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'Nathan, o Sábio': uma oração à tolerância

Por Miguel Branco
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Em Nathan, o Sábio, que estreia este sábado no Teatro Municipal Joaquim Benite, e se prolonga até 17 de Dezembro, a religião quer dividir. Mas não vai conseguir, o radicalismo e o preconceito perdem aqui e perdem sempre. 

Vinte camelos trazem as melhores especiarias, carregam-lhe a riqueza deserto fora. Nathan, o Sábio (Luís Vicente), acaba de chegar a Jerusalém, vindo da Babilónia, e chega para dar, para se desfazer do seu ouro, para distribuir por quem precisar (daí a alcunha atribuída pelo povo). 

Como qualquer pai de mala em riste, Nathan quer ver  a filha Recha (interpretada por Leonor Alecrim, que se vai a ver e é adoptada e cristã, não judia como o pai) que ficou a cargo de Daya, a ama (Maria Rueff). As viagens têm destas coisas – sobretudo no século XII, em que o WhatsApp não encurta distância –, como o confronto da chegada: Recha foi salva de um incêndio quase fatal por um templário perturbado (André Pardal) que começa por recusar a recompensa, o agradecimento de Nathan. 

A nova e última produção da Companhia de Teatro de Almada, com encenação de Rodrigo Francisco, estreia este sábado no Teatro Municipal Joaquim Benite e é uma ode à tolerância. De tal forma que foi a primeira peça estreada pelo Teatro Nacional Alemão, em Berlim, depois da Segunda Grande Guerra. Nathan, o Sábio (1779) de Gotthold Ephraim Lessing, “é o Frei Luís de Sousa dos alemães”, garante Rodrigo Fransciso, e era um desejo antigo da companhia. 

O enredo desencadeia uma disputa religiosa, segredos que suscitam minitraições e lugares comuns de descriminação entre agentes das três religiões abraâmicas: judaica, cristã e muçulmana. Saladino (João Tempera), muçulmano que acaba de conquistar Jerusalém, quer extorquir dinheiro a Nathan; o templário acaba apaixonado por Recha e chocado com o facto de esta desconhecer a sua origem cristã e paterna; o Patriarca (André Gomes) quer meter Nathan na fogueira por tamanha atrocidade à Cristandade. Todos querem tudo e ninguém recua para entender, ninguém a não ser Nathan, claro, o Sábio. E talvez Rodrigo Francisco, fora do palco: “Em Julho, no Festival de Almada, houve um episódio que me confirmou que era necessário fazer este espectáculo. Uma polémica sobre a vinda de uma companhia israelita, havia pessoas que achavam que se devia censurá-la por ter o apoio do governo de Israel. Pensei que se homens como o Lessing tinham escrito obras destas no século XVIII era para que este tipo de coisas não acontecesse hoje em dia”, confessa. 

Perante uma caixa preta, um cenário despido de artefactos e  mobiliário, apenas suportado por pinturas originais de Pedro Calapez. Aqui, o que importa, é a palavra: “O texto é um poema dramático, não é uma peça, por isso a proposta aos actores foi que o texto sobressaísse, mais do que estar a criar um espectáculo de grandes efeitos”. No final, somos todos família.

Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada. Qua-Sáb 21.00. Dom 16.00. 6,50€-13€

+ Teatro: 12 peças obrigatórias em Dezembro

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