sessões de poesia, palestras”, partilha Luís, antes de admitir saber que “abrir uma livraria em 2025 é por si só um acto utópico”. “Mas era o que queríamos, e que fosse além disso.”
Os livros – todos em segunda-mão, a maior parte em muito bom estado – estão em destaque, claro, e há-os para todos os gostos, em várias línguas, sobretudo português, inglês e francês. Quanto aos preços, também variam. “Temos a Leitura Nova de D. Manuel I [uma colecção de códices de pergaminho] a 200€ de um lado, Os Maias de Eça de Queirós a 5€ do outro”, diz Júlia. “Mas organizar tudo foi complicado, não vamos mentir.” O armazém está em Tavira e o transporte foi demorado. Por agora, têm mais de três mil títulos, entre ficção e não ficção, de títulos comerciais e autores consagrados a obras mais de nicho, incluindo de editoras já extintas, como a Difel e a Editorial Estampa.
Abrir na Rua da Trombeta foi um acaso. Andavam a ver espaços nas zonas de Alcântara e Belém quando Júlia deu de caras com um novo anúncio. “Tinha acabado de ser publicado e decidimos fazer uma visita, mas tivemos de escrever uma carta de apresentação do projecto, a dizer o que queríamos fazer aqui, como serviria a comunidade. Felizmente, a senhoria é muito simpática e entendeu logo a nossa visão”, diz, agradecida. Luís aproveita para fazer uma confidência: “No outro dia, veio cá uma vizinha e disse-nos que estava curiosa para ver o que ia abrir, porque antes era um bar e já estava farta do ambiente.”
Agora a música é só de ambiente e não há copos de plástico à porta, mas Júlia e Luís prometem que continuará a ser um espaço para se estar. “Estamos numa zona profundamente cultural, relativamente perto de lugares como a Galeria Zé dos Bois e a Casa do Comum”, relembra Luís, que reforça a ambição de ser um ponto de encontro para todos. “E isso é incluir também o pessoal que passa à noite”, acrescenta Júlia. “Quem vai para a discoteca, pode não querer carregar um livro, mas talvez queira comprar um CD, que pode guardar no bolso do casaco, ou ouvir um bocadinho de um concerto ou de uma conversa.”
A inauguração foi um sucesso. Houve bolo, poesia e muito convívio. Houve quem se surpreendesse com a idade dos livreiros e quem achasse que gente nova no meio dos livros é o que é preciso. “Somos novos, é verdade, mas as livrarias também são os seus livreiros. Quando criamos uma relação com o livreiro, quando o conhecemos e nos damos a conhecer, saímos a sentir ‘esta pessoa não me vai deixar mal, vai garantir que eu vou comprar o livro correcto para mim’, e é isso que queremos que aconteça, sobretudo porque gostávamos de incentivar a leitura entre o público mais jovem.”
Para o ano, haverá clube do livro, antecipam. Mas de resto está tudo no segredo dos deuses. Até os livros que virão a ocupar as estantes. “Compramos muitas vezes lotes e não fazemos ideia do que lá vem dentro. Às vezes nem têm só livros. Trazem postais lá pelo meio. Temos postais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo”, desvenda. À venda, há ainda cadernos e capas em pele, produzidas à mão pelo pai de Luís. Já as revistas literárias são só para consulta. “São antigas e têm valor sentimental para nós, mas temos café e podem vir lê-las.” Fica feito o convite.
Utopia 111, Rua do Trombeta, 4 (Bairro Alto). Seg-Sex 13.00-21.00, Sáb 10.00-14.00
Há uma nova editora na cidade – a Crosta quer pôr-nos a pensar sobre ecologia e estética –, livrarias a abrir que é uma maravilha – a Lumaca é para fãs de álbuns ilustrados e banda desenhada; a Gondwana promove “literaturas do Sul”; e a Saudade dá destaque a autores lusófonos – e feiras de Natal ao virar da esquina – a da Orfeu Negro e da Antígona promete preços “apocalípticos”, a do Livro Independente vai reunir mais de 30 editoras e a da Tinta-da-China é para fãs de descontos de até 50%.
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