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Exposição Gabriela Albergaria
DRExposição Gabriela Albergaria

O eterno duelo entre os humanos e a natureza em exposição na Culturgest

“A natureza detesta linhas rectas”, primeira exposição antológica de Gabriela Albergaria, inaugurou na Culturgest no dia 17.

Por Maria Monteiro
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No início, os amigos de Gabriela Albergaria (n.1965, Vale de Cambra) gracejavam e diziam que andava sempre no meio de nenhures. Ainda hoje é entre caminhos de terra e pedra, árvores com troncos e copas de várias formas e feitios, montanhas despidas ou forradas de floresta, férteis terrenos agrícolas e humildes jardins urbanos que a artista plástica encontra tanto o ateliê como a matéria-prima para dar forma às suas obras.

Habituada a sujar as unhas no chão desde criança, em passeios pela natureza com os pais ou na prática rotineira da jardinagem, parecia destinada a fazer da paisagem natural o seu objecto de criação. Mas só com a entrada na vida adulta começou deliberadamente a desenvolver uma relação informada, crítica e interventiva com a natureza, através de fotografia, desenho, escultura e instalação.

Desde meados dos anos 1990, Gabriela Albergaria tem registado e explorado a transformação e manipulação da natureza pela mão humana, a aculturação e apropriação da paisagem natural – impulsionadas pela globalização iniciada no século XV com as explorações marítimas –, e a alteração dos ecossistemas devido à importação e domesticação de espécies vegetais.

É esta fricção entre humano e natural que atravessa “A natureza detesta linhas rectas”, exposição antológica que está na Culturgest Lisboa entre 17 de Outubro e 28 de Fevereiro e que passa em revista vários momentos do trajecto da artista, com particular incidência nos últimos 15 anos. “A obra da Gabriela ocupa um lugar único na arte portuguesa, porque está cheia de preocupações estético-artísticas e formais e, simultaneamente, trata de problemas candentes do mundo”, contextualiza Delfim Sardo, curador.

Foi em Berlim, à boleia de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que a artista iniciou uma “relação de interesse e encantamento pela natureza, desprovida de inocência e ingenuidade”. Ali começou a visitar jardins e parques intensivamente para analisar as diferenças entre uns e outros. “Foi extremamente importante perceber como é que o ser humano controla a natureza e vice-versa”, recorda Gabriela.

Para afinar essa percepção, recorreu à mão, aos lápis e pincéis, prática que lhe foi incutida na “clássica e rígida” Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde privou com artistas emblemáticos do século XX, como Álvaro Lapa e Ângelo de Sousa. É, contudo, a herança de Alberto Carneiro que ecoa no seu trabalho, nota Delfim Sardo. “Embora com um trabalho materialmente muito diferente, consigo reencontrá-lo [na obra de Gabriela].”

A artista revê-se no paralelismo com o aclamado escultor, pioneiro do conceptualismo, minimalismo e da land art em Portugal. “Sinto-me em contacto com ele mais pela maneira como ambos experienciamos a natureza do que pelo resultado final.” Mas nem só dentro da arte encontra referências e influências. Muitas vezes trabalha ao lado de especialistas, como botânicos ou biólogos, e de habitantes dos meios rurais. Nestes lugares depara-se com um público “menos conhecedor de arte contemporânea, mas muito mais aberto para conversar e entender”. Dá um exemplo: “Se eu fizer um enxerto numa árvore, elas sabem o que quer dizer. Numa galeria, isso não acontece.”

Com um percurso irrepreensível e consolidado, sobretudo no estrangeiro, Gabriela Albergaria tem agora a sua exposição mais completa no circuito institucional português. Cada sala é “uma espécie de statement”, já que a organização é temática e não cronológica. Há uma divisão com três peças que dialogam entre si: uma gravura sobre madeira a partir de desenho sobre o Parque Trianon, em São Paulo, uma instalação com dois troncos finos esticados com molas e uma colecção de pauzinhos de todo o mundo que a artista limpou, corrigiu e preencheu com plasticinas naturais.

Destacam-se, ainda, a sala dedicada a peças novas em cerâmica ou madeira sobre sementes colhidas numa expedição à Amazónia em 2016 e a sala com desenhos sobre as florestas de sequóias da Califórnia, resultantes de uma viagem à costa oeste dos Estados Unidos em 2012. O público também pode revisitar uma instalação apresentada pela artista em 2005 no Centro Cultural de Belém, refeita para esta ocasião com uma acácia dos Parques de Sintra. “Têm de ser espécies locais que estejam para abate”, explica.

Nas últimas décadas, Gabriela Albergaria desmantelou paisagens e elementos naturais para remontá-los na sua obra, mas garante que o tema está longe de se esgotar. Futuramente, pretende debruçar-se sobre questões como agricultura e alimentação, propagação e colonização das plantas e a visão ocidentocêntrica da sociedade. “Estou cada vez mais envolvida na revisão da relação cultural entre homem e natureza”, remata.

Culturgest Lisboa. Rua do Arco do Cego, 50 (Campo Pequeno, Lisboa). Ter-Dom 11.00-18.00. 3€ (entrada gratuita aos domingos).

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