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Nesta biblioteca interminável, mãe e filha vivem sós

‘Livrar-me’ explora a relação entre uma mãe e uma filha, num universo em que os livros tomam lugar central. Está em cena no Teatro Meridional, a partir de 31 de Janeiro.

Beatriz Magalhães
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Beatriz Magalhães
Jornalista
Livrar-me
Livrar-me
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Na sala, já cheira a refogado. Pode soar estranho, já que não estamos numa cozinha (pelo menos, numa cozinha a sério), mas que cheira, cheira mesmo, não fosse a mãe estar a fazer uma sopa às três da manhã, enquanto lê um livro. A filha bem chama por ela, mas a mãe teima em não ouvir. Livrar-me explora a relação entre uma mãe e uma filha, entre uma mãe sem filha e uma filha sem mãe, e entre elas e os livros. Com texto da autoria de Ana Lázaro e co-criação e interpretação de Sandra Barata Belo e Raquel Oliveira, a peça está em cena no Teatro Meridional, de 31 de Janeiro a 18 de Fevereiro.

A ideia partiu de Sandra Barata Belo e Raquel Oliveira, que depressa se lembraram de Ana Lázaro para escrever o texto. Uma ideia eram, na verdade, várias ideias que deram origem a um universo próprio, centrado na relação entre duas mulheres. “Era um desejo nosso falar sobre a solidão, sobre o reconhecimento que os filhos precisam de ter dos pais. É uma questão humana, todos nós precisamos de ser reconhecidos e isto também fala muito sobre isso. Depois queríamos que os livros entrassem aqui, a personagem já não sabe se sente aquilo, vive aquilo, ou se estava num livro, e às tantas já confunde memórias, passado e presente”, conta Sandra Barato Belo em conversa, após um ensaio no Clube Oriental, em Marvila.  

Ana Lázaro quis, assim, dar voz às múltiplas dimensões que pode haver numa relação entre uma mãe e uma filha. “Cada vez mais me interessa, enquanto dramaturga e escritora, ter precisamente essa relação pessoal com as coisas, não necessariamente de uma forma biográfica, mas sentir que as coisas me dizem respeito, que de alguma forma vêm ou de um pensamento, ou de uma experiência que eu tenho.” 

Uma mulher, já em idade avançada, começa a perder a visão. Vive sozinha, rodeada de pilhas de livros sem fim. Não consegue dormir, por isso vai para a cozinha fazer uma sopa. Fala consigo mesma, revisita as memórias que tem da sua mãe e consola-se com velhas histórias. Sente-se sozinha, mas não vive só. Na sala, ecoa a voz de uma filha que também ali existe, ou já existiu, ou nunca chegou a existir. É uma realidade que comporta várias realidades diferentes que, por sua vez, compõem uma realidade partilhada com o público. “Eu acho que acaba por ser um espelho que reflecte no público e nas suas próprias vidas, porque acabamos por ter aqui imensa identificação daquilo que existe em cena, daquilo que existe e que nós quisemos propor, mas, na verdade, nós também decidimos não fechar absolutamente nada portanto as coisas estão bastante em aberto para que o público perceba aquilo que quiser”, diz Raquel Oliveira. 

Porém, apesar de no centro deste cruzamento de narrativas encontrarmos uma mãe e uma filha, os livros são a peça-chave do objecto teatral. O diálogo com eles estabelecido contribui para a construção destas personagens e desta história, sendo que ambas as actrizes proferem citações de obras de escritores como Afonso Cruz. Para a autora do texto, “no meio desta loucura que estamos a viver, neste mundo que se começa a tornar tão polarizado, o que nos pode salvar é mesmo essa capacidade de nós criarmos mundos imaginários, de sermos empáticos, de escutar outras vozes que não a nossa. Eu sinto-me sempre muito privilegiada quando estou a ler um livro, porque sinto mesmo que tenho acesso a uma pessoa que pode até nem estar já cá, mas que de repente está a falar comigo e isso é uma coisa tão mágica que também quis pôr aqui, neste universo.”

A voz "etérea" de Luísa Sobral

A acompanhar os diálogos e monólogos, tocam, de vez em quando, músicas de Luísa Sobral, que em simultâneo introduzem uma próxima cena. “Nós gostamos imenso dela e achámos que a voz dela é tão etérea e também tem essa capacidade mágica de nos colocar noutra dimensão”, afirma Sandra.   

Até ao fim da peça, no centro do palco, permanece uma grande estrutura de metal com prateleiras de cima a baixo, repleta de livros, tal e qual uma “biblioteca interminável”, que serve de apoio à acção. Nela, mãe e filha, sobem, descem e contornam, encontrando-se por vezes. Ambas vivem nesta biblioteca, uma de um lado e outra do outro, às tantas até do mesmo lado. Entre prateleiras infindáveis, entre livros e mais livros, uma mãe e uma filha dão-se a conhecer ao público.

Teatro Meridional (Marvila). 31 Jan-18 Fev. Qua-Sáb 21.00 Dom 16.00. 12€

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