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Casa Cheia
Mariana Valle Lima

O Bairro Lopes não está morto – e vai ter uma Casa Cheia de cultura

É possível descentralizar a cultura na cidade? Inaugura esta quarta-feira o espaço Casa Cheia, um centro artístico numa zona residencial de Lisboa, o Bairro Lopes.

Escrito por
Joana Moreira
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A rua é pacata, gente nem vê-la, e multiplicam-se os espaços comerciais fechados à espera de quem os ocupe. São 11 da manhã e os jovens com a chave do número 3 da Rua Lopes, na Penha de França, esperam que, daqui a uns anos, o cenário seja diferente. Por isso farão eles.

Alice Ruiz, 25, e Miguel Mateus, 28, são os anfitriões do Espaço Casa Cheia, o novo centro cultural que está a nascer no Bairro Lopes, no Alto de São João. São também moradores do bairro que querem revitalizar, criando o primeiro de muitos projectos que sirvam a comunidade residente na freguesia. “A nossa perspectiva é que esta rua comece a ficar preenchida de coisas e que as pessoas não tenham de ir à [praça] Paiva Couceiro ou à Graça, que possam não vir só dormir aqui. Há imensas lojas abandonadas, para arrendar ou para vender. Não faz sentido tendo em conta as pessoas que aqui vivem. O nosso objectivo é que apareça outro espaço cultural, que apareça um café novo, um bar, restaurante”, diz Miguel, que descobriu neste bairro popular dos anos 30 uma comunidade que “sente que aqui está tudo vazio, morto”. “E não está. Há espaço, há vida para isso.” 

Um dos capítulos da nova vida do bairro começa a 14 de Setembro, dia em que se abrem as portas do Espaço Casa Cheia, que é também a sede da companhia de teatro com o mesmo nome – que nos últimos anos sofreu alterações profundas, com a saída de alguns membros que foram criar o Teatro Bastardo, em 2019. Miguel, actor e encenador, é o único que se mantém da formação original, enquanto director. Alice, música e actriz, é um dos novos elementos da companhia. Mas, porque nem só de teatro se faz este espaço, o núcleo de oito pessoas da Casa Cheia inclui também músicos. Aliás, as portas estão abertas a ensaios desde Julho. 

Casa Cheia
Mariana Valle Lima

Se dúvidas houvesse sobre se ali há artistas, isso está bem legível no chão da calçada à entrada, uma mensagem preservada naquele lugar que já foi “uma azulejaria, uma tipografia, e ainda passou por ser um armazém de moda de um estilista espanhol”, revela Alice. À esquerda, o chão em linóleo delimita a área onde em breve acontecerão espectáculos e concertos. À direita, há uma pequena sala de ensaios e ainda uma copa, que fechará para os espectáculos e abrirá para os concertos. 

“Claro que eventualmente teremos uma teia, alguma coisa que se assemelhe a uma blackbox, isto vai levar cortinas, vamos ter projectores, portanto vai ser um palco”, explica Miguel sobre o que falta num sonho que é “para ir concretizando aos poucos”. Para já, o espaço é já uma vitória. “Cada vez há menos espaço e mais artistas. Sobretudo na área do teatro. Toda a malta que sai da faculdade forma uma companhia, por reacção natural”, alerta o actor. “E há espaço para toda a gente, não há é espaço para os artistas trabalharem”, argumenta Alice. É uma das razões pelas quais têm sido “tão bem recebidos”, apontam. Neste par de meses, já por ali passaram uma série de artistas, sobretudo emergentes, que encontram dificuldades em ensaiar e trabalhar em novos projectos no centro da cidade. 

Por enquanto, as movimentações no rés-do-chão da casa amarela já têm despertado a atenção da vizinhança. “De repente vamos à janela e a senhora com 80 anos diz-nos ‘então o que é que vai acontecer aí?’”, conta Alice. Muita coisa, esperam. Depois da inauguração, os concertos arrancam dia 17, com o trio de jazz composto por Nazaré da Silva, João Gato e Zé Almeida. A 24 de Setembro é tempo de ouvir “Cantigas de Abril e Maio”, com Samuel Dias, Francisco Nogueira e Bernardo Tinoco. Teatro só chega em Novembro, com um espectáculo de Daniel Moutinho sobre a anatomia do corpo (dias 4, 5 e 6). A 18, 19 e 20 do mesmo mês, Luísa Fidalgo apresenta uma performance feita especificamente para o Espaço Casa Cheia.  

A programação regular vai incluir ainda sessões de poesia “para apresentar poetas contemporâneos”, e encontros que são “portas abertas para filosofar”. Workshops, cursos e exposições também estão na calha. Sem portas fechadas a novas ideias e sugestões. “Queremos criar vida e sinergias artísticas no [nosso] próprio bairro, promover encontros e conversas produtivas”. "A ideia é ser um espaço que serve a comunidade”, resume Miguel. 

Espaço Casa Cheia. Rua Lopes 3 (Penha de França) 

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