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10000 gestos
©Tristram Kenton

Neste espectáculo, cada gesto é único. Nunca se repete

Por Miguel Branco
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A mais recente criação do coreógrafo francês Boris Charmatz passa pela Culturgest, sexta-feira e sábado. 10000 gestos é o que o nome indica: um espectáculo onde cada movimento é irrepetível. Uma maravilha.

Nova Iorque terá sempre o seu encanto. Boris Charmatz – um dos mais significativos coreógrafos franceses da actualidade – estava a retrabalhar uma versão mais longa do seu espectáculo Levée des conflits, no MoMA, em 2013, depois de o ter estreado em 2011, no Festival d’Avignon. Nessa performance só existiam 25 movimentos, feitos por 24 bailarinos. “O que me passou pela cabeça na altura foi: e se fizéssemos o oposto disto? Nunca repetir um gesto, fazer um espectáculo em que um gesto, uma vez feito, nunca voltaria”, explica. Dessa epifania resultou 10.000 gestos, um tratado de efemeridade, uma tela que pode ser confundida com um museu vivo habitado por 24 intérpretes e a sua singularidade irrepetível. Tudo para ver esta sexta-feira e este sábado na Culturgest.

No arranque, uma bailarina está sozinha em cena, numa busca frenética por qualquer coisa. Depressa, em corrida veemente, vêm os outros 23. Uns em roupa interior, outros com fatos que parecem roubados a ninjas, outros talvez roubados a pintores surrealistas. Fazem um movimento, param e fazem outro. Sempre assim. No fundo, juntam-se em cena para serem eles próprios, com apenas uma regra: não vale repetir gesto nenhum. E como é que isto se trabalha? “Chegámos a pensar criar um software qualquer, um processo no computador para definir o que cada um fazia a cada momento. Também pensámos mais numa coisa de exposição, para apresentarmos os 10.000 gestos um de cada vez, mas depois voltámos à ideia de trabalharmos de uma forma mais tradicional, humana, um processo em que estivéssemos todos juntos, sem computador. O que importa é a motivação de cada um para certo gesto, que pode ser tudo e que só tem que ser diferente do anterior e do seguinte. Não posso, obviamente, garantir que nenhum é repetido, isso é subjectivo, mas demos o nosso melhor”, esclarece Boris Charmatz.

Os gestos vão do erotismo à simples parvoíce, ou seja, não há manual estético, tanto pode ser alguém a chupar o seu dedo grande do pé, como alguém a fingir que filma outrem, ou apenas a típica e trôpega dança egípcia, a imitar faraós. Dá que pensar: por quantos estados passam estes bailarinos? Resposta impossível. O que sabemos é que as possibilidades do espectador são infinitas, tudo à boleia de micronarrativas criadas por cada intérprete: “O que eu gosto é que num segundo – vamos supor que os bailarinos fazem dois movimentos por segundo – há 50 gestos. O interessante é que cada espectador possa ver tantas dessas micronarrativas. Cada espectador vê um pedaço de história através de cada bailarino. O que eu estou a ver, não é o mesmo que tu estás a ver. Cada espectador faz a sua própria dramaturgia”, admite. Viva a liberdade.

Coreografia Boris Charmatz
Com Djino Alolo Sabin, Or Avishay, Régis Badel, Jessica Batut, Nadia Beugré, Alina Bilokon, Nuno Bizarro, Mathieu Burner, Ashley Chen, Konan Dayot, Olga Dukhovnaya, Sidonie Duret, Bryana Fritz, Julien Gallée-Ferré, Kerem Gelebek, Alexis Hedouin, Rémy Héritier, Tatiana Julien, Samuel Lefeuvre, Noé Pellencin, Solène Wachter, Frank Willens

Culturgest. Sex 21.00. Sáb 19.00. 9-18€. 

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