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O rockuduro dos Throes + The Shine mudou, mas a dança é interminável

Por Tiago Neto
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Os Throes + The Shine apareceram no início da década a combinar rock e kuduro. O trio alterou-se com os anos e a música perdeu belicismo. Mas Enza, o novo disco, mantém intacta a grande premissa: que a dança nunca acabe.

Ao ouvir "Batida", a principal porta de entrada para Rockuduro, percebíamos que alguma coisa violenta, fresca e de rumo incerto acabava de chegar. Corria o ano de 2012. À altura, os Throes + The Shine, recém-formados, uniram dois projectos: os portugueses Throes, encabeçados pelo guitarrista Marco Castro e pelo baterista Igor Lopes, e o angolano The Shine, alter ego de Diron Shine, que ficava encarregue da parte vocal, o MC. Assim seguiram, numa roda que mesclava Porto e Luanda, combinando a crueza do rock com o quente do kuduro, experimentando e estabelecendo a identidade ao longo de outros dois discos, Mambos de Outros Tipos e Wanga, além de outros quantos EP.

Em 2017 o rumo alterou-se: Diron deixou o projecto e as luzes passaram a apontar sobre Mob, que se tinha juntado ao grupo três anos antes como segundo MC. Essa mudança precipitou a mudança de sonoridade que agora vamos ouvir em Enza, o novo disco que é lançado a 3 de Maio e que é o corolário de uma transição pacífica. “O Mob está connosco desde 2014, portanto já temos uma química criativa muito grande. Apesar de no disco anterior ele não ter entrado com tanta força como o Diron, porque não estávamos nessa fase. Mas neste disco foi uma coisa extremamente natural e foi muito recompensador trabalhar com ele”, diz Marco Castro.

“Este disco foi o culminar de influências de cada um, e talvez por isso é que acabou por ficar bastante heterogéneo” – mas é necessário deixar o álbum à escuta, já que o primeiro single, “Balança”, não é denúncia flagrante dos novos ritmos. Marco explica-o como uma forma de “não se afastarem completamente da sonoridade logo com o primeiro avanço”. Contudo, a intenção passou sempre pela criação de um álbum “mais cuidado, menos virado para aquele som típico de banda a tocar numa sala”. “Até porque, com as composições que começámos a fazer, deixou de fazer sentido ter esse tipo de abordagem na produção.”

“Antigamente”, continua, “juntávamo-nos uns três ou quatro a tocar numa sala, e agora sou só eu e o Igor, portanto acabamos por produzir mais no computador, por estruturar as coisas dessa forma. De certa maneira foi esse o escape para compormos de uma forma mais rica, sem ser aborrecido para nós.” Palmela, onde ficaram hospedados enquanto compunham, foi o berço dos entretantos de Enza. Para o guitarrista, isso possibilitou-lhes “um isolamento enriquecedor que se nota no disco”, construído com a produção de Jori Collignon, dos Skip & Die.

À medida que flutuamos pelas faixas, já é possível tocar sonoridades como o R&B, o disco, o trap, ou mesmo entrar no universo da world music, uma direcção que Marco Castro justifica com a tentativa de pegar em tudo o que foram aprendendo ao longo destes anos e fazer algo com identidade própria. “Tem coisas que são mais ligadas ao que fazíamos a nível rítmico mas a nível de texturas já não tem tanto que ver porque é muito mais electrónico, e tem coisas que são completamente fora do que estamos habituados a fazer.”

“Musseque” – que será o segundo single –, “Dikolombolo” ou “Silver & Gold” são exemplos dessa nova vaga. “Tentamos pensar nos convidados que tivemos nos temas – nomes como Selma Uamusse, Cachupa Psicadélica ou Mike El Nite – e encaixar-lhes a identidade nas músicas em que colaboramos. Na ‘Musseque’ há uma parte um bocado mais trap que não tem muito que ver com aquilo que temos feito até então, mas dessa forma é que acaba por fazer sentido trazer alguém como o Mike El Nite para enriquecer o tema. Ou no caso da ‘Paraíso’, que é uma música mais lenta, mais ligada à cumbia, fez todo o sentido com os Sotomayor, porque é uma banda que tem esse tipo de sonoridade e um vinco um bocadinho mais pop.”

Com o rótulo dos primeiros discos em processo de esbatimento, Marco diz que o presente é difícil de definir, embora tenha algumas pistas: “Na sua essência acho que isto acaba por ser música de dança, todo o álbum está orientado para aí. Se calhar tem é explorações dentro de nichos. Mas essencialmente é por aí, chegámos a uma fase em que cada vez que vamos fazer alguma coisa nova, não estamos a pensar onde encaixa. O próximo pode ser muito diferente deste, tudo depende do momento.”

Enza será apresentado a 16 de Maio no B.Leza. Seguem-se passagens pela Suíça, França, Holanda, Polónia e o festival Stereogum, em Leiria, a 1 de Junho.

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