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Apollon
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O corpo de Florentina é um circo

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Apollon é um espectáculo da austríaca Florentina Holzinger que se apropria da estética sideshow, para a confrontar com o ballet, com alta-cultura. O resultado é uma vertigem de variedades, violenta, viril, feminina.

Duas passadeiras de ginásio, uma tela de nuvens ou a ideia de céu projectada ao fundo, e uma intérprete, nua, que se chega à boca de cena, coloca um prego no nariz e começa a martelá-lo até desaparecer dentro de si. Eis o primeiro momento de cortar à faca. De seguida, entra uma mestre de cerimónias – também nua, como todo o elenco – com um carrinho de bar, promete-nos números diversos e terríficos, sangue e vontade de vomitar, canibalismo, tudo. É um espectáculo de variedades, no qual gente engole facas e balões fálicos. Estamos em Apollon, da criadora austríaca Florentina Holzinger, que partiu do ballet Apollon Musagète, do coreógrafo russo George Balanchine, estreado em 1928. É uma fusão entre circo e ballet, entre alta cultura e freakshow, para ver quinta e sexta-feira no TBA.

Foi em 2015 que Flo Holzinger viu o espectáculo de Balanchine, feito pelo Dutch National Ballet, em Amesterdão, e foi amor à primeira vista. Apeteceu-lhe logo refazer a coisa para um elenco totalmente feminino. Pela mesma altura, a artista tropeçou num sideshow em Coney Island, Nova Iorque, e, subitamente, percebeu que a utilização do corpo naquele contexto não era assim tão distinto do seu, enquanto bailarina: “A única diferença era o contexto. Em palco, o que era entendido como entretenimento era, no meu caso, entendido como arte. Sempre entendi o meu corpo como uma trickmachine [máquina de truques], que pode realizar efeitos especiais – sem a necessidade de nenhum dispositivo extra – apenas usando a possibilidade de um corpo humano comum”, explica.

É inevitável que o espírito de Apollon seja próximo do circo. É como se ali estivéssemos à espera da vez dos palhaços, dos domadores de elefantes, só que aqui cortam-se pulsos, monta-se um touro mecânico com uma cara-glitter, faz-se culturismo, prepara-se um gin tónico caricato, defeca-se, urina-se, e um Darth Vader anda de passadeira enquanto diz: “I am your mother”. Pelo meio, há espaço para uma aparente coreografia de Apollon, ainda que vitaminada por todo este envolvente de beleza viril. Os homens querem-se fora daqui, até porque no original Apolo é visitado pelas suas musas, passa--lhes conhecimento: “Senti que refazer este espectáculo numa constelação diferente diria muito sobre os estereótipos que ainda estão muito presentes na altacultura. Ao mesmo tempo, liguei-me a Apolo na perspectiva de coreógrafo. Eu estava à procura do meu elenco de uma maneira que imaginei Apolo a procurar as suas musas. Eu queria que o espectáculo destacasse todas as minhas musas naquele momento, mulheres que realmente me inspiram e com as quais eu queria passar mais tempo, aprender mais”, afirma Holzinger. Aprendamos.

Teatro do Bairro Alto. Qui-Sex 21.30. 5-12€.

Criação Florentina Holzinger
Com Renée Copraij, Evelyn Frantti, Florentina Holzinger, Annina Lara, Maria Machaz, Xana Novais, Maria Netti Nüganen e Stephan Schneider

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