Notícias

Na Utopia 111, há uma herança alfarrabista (e gente nova)

A nova livraria da cidade abriu no Bairro Alto e vai ter programação cultural, incluindo pequenos concertos.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Utopia 111
© Rita Chantre
Publicidade

São dez da manhã e estamos na Rua do Trombeta, no Bairro Alto. Júlia Oliveira e Luís Gonçalo recebem-nos no número 4, onde fizeram nascer uma livraria alfarrabista no lugar de um antigo bar. Chama-se Utopia 111, encontra-se mesmo em frente à famosa sauna gay Trombeta Bath e vai ter programação cultural, como conversas e pequenos concertos. A ideia, contam-nos, é que seja um espaço de encontro, que faça também parte da vida nocturna, e que convide a estar, mais do que a passar.

O nome é, por um lado, um desejo – o de criar uma espécie de paraíso cultural – e, por outro, uma homenagem – ao Armazém 111, o negócio dos pais de Júlia, que nasceu em Tavira, mas costuma estar presente em feiras do livro por todo o país. “Os livros são-me mais familiares do que certos familiares”, confessa a jovem livreira entre risos. “Os meus pais são alfarrabistas desde que me conheço como gente e tenho um gosto pela leitura muito grande. Sempre entendi trabalhar no meio de livros, não como algo árduo, mas prazeroso. Por isso, quando chegou a altura de decidir o que fazer, foi aqui que me vi.”

Utopia 111
© Rita ChantreLuís Gonçalo e Júlia Oliveira, na Utopia 111

Os pais avisaram-na – “olha que não é fácil”, revela Júlia –, mas não estar sozinha na aventura deu-lhe força para ir em frente. Conheceu Luís na Alameda da Universidade – estavam os dois a estudar na Faculdade de Letras, Júlia História da Arte e Luís Ciência da Informação – e foi em conjunto que começaram a sonhar com uma livraria “que tivesse mais do que livros”. “Basta entrar para perceber que também temos posters, postais, CDs, DVDs… E queremos ter concertos, sessões de poesia, palestras”, partilha Luís, antes de admitir saber que “abrir uma livraria em 2025 é por si só um acto utópico”. “Mas era o que queríamos, e que fosse além disso.”

Os livros – todos em segunda-mão, a maior parte em muito bom estado – estão em destaque, claro, e há-os para todos os gostos, em várias línguas, sobretudo português, inglês e francês. Quanto aos preços, também variam. “Temos a Leitura Nova de D. Manuel I [uma colecção de códices de pergaminho] a 200€ de um lado, Os Maias de Eça de Queirós a 5€ do outro”, diz Júlia. “Mas organizar tudo foi complicado, não vamos mentir.” O armazém está em Tavira e o transporte foi demorado. Por agora, têm mais de três mil títulos, entre ficção e não ficção, de títulos comerciais e autores consagrados a obras mais de nicho, incluindo de editoras já extintas, como a Difel e a Editorial Estampa.

Utopia 111
© Rita Chantre

Abrir na Rua da Trombeta foi um acaso. Andavam a ver espaços nas zonas de Alcântara e Belém quando Júlia deu de caras com um novo anúncio. “Tinha acabado de ser publicado e decidimos fazer uma visita, mas tivemos de escrever uma carta de apresentação do projecto, a dizer o que queríamos fazer aqui, como serviria a comunidade. Felizmente, a senhoria é muito simpática e entendeu logo a nossa visão”, diz, agradecida. Luís aproveita para fazer uma confidência: “No outro dia, veio cá uma vizinha e disse-nos que estava curiosa para ver o que ia abrir, porque antes era um bar e já estava farta do ambiente.”

Agora a música é só de ambiente e não há copos de plástico à porta, mas Júlia e Luís prometem que continuará a ser um espaço para se estar. “Estamos numa zona profundamente cultural, relativamente perto de lugares como a Galeria Zé dos Bois e a Casa do Comum”, relembra Luís, que reforça a ambição de ser um ponto de encontro para todos. “E isso é incluir também o pessoal que passa à noite”, acrescenta Júlia. “Quem vai para a discoteca, pode não querer carregar um livro, mas talvez queira comprar um CD, que pode guardar no bolso do casaco, ou ouvir um bocadinho de um concerto ou de uma conversa.”

Utopia 111
© Rita Chantre

A inauguração foi um sucesso. Houve bolo, poesia e muito convívio. Houve quem se surpreendesse com a idade dos livreiros e quem achasse que gente nova no meio dos livros é o que é preciso. “Somos novos, é verdade, mas as livrarias também são os seus livreiros. Quando criamos uma relação com o livreiro, quando o conhecemos e nos damos a conhecer, saímos a sentir ‘esta pessoa não me vai deixar mal, vai garantir que eu vou comprar o livro correcto para mim’, e é isso que queremos que aconteça, sobretudo porque gostávamos de incentivar a leitura entre o público mais jovem.”

Para o ano, haverá clube do livro, antecipam. Mas de resto está tudo no segredo dos deuses. Até os livros que virão a ocupar as estantes. “Compramos muitas vezes lotes e não fazemos ideia do que lá vem dentro. Às vezes nem têm só livros. Trazem postais lá pelo meio. Temos postais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo”, desvenda. À venda, há ainda cadernos e capas em pele, produzidas à mão pelo pai de Luís. Já as revistas literárias são só para consulta. “São antigas e têm valor sentimental para nós, mas temos café e podem vir lê-las.” Fica feito o convite.

Utopia 111, Rua do Trombeta, 4 (Bairro Alto). Seg-Sex 13.00-21.00, Sáb 10.00-14.00

As últimas para leitores na Time Out

Há uma nova editora na cidade – a Crosta quer pôr-nos a pensar sobre ecologia e estética –, livrarias a abrir que é uma maravilha – a Lumaca é para fãs de álbuns ilustrados e banda desenhada; a Gondwana promove “literaturas do Sul”; e a Saudade dá destaque a autores lusófonos – e feiras de Natal ao virar da esquina – a da Orfeu Negro e da Antígona promete preços “apocalípticos”, a do Livro Independente vai reunir mais de 30 editoras e a da Tinta-da-China é para fãs de descontos de até 50%.

Últimas notícias
    Publicidade