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'Nada acontece como planeamos', de Tiago Rodrigues, estreia no D. Maria II

Por Miguel Branco
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Nada acontece como planeamos é o exercício final de curso de 17 alunos da La Manufacture – Haute École des Arts de la Scène, escola de teatro suíça. O texto e a encenação são de Tiago Rodrigues e centra-se, sobretudo, na experiência de um estrangeiro em Lisboa. É, no fundo, uma carta desesperada a esta cidade desvirtuada. De hoje a domingo no Teatro Nacional D. Maria II.  

Uma mesa forrada a copos de shot. Ginjinha não falta. Nem gente que a beba. E depois claro, depois dizem que Nada acontece como planeamos. E dizem bem, esse que é o nome da nova peça de Tiago Rodrigues, que é também o espectáculo de final de curso de uma turma de dezassete alunos da La Manufacture – Haute École des Arts de la Scène, escola de teatro suíça com enorme reconhecimento mundial. Para ver de sexta a domingo no Teatro Nacional D. Maria II. 

Voltemos ao título, para considerar que quando sai em forma de frase é muitas vezes utilizada por gente deslocada, longe do seu lugar, no limite, por turistas, como estes alunos que vieram para Lisboa há dois meses e que como tal não são apenas finalistas, são pessoas numa cidade estranha. Nada acontece como planeamos percorre esse sentido de desorientação, de GPS estragado, de “parlez-vous français?". 

E todos esses desencontros são revelados em dezassete cartas de despedida, apresentadas por cada um dos alunos e que supostamente foram encontradas numa das casas onde alguns deles estão a ficar. Sim, supostamente: “Inventámos essa descoberta das cartas para, depois, falarmos de coisas que realmente aconteceram, que foram visitas à cidade; a descoberta de Lisboa, as nossas conversas sobre a ideia de despedida, ideia que atravessa o espectáculo, não só porque é um espectáculo de final de curso mas também porque Lisboa é uma cidade propensa às partidas”, explica Tiago Rodrigues. 

Explique-se também que as dezassete cartas são escritas por uma visitante da cidade que, depois de um amor-ao-primeiro-toque no Jardim do Príncipe Real com um português, demora dezassete dias, ou cartas, a despedir-se ou a tentar reencontrá-lo. Pelo meio O Cerejal de Tchekov (na lógica da despedida), e Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, esse soneto de Camões (na lógica do estrangeiro a tentar falar a língua local). 

Portanto, aqui fala-se de desamor, tanto quanto se fala de uma Lisboa que corre o risco de “transformar o centro histórico num parque temático para ricos, onde não há mistura nenhuma”, comenta o autor e encenador. Ainda que uma tela translúcida com uma imagem do Jardim do Príncipe Real esteja em palco, ainda que os intérpretes recitem Camões com um sotaque cómico, ainda que a tal visitante enamorada decida deixar uma caixa com itens que provam a sua existência – como uma madeixa, o número de telefone, um bocado de fita-cola com a sua impressão digital –, sabemos que Nada acontece como planeamos é um retrato desta Lisboa a desmoronar-se. Por muito que os imprevistos existam, talvez possam planear um bocado mais. Ou um bocadinho melhor.

Teatro Nacional D. Maria II. Sex-Sáb 21.00. Dom 16.00. 5-17€. 

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