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Netflix: originais portugueses? “Vai acontecer em determinada altura”

Por
Claudia Lima Carvalho
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Ainda não é desta que a Netflix anuncia uma produção portuguesa, mas Yann Lafarge, director de tecnologia e de comunicação da empresa na Europa, deixa essa hipótese em aberto. Embora não revele números, como é prática habitual na Neftlix, há cada vez mais portugueses fãs do serviço de streaming. E dá um exemplo: há menos pessoas a falar dinamarquês no mundo do que português e não foi por isso que o serviço de streaming não apostou numa série original. Lafarge, que esteve em Lisboa, refere-se a The Rain, um sucesso global, já com a segunda temporada assegurada.

Alguma boa notícia para Portugal?

Notícias fantásticas. O mercado está a correr muito bem, em termos de perfomance estamos contentes. Lançámos a Netflix em Portugal há cerca de três anos, em Outubro de 2015, e o que vimos é que houve uma aceleração no crescimento e há várias razões para isso. Em primeiro lugar, investimos na qualidade e quantidade do catálago, que é agora cinco vezes maior, temos cinco vezes mais títulos do que quando começámos. E não se trata apenas de volume, porque podíamos comprar uma data de conteúdo que ninguém quer ver. É mesmo uma questão de qualidade. Só este ano, em produções Netflix, estamos a lançar mil produções originais. Mil títulos. Narcos é um deles, Stranger Things é outro. Estamos a tornar-nos num estúdio muito importante. E o que é importante é que não somos um estúdio apenas de Hollywood, somos um estúdio internacional, que cria conteúdo e histórias que podem vir de qualquer parte do mundo.

Então para quando uma série em Portugal?

Só na Europa estamos actualmente a filmar em 16 países. Ainda não em Portugal, é verdade, mas vai acontecer em determinada altura provavelmente. O que está a acontecer é que estamos a produzir cada vez mais fora dos Estados Unidos. Nós não olhamos para um conteúdo local como um original francês, por exemplo, mas sim como uma história local que pode transcender fronteiras porque o conteúdo é óptimo e universal. Esta é a beleza da Netflix – a escala. Estamos em 199 países, temos 125 milhões subscritores em todo o mundo. Isto significa que todos os dias temos milhões de pessoas a ver a Netflix. Só este ano, temos 100 títulos europeus que vão chegar à plataforma. Estamos mesmo a mudar o paradigma. Acreditamos e sabemos que as pessoas gostam destas séries locais, como aconteceu com a série alemã Dark. Fizemos uma coisa completamente diferente, mais syfy, esotérica e foi um grande sucesso. Nove das dez horas da série foram vistas fora da Alemanha. The Rain foi mais ou menos a mesma coisa. Nos Estados Unidos, The Rain foi tão grande como uma das séries que passa na televisão de qualquer canal. Se pensarmos nisso, é incrível para um país como a Dinamarca com poucos milhões de habitantes. Ainda por cima não há assim tantas pessoas a falar dinamarquês, não é como o português que dá também para o Brasil, por exemplo. Um canal local nunca teria recursos para fazer isto. Não com a qualidade que fazemos porque queremos que a experiência de ver um conteúdo em casa seja tão boa ou melhor que num cinema em qualquer parte do mundo. E isto é óptimo para democratizar o conteúdo.

Quantos subscritores têm em Portugal?

Não divulgamos números, mas posso dizer que está a correr muito bem. Estamos muito contentes com a performance. O catálogo tem crescido e com muita qualidade. Continuamos a conquistar pessoas e isto é muito importante. É sempre um bom sinal quando isso acontece quando não prendemos ninguém a qualquer período de fidelização. Deixar de subscrever a Netflix é facílimo e no entanto isso é residual. A Netflix já faz parte da cultura. Quantos jantares de família, encontros com amigos, não acabam com conversas sobre as séries que estão na plataforma?

Qual é o maior desafio?

As pessoas são as nossas melhores embaixadoras. Se gostaram do que viram, vão partilhar e é por isso que a qualidade e a aposta local são tão importantes para nós. Não somos uma marca americana, queremos ser locais, perceber o que é importante e relevante para vocês aqui. O que posso dizer é que o número de subscritores estrangeiros é maior que o número de subscritores domésticos, ou seja, nos Estados Unidos. E isto não vai mudar, só vai crescer. São já 68 milhões dos 125 milhões. Por cada utilizador americano, há três ou quatro internacionais. Há um crescimento muito grande também porque o mercado está mais educado. Quando começámos, o streaming não era sequer conhecido. É preciso que as pessoas percebam: para a Netflix, não há países de segunda. É por isso que todos os nossos conteúdos chegam ao mesmo tempo a todo o lado.  

É assim que se combate a pirataria?

Temos estudos que mostram que a pirataria baixou em sítios onde a taxa era muito elevada, como o Canadá. É engraçado, mas o ano passado um dos estúdios que estava a fazer a pós-produção de Orange Is The New Black foi pirateado e ameaçaram-nos que divulgariam os episódios se não lhes pagássemos. Nós decidimos que não o faríamos e a verdade é que o impacto foi mínimo. A verdade é que as pessoas preferem esperar confortáveis com a certeza de que na sexta-feira terão todos os episódios com a melhor qualidade possível. É quando isto acontece que percebemos que fizemos alguma coisa para mudar o comportamento do consumidor.

Porque é que a indústria continua olha para a Netflix como uma ameaça?

Quando começas alguma coisa nova, há sempre alguém que se sente ameaçado. Mas é o contrário. Estamos aqui para tornar a tarte ainda maior. Foi isso que aconteceu com muitos parceiros. Primeiro não quiseram nada connosco e agora trabalhamos juntos. É a mesma coisa com a indústria. Precisa de se reinventar e perceber do que se trata. Nós amamos o cinema, amamos o conteúdo. Somos apenas pró-consumidor. Queremos dar a escolha, o poder de decisão, ao consumidor. Não somos sequer contra exibir os filmes nas salas de cinema, são os exibidores que não o querem fazer. Para nós, o financiamento do conteúdo vem das pessoas que pagam as subscrições, por isso são essas que têm de ter acesso ao conteúdo primeiro. Se queres ter o conteúdo no cinema ao mesmo tempo, por mim tudo bem. Só no cinema é que não.

Foi isso que aconteceu com o Festival de Cannes, que não vos deixou concorrer?

Em Cannes, as coisas vão acabar por mudar. Vamos ver como corre no próximo ano. É uma situação específica por causa da lei que não permite que um filme que passe no cinema fique disponível nos serviços de streaming durante três anos. Para nós, como negócio, isso não faz sentido. Por exemplo, nós comprámos Divines, de Houda Benyamina, premiado em Cannes, há dois anos, e ainda não está na Netflix. Está disponível em Portugal, mas não está disponível em França. E é um conteúdo francês. Só em 2019. Mas as coisas vão evoluir.

Como é que o movimento #MeToo e o escandâlo com o Kevin Spacey afectou a Netflix? Mudou alguma coisa?

Não nos afectou propriamente. Mas tomámos algumas decisões corajosas quando percebemos que havia coisas que não estavam bem. Mas já falámos sobre isso e não vale a pena voltar aí. Mas, para o futuro, já estamos a tentar aplicar um programa para que todas as pessoas a trabalhar nas produções da Netflix se sintam seguras no trabalho. Queremos que venham trabalhar e não se sintam ameaçadas. Houve até algumas notícias absurdas que trivializaram um tópico tão sério quando disseram que tínhamos aplicado uma medida que impedia que alguém olhasse o outro por mais de cinco segundos. É um absurdo. É um programa, são boas práticas. O movimento #MeToo aconteceu à escala global e foi importante. Tudo o que puder ser feito para ajudar as pessoas a sentirem-se seguras devia ser bem-vindo.

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