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'O Novo Mundo', d'Os Possessos, até sábado na Culturgest

Por Miguel Branco
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O Novo Mundo, espectáculo que Os Possessos apresentam na Culturgest até ao próximo sábado, são crianças à procura. Millennials e as suas ânsias. O futuro em molho cocktail, em ausência de marisco, o futuro numa esplanada.  

No fundo, são crianças a brincar. Um gangue de crianças sem a maioridade que se exige para estar entre slot-machines e um croupier, nem para frequentar uma sessão de mindfulness. Sobretudo como esta, capaz – tal é a hipnose contida na voz macia do guia espiritual – de transportar pessoas. Isso mesmo, a eficácia desta espécie de tai-chi mental é tanta que assim que a corneta toca – que é como quem diz “agora vamos abrir os olhos lentamente” – estão paredes-meias com um cacto de dimensão considerável, mais umas dunas a pedir Dakar. O Novo Mundo, nova criação d’Os Possessos – ainda a convite de Francisco Frazão, antes de Mark Deputter assumir a direcção artística da casa – está na Culturgest de quarta a sábado. 

Tudo aqui é um mundo novo, mesmo para Os Possessos, que nunca tinham estado numa sala desta dimensão, e aproveitaram a oportunidade para fazer um texto com seis autores e um espectáculo com 17 actores. “Era para ser uma sala branca e havia 14 cenários, depois acabámos por escolher o deserto”, explica João Pedro Mamede, um dos fundadores da companhia e que também é co-autor do texto. 

Apetece dizer: boa escolha. A imensidão do deserto é o palco perfeito para a idade dos porquês: “Isto é um grupo de millennials que se encontra no deserto e que se debate com o amor, a morte, a fé. Há uma derivação grande entre vários temas e uma das coisas que decorre no espectáculo é essa busca por alguma coisa melhor”, afirma João Pedro Mamede. 

Às tantas soa a isso, a um TAC a uma geração de artistas a tentar respirar, numa incursão mais positiva d’Os Possessos do que aquelas que tinham existido até aqui: “Nós jovens é um bocado: fé no futuro sim ou não? E tentámos que este espectáculo fosse um bocadinho mais esperançoso do que aqueles que já fizemos, ainda que depois o novo mundo seja uma esplanada”. 

Ah sim, quase nos esquecíamos, o deserto tem uma esplanada onde aparecem adultos (seres que já tudo sabem) que querem marisco servido com creme, ainda que não se saiba a que sabe o creme. Uma esplanada como as que conhecemos, com a pequena diferença que há espaço para canibalismo, pois claro – com tantos “isso já não temos”, fazer o quê? A não ser que a água apareça, que exista um oásis, um banho que além de fazer-bem-faz-crescer, um clarão vindo de cima. Só mesmo a não ser que. Se assim não for, é puxar uma cadeira, chamar o garçon, beber o copo vazio.  

Culturgest. Qui-Sáb 21.30. 5-12€. 

Texto: Daniel Gamito Marques, João Pedro Mamede, Leonor Buescu, Miguel Ponte, Nuno Gonçalo Rodrigues e Tiago Lima. Com: André Pardal, Catarina Rôlo Salgueiro, David Esteves, Eduardo Breda, Filipa Matta, Francis Seleck, Guilherme Moura, Isabel Muñoz Cardoso, Marco Mendonça, Margarida Vila-Nova, Miguel Cunha, Nídia Roque, Nuno Gonçalo Rodrigues, Óscar Silva, Rafael Gomes, Vicente Wallenstein e o músico Fernão Biu. 

A programação do Teatro Nacional D. Maria II para 2018/2019

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