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Televisão, Séries, Comédia, Drama, Desporto, Ted Lasso T2
©DRJason Sudeikis em Ted Lasso

O outro lado de Ted Lasso

À segunda temporada, ‘Ted Lasso’ faz uma basculação inusitada no futebol (e até na comédia): o adversário passa do exterior para o interior.

Por
Hugo Torres
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Há uma expressão corrente no Brasil que sintetiza em poucas palavras o espírito do treinador Lasso: vai dar tudo certo. “Os contos de fadas não começam nem acabam na floresta escura”, diz ele a determinada altura, perante a equipa. “A filha da mãe da floresta aparece sempre no meio da história. No fim, fica sempre tudo bem.” Deste lado do Atlântico, a expressão tem este equivalente: vai ficar tudo bem. Embora não signifique exactamente o mesmo. “Vai dar tudo certo”, a versão brasileira, não é presciência, nem prece, é uma declaração de intenções – e um alvo em movimento. Desconhece-se a conclusão. Como quem diz que, se algo não acontecer, outra coisa igualmente boa ocupará o seu lugar. Ted Lasso conclui a metáfora literária, acrescentando que o tal conto de fadas pode não ter o início ou o fim que antecipávamos, mas que vai ficar tudo bem, disso não há dúvida.

Tamanho optimismo pode ser – e é – desarmante. Foi o que nos agarrou de imediato à história deste treinador de futebol americano, contratado pela proprietária de um clube da Premier League inglesa, o AFC Richmond, para afundar a própria equipa (vingando-se assim do anterior dono, o ex-marido mulherengo e adúltero). Depois vieram os diálogos bem urdidos, os caricatos choques culturais, o amor/ódio dos adeptos locais pelo treinador forasteiro (e objectivamente ignorante sobre o futebol não-americano, digamos assim), as 20 nomeações para os Emmys (um recorde para uma série na temporada de estreia) e todo o reconhecimento que a série criada por Bill Lawrence, Jason Sudeikis, Joe Kelly e Brendan Hunt tem amealhado ao longo deste ano. A segunda temporada, que se estreia esta sexta-feira na Apple TV+, leva, no entanto, esta comédia por um caminho inesperado.

Desta feita, não há antagonistas. A proprietária, Rebecca Welton (Hannah Waddingham), está empenhada no sucesso – do clube e da sua vida pessoal. O ex-marido nem aparece no ecrã. Jamie Tartt (Phil Dunster), o jogador-estrela, deixa de ser um bully e está no caminho da redenção. Roy Kent (Brett Goldstein) continua a ser um osso duro de roer mas, tendo pendurado as chuteiras, já não causa atrito. A equipa assemelha-se mais a um grupo de amigos do que a um plantel de futebolistas profissionais. Mesmo os adeptos já não abordam Ted Lasso (Jason Sudeikis) da maneira despeitada com que o faziam no passado. Isso significa que a trama avança sem conflito? Não. Ele está lá – e da forma mais Ted Lasso que poderíamos imaginar: o antagonista não é o outro, somos nós próprios. O conflito é interior, e a personagem mais nebulosa é mesmo a mais alegre de todas: Ted.

O pontapé de saída é dado quando Dani Rojas (Cristo Fernández), o felicíssimo jogador que está constantemente a repetir o seu mantra – “o futebol é vida” –, se deixa ensombrar por um acontecimento dramático dentro de campo. O solícito Higgins (Jeremy Swift) propõe aos Diamond Dogs – que além dele próprio inclui Lasso, o treinador Beard (Brendan Hunt, numa performance que homenageia os guarda-redes mais contidos da modalidade, a acompanhar com o olhar o arco da bola, perdão, narrativo), e Nathan Shelley (Nick Mohammed), ainda nas nuvens com a inesperada promoção a treinador, mas a perder perigosamente o chão –, o solícito Higgins, dizíamos, propõe a contratação de uma psicóloga desportiva. Entra então em cena a Doutora Sharon (Sarah Niles, saída de I May Destroy You), atirando esta sitcom bem-disposta para as fronteiras da comédia dramática.

É através dela que se vai descobrindo que o optimismo de Lasso é uma carapaça, um estratagema de protecção, que há ali receios profundos, sofrimento, dúvida. Sharon intui à chegada que há qualquer coisa errada naquele ambiente animado e sem fricções, o que se nota até em termos desportivos (uma infindável sequência de empates). A sua presença deixa Ted desconfortável. Ele, aliás, desconfia da terapia – parece-lhe uma preocupação falsa, mercenária, para com os outros – e incorpora assim uma resistência comum. Quem precisa de terapia são os fracos de espírito, os solitários, os malucos. Ou não? Ted não consegue entrar e sair do consultório de Sharon com a leveza com que o fazem os seus jogadores. Ele demora, finge, escapa. Até ao momento em que não aguenta mais. Os seguidores da série podem esperar uma segunda temporada sem vilões mas muito mais dura do que a primeira, em que até os trechos de comédia romântica usam a mesma táctica: a de que, antes de mais, temos de aceitar quem somos. Se vai dar tudo certo ou não, logo se vê.

Apple TV+. Sex (estreia T2).

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