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Neste "Alice no País das Maravilhas", o absurdo é falar

Por Miguel Branco
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Alice no País das Maravilhas, com encenação de Maria João Luís e Ricardo Neves-Neves para o D. Maria II, é cair numa toca de coelho nonsense. É entrar mudo e sair calado.

No final de 2016, Maria João Luís (Teatro da Terra) e Ricardo Neves-Neves (Teatro do Eléctrico) encenaram Um Conto de Natal, um clássico de Charles Dickens, no Teatro da Trindade. Agora, a partir desta quinta-feira e até ao Dia de Reis, voltam a dar-nos teatro para meter no sapatinho e novamente com um clássico gigante: Alice no País das Maravilhas, para ver no Teatro Nacional D.Maria II.

É o regresso às co-produções entre as duas estruturas lideradas pelos dois encenadores. E, pois claro, sempre em torno de um mundo pouco real pintado com problemas de escala, canções estranhas, animais e cartas que adoram conversar. “Há uma coisa de gosto por uma determinada linguagem, ainda que seja ligeiramente diferente, que eu e a Maria João temos, que é uma grande ligação ao surrealismo por parte da Maria João e uma grande ligação ao absurdo e ao nonsense naquilo que procuro e que me entusiasma. E este não é só um texto que nos diverte, é um texto que nos faz muito pensar, que nos emociona”, explica Ricardo Neves-Neves.

A história é universal, uma menina com resposta sempre pronta e vontade de continuar a descobrir. Se pensarmos que este texto de Lewis Carroll é de 1865 somos forçados a admitir, à boleia de Maria João Luís, que Alice tem uma voz. “É uma menina, no século XIX, numa altura em que começa a haver uma voz feminina. Ela é provocada e reage contra uma ordem, essa revolução na sociedade está aqui”, conta.

Sabemos que Alice cai numa toca de coelho – um coelho cuja frase preferida é “oh dear”, com um sotaque britânico quase imperceptível – e daí em diante somos domados, os olhos não param de receber estímulos, é um universo colorido e caótico que a palavra diminui. “É uma toca de pensamento e de imagens, que não tem propriamente a ver com a palavra. É muito engraçado perceber que nas tuas 24 horas diárias tu habitas essa toca, é esse o teu mundo, tu sais desse mundo para falar. É quando és obrigado a organizar o pensamento que tramas tudo, perdes mais de metade, e a coisa fica mais pequena e redutora”, enquadra Maria João Luís.

Caso para dizer que Alice no País das Maravilhas é pré-organização, pertence a um terreno individualista, comparável talvez ao esforço – sempre insuficiente – de contar um sonho que nos perturbou a manhã. A quem nada parece perturbar é a Alice, que cresce e ganha tamanho a cada paragem, que confronta adultos em banquetes, que parece cada vez mais pertencer à toca do coelho, que parece ter cada vez mais amigos, ainda que eles se movam de uma forma trôpega e absurda: “Há uma zona que tem a ver com a vontade que temos de trabalhar a leveza, não é para fazer um espectáculo levezinho, não é nada disso, a leveza é um grande desafio para um actor. As personagens pedem esse lado livre do pensamento, esse lado etéreo de sonho e de brincadeira”, afirma Neves-Neves. Brinquemos, sonhemos, façamos todos como Alice.

De Lewis Caroll Adaptação Ricardo Neves-Neves Encenação Maria João Luís e Ricardo Neves-Neves Com Ana Amaral, Beatriz Frazão, Beatriz Maia, Helena Caldeira, Inês Dias, Joana Campelo, José Leite, Leonor Wellenkamp Carretas, Márcia Cardoso, Maria João Luís, Patrícia Andrade, Pedro Lacerda, Rafael Gomes, Sílvia Figueiredo

Teatro Nacional D. Maria II. Qua-Sáb 19.00. Dom 16.00. 10-17€.

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