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Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois
DROnde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois

O que mudou em Lisboa, 60 anos após ‘Os Verdes Anos‘? O cinema responde com “rigor milimétrico”

“Os lugares encerram mistérios e o cinema tem a capacidade de os revelar.” Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues revisitam em ‘Onde Fica Esta Rua?’ os lugares da ficção de Paulo Rocha. Ante-estreia é nesta quarta-feira. Filme e conversas estendem-se até dia 5.

Escrito por
Rute Barbedo
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Uma cervejaria que se transformou em hotel, uma escultura que passou da sede da BP para uma rotunda em Santarém, um apartamento que é agora escritório de um advogado, um prado que foi atravessado por uma via rápida. Os realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata fizeram um trabalho de arquivo e andaram atrás de objectos, ruas e nomes vindos de 1963 para perceber que Lisboa é a de hoje. Partindo da obra-prima de Paulo Rocha, Os Verdes Anos, esvaziaram-na da sua história e personagens. O que ficou? Exactamente os mesmos enquadramentos, “com um rigor milimétrico”, conta Guerra da Mata à mesa do café Vavá, em Alvalade, onde tanto Paulo Rocha como a dupla contemporânea de realizadores filmaram.

Da investigação de mais de três anos (a ideia surgiu em 2017) criou-se Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes nem Depois, filme que partiu de uma pergunta muito simples. O casal de realizadores vive em Alvalade há 32 anos, no apartamento onde, na década de 60, viveram os avós de João Pedro. “Será que eles viram o Paulo Rocha a filmar lá em baixo? Nunca lhes perguntei… E o filme parte dessa pergunta.” Era preciso, então, descobrir que salão é aquele onde se passa a cena do baile ou que riacho é aquele que já não existe em pleno Parque da Bela Vista, bem como recriar a cena em que Júlio e Ilda (Isabel Ruth, que também entra no filme de 2022, mas para cantar) dão as mãos, debaixo da janela de João Pedro. Com a colaboração de Rita Ferrão, historiadora de arte especializada no movimento modernista, vasculharam plantas e arquivos municipais, e sobrepuseram fotografias de época a imagens do Google Earth para encontrar os locais e enquadramentos exactos que haviam sido escolhidos por Paulo Rocha. 

Assim fizeram a diferença na repetição. Chegaram ao antigo B.Leza com o seu “tecto impressionante”, no Conde Barão, que hoje é um edifício abandonado e “foi o local mais difícil de conseguir autorização para filmar”; mas também a uma peça icónica da loja Rampa, que saiu dos depósitos do MUDE para ser novamente registada em cinema. Outra cena: debaixo da janela onde moram os realizadores, em vez de Ilda dar a mão a Júlio, Isabel Ruth acena à câmara de filmar. Como resume Guerra da Mata, “os lugares encerram mistérios e o cinema tem a capacidade de os revelar”.

Onde Fica Esta Rua? Ou Sem Antes Nem Depois
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Por coincidência, durante as filmagens, cruzou-se com eles a pandemia e pelo meio surgiram máscaras, pessoas a fazer flexões ao ar livre ou a passear o cão nos seus passeios higiénicos. “Houve muitos filmes que tentaram esconder as marcas da pandemia. Nós não. A pandemia infectou o filme e trouxe camadas. Surgiram novas pequenas narrativas nos espaços”, diz Guerra da Mata, para João Pedro trazer à conversa outra passagem do filme, que mostra como também nos repetimos ao longo do tempo: “Há uma cena n‘Os Verdes Anos em que o Júlio, que veio da província para Lisboa, não sabe como há-de tocar à campainha, aqui mesmo, neste prédio ao lado [do Vavá]. Neste filme, há um homem com máscara que também não sabe bem como fazer e que tenta abrir a porta com os cotovelos.”

Filmado em película e revelado na Roménia, Onde Fica Esta Rua? estreou-se no ano passado em Locarno, por onde passou Os Verdes Anos (avisamos que as coincidências são muitas). Nesta quarta-feira, 29, é apresentado no Cinema City Alvalade, na presença dos realizadores (também a longa-metragem de Paulo Rocha se estreou em Alvalade a 29 de Novembro de 1963). Andará depois por diferentes salas do país (em Lisboa, além do City Alvalade, estará nos cinemas Nimas, Ideal e Fernando Lopes); e faz também regressar Os Verdes Anos ao grande ecrã no seu 60.º aniversário (de quinta-feira a domingo, é possível ver os dois filmes no mesmo dia, no Cinema Ideal, sendo que no dia 2, às 21.30, há também um recital com Isabel Ruth). 

Não é documentário. É documento

Para que não haja dúvidas, Onde Fica Esta Rua? não é um documentário sobre Os Verdes Anos. Longe disso. “É um trabalho de observação, mas não no sentido de sermos chatos”, avisa Guerra da Mata. É também um filme-homenagem à ficção de Paulo Rocha que foi professor e inspiração de João Pedro Rodrigues mas que não implica um conhecimento prévio da longa-metragem de 1963. A realizadora Laurie Anderson, que não conhece Paulo Rocha e viu Onde Fica Esta Rua? em Locarno, comprova-o. É um filme “vazio de tudo”, descreveu, e é “um alívio não ter de seguir personagens”. “Nada contra isso, mas ensinou-me que há tantas formas diferentes de fazer um filme bonito e bem-sucedido”, continuou a criadora de Coração de Cão.

Onde Fica Esta Rua?
DR/TerratremeOnde Fica Esta Rua?

“O Paulo Rocha falava muito sobre a importância dos lugares, dizia que muitas vezes os filmes vinham dos lugares com que ele andava obcecado. Eu também sempre fui obcecado por lugares”, conta João Pedro, que assinou com Guerra da Mata filmes como A Última Vez que Vi Macau ou China, China. Da mesma forma que Paulo Rocha fixou a Lisboa de 1960, também Onde Fica Esta Rua? será um documento para daqui a 60 anos. “Lisboa está sempre a mudar, e há muito [património] que está a ser destruído”, afirma Guerra da Mata, chamando a atenção para painéis de azulejos e outras peças desaparecidas ou ocultas atrás de “paredes de gesso cartonado”, na sequência da especulação imobiliária. 

O trabalho em torno do filme fez emergir várias questões sobre a cidade e a sua evolução. Como o cinema “pode ser um ponto de partida para uma conversa mais alargada”, Onde Fica Esta Rua? estará em exibição acompanhado de uma programação própria, que inclui conversas com os realizadores e convidados, como a historiadora Rita Ferrão (dia 1, às 21.30, no Cinema Nimas) ou antigos elementos da equipa de Os Verdes Anos.

Nos quase 90 minutos que compõem o filme de Paulo Rocha, houve apenas um local que João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata não conseguiram identificar. Provavelmente, continuarão à procura dele.

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