Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right O reino da Dinamarca continua podre (e ainda precisamos de “Hamlet”)

O reino da Dinamarca continua podre (e ainda precisamos de “Hamlet”)

Hamlet
DR Hamlet

O Filho do Meio vai para o seu quarto espectáculo de Shakespeare. É tempo de Hamlet, numa encenação contemporânea de Luís Moreira, para ver a partir desta quarta no Teatro do Bairro. Continuamos a querer príncipe por aqui.

Uma coisa sabemos: que alguma coisa está podre no Reino da Dinamarca. Cláudio, novo rei em grande estilo, daqueles que mata o irmão no trono e logo casa com a sua mulher e ex-cunhada, precipita a loucura no seu sobrinho e príncipe herdeiro: Hamlet. Em três linhas, assim se resume uma das mais importantes peças da história da humanidade, cortesia do senhor Shakespeare. Acrescente-se ainda que após o casamento entre Cláudio e Gertrudes, mãe de Hamlet, que marca o arranque da acção, o príncipe encontra-se com um espectro do seu pai, que lhe incute a vingança. A loucura – será real, será fingida? – invade Hamlet e a dúvida cresce no seio do Castelo de Elsinore.

2020 começa assim, com o quarto espectáculo da companhia Filho do Meio, que desde 2017 dedica a Shakespeare o ciclo “Três Comédias, Três Tragédias”.

Hamlet estreia-se esta quarta-feira no Teatro do Bairro. A companhia formada por Alice Medeiros, Frederico Coutinho e Luís Moreira (encenador de serviço) já na sua génese tinha a vontade de fazer teatro de repertório para toda a gente: “Numa premissa que pode ser absurda, mas que não é, a malta vê teatro de repertório no cartaz e afasta-se dessa responsabilidade, não são ensinados os clássicos na escola ou, em sendo, são ensinados com um peso enorme, de termos que ser eruditos para os fazer. A minha ideia era dar a conhecer os grandes textos de teatro ao grande público, aquele que não tem acesso a isso, nem, à partida, tem interesse”, explica Luís.

Foi depois de uma estadia em Londres a estudar Shakespeare, e de uma leitura encenada de O Mercador de Veneza, feita pelo actor Miguel Sopas, que Luís Moreira decidiu que ia fazer todas as peças de Shakespeare, ou todas quantas pudesse, claro. Depois de três comédias – Noite de Reis, Sonho de uma Noite de Verão e Muito Barulho Por Nada – atiram-se agora a Hamlet, o clássico dos clássicos. Mas este é um Hamlet de hoje, que usa laço, que está num castelo como só hoje um castelo podia parecer – um tapete enorme, um trono e um janelão chegam – e que quer estar junto daqueles que nunca lhe ligaram muito. “O Hamlet vai ser contado nos próximos 400 anos por uma razão muito simples: porque há um Horácio. Há um Horácio que não trai e a quem o Hamlet, no leito da morte, diz: ‘Ausenta-te da tua felicidade por um tempo e conta a minha história’”. Isto é a função do Filho do Meio, contar a sua história, Hamlets vai haver muitos, um por ano, Horácios há muito poucos”, afirma o encenador.

E quando é gente que não abunda, o melhor é tê-la por perto.

Teatro do Bairro. Qua-Sáb 21.30. Dom 17.00. 5-15€.

De William Shakespeare
Encenação Luís Moreira
Com Alice Medeiros, André Pardal, António Pedro Ramalhinho, Filipe Abreu, Frederico Coutinho, José Matos de Oliveira, José Redondo, Luís Lobão, Nuno Pinheiro, Rita Loureiro, Valter Teixeira e a voz de José Neto

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