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Não gosta de turistas? Fale com eles que melhora

Escrito por
Hugo Torres
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Estudo da Universidade de Aveiro relaciona a qualidade de vida de quem vive em cidades muito visitadas com o nível de interacção que os seus habitantes têm com os turistas.

O turismo tem costas largas: é bom para a economia e mau para a vida na cidade; é o anjo da reabilitação e o demónio da habitação; é cosmopolitismo e fila para tudo – transportes, restaurantes, museus, atravessar a passadeira. A percepção pode mudar de pessoa para pessoa, ou de dia para dia. Mas agora ficamos a saber, com caução da academia, o que já poderíamos intuir: se os habitantes interagirem com os forasteiros, essa percepção melhora.

Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) revela que “quanto maior é a interacção entre residentes e visitantes e mais satisfatória é essa interacção, mais positivos tendem a ser os impactes do turismo na qualidade de vida dos residentes”, lê-se numa nota da UA, que cita a investigadora Maria João Carneiro. E isto acontece porque se vislumbram oportunidades económicas, mas também por se registar “uma mudança de perspectiva mais abrangente no residente, que afecta diversos domínios da sua qualidade de vida”.

O inquérito que serviu de base ao estudo foi conduzido junto de habitantes de duas estâncias balneares de Ílhavo, na Costa Nova e na Praia da Barra, onde o turismo tem aumentado. As conclusões podem ser extrapoladas para todo o país, garante a equipa de investigação, embora sejam necessárias cautelas. Por exemplo, convém não dar um salto maior do que as pernas e aplicá-las sem reservas a grandes cidades como Lisboa ou Porto.

Maria João Carneiro – primeira autora do artigo publicado com Celeste Eusébio e Ana Caldeira no Journal of Quality Assurance in Hospitality & Tourism, a 12 de Setembro – explica à Time Out que as interacções que melhoram o olhar sobre os turistas “podem criar-se em contextos mais específicos, com contactos intra-comunidade e alguns tipos de turismo”. Não são possíveis “em todos os contextos” nem com “todos os tipos de turismo”.

Apesar de o estudo não diferenciar entre turistas nacionais e estrangeiros, a investigadora do Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo e da Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP) da UA recorda que há barreiras linguísticas e situações, como as visitas a monumentos, que dificultam a interacção. Maria João Carneiro sugere, no entanto, para o caso de Lisboa, que em áreas geográficas mais restritas, como Alfama ou no contexto de um museu, é possível fazer um trabalho de encontro entre residentes e visitantes que potencie o diálogo.

As interacções de que fala a equipa de investigadoras podem ou não ser programadas. Portugal ainda tem muito por fazer neste sentido, mas há exemplos a anotar: museus ou eventos em que os visitantes participam em actividades com residentes; empreendimentos de turismo rural em que os visitantes são recebidos pelos proprietários; ou a própria Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012, quando alguns residentes receberam músicos e visitantes na própria casa (outro caso semelhante passa-se no Bons Sons).

“Um contacto mais intenso e satisfatório com o visitante permite aos residentes obterem um maior conhecimento e compreensão da sua cultura e das suas atitudes, desenvolverem sentimentos mais positivos e atitudes mais favoráveis relativamente aos turistas e ao próprio desenvolvimento turístico e, até, terem uma maior receptividade a impactos turísticos menos positivos”, concluiu o estudo, segundo Maria João Carneiro.

Este tipo de interacção é, no entanto, ainda escassa em todo o mundo. Mais: é breve e formal, nas palavras das investigadoras. E resume-se a pedidos de informação ou a contextos comerciais e a prestações de serviços. Um maior investimento nesta matéria poderia, de acordo com o estudo, contribuir para mais oportunidades de socialização e recreação.

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