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“Ocupação” no São Luiz: o teatro de Joana Craveiro vai além do palco

Ocupação
Estelle Valente

O novo espectáculo do Teatro do Vestido vai ocupar vários espaços do São Luiz, que arranca agora as comemorações dos seus 125 anos. Ocupação é para olharmos para outras zonas de um teatro com gosto.

Quando Joana Craveiro estava no Conservatório não havia salas de ensaios a partir do segundo ano. Era recorrente irem para o São Luiz bater texto e ensaiar no foyer e em vários espaços do teatro. Uma memória pouco convencional e algo longínqua da utilização de um sítio como este. Por isso, quando, a propósito dos 125 anos do São Luiz, o convite para a criação de um espectáculo foi endereçado ao Teatro do Vestido – estrutura que fundou em 2001 – a resposta de Joana Craveiro foi simples e directa: “Então vá, dêem-me o teatro todo”. O desejo virou ordem. E eis que chegamos a Ocupação, que se estreia esta quarta-feira, propondo um percurso pelos recantos do teatro.

“Qualquer pessoa que conhece o nosso trabalho sabe que, se pudermos, não vamos ficar só no palco. O mais interessante para mim é que o público se perca nesse percurso. Isto não é um espectáculo comemorativo, acabou por evoluir para um espectáculo evocativo sobre o fazer teatral e, portanto, claro que recorro a uma série de coisas que são habituais, outras que são clichés, e também a obras canónicas do teatro”, enquadra Craveiro. Além dessas peças clássicas, com didascálias erradas, textos ditos de forma errada, raccords vários – incluindo As Três Irmãs, de Tchékov – há memórias de gente que viu aqui A Voz Humana, com Maria Barroso, em 1967, quando a PIDE (com sede na porta ao lado) interrompeu a apresentação, e há ainda outras memórias, de elementos do elenco que nesta morada fizeram outras peças.

Algumas dessas recordações foram obtidas através de um repto lançado no Facebook e por e-mail. Mas poucas: “As pessoas desvalorizam o seu papel, não acham que serem espectadoras do teatro seja relevante.”

Sem problema. O espectáculo está construído também com isso, com essa ausência de respostas, ou com respostas que não têm nada que ver com o que tínhamos pedido. Tenho esta ideia que não trabalhamos só com aquilo que nós andamos à procura, mas muitas vezes com aquilo que as pessoas nos querem dizer”, explica Joana Craveiro.

A mesma que preferiu não revelar que zonas do teatro vai ocupar. Mas isto é coisa que não tem sido muito feita. E se isso acontece não é só por falta de iniciativa dos artistas: “Quando se trabalha numa instituição, como o São Luiz ou o Teatro Nacional, há certas linhas vermelhas que quando se atravessam se tornam quase uma ilegalidade, ou numa coisa que a instituição não reconhece como sendo a sua política, por exemplo, querer fazer teatro no foyer ou assim. A resposta da instituição é quase sempre não, porque o teatro é feito em palcos. E é claro que aqui há uma subversão disso porque nós sempre fizemos teatro em todos os sítios, primeiro porque não tínhamos nenhum quando começámos e depois porque gostávamos dessa relação de intimidade e foi isso que nos levou a desenvolver esta linguagem de fazer teatro olhos nos olhos”. O São Luiz vai ganhar um novo vestido. E dos importantes. Parabéns.

São Luiz. Qua-Ter 21.00. 6-12€.

Direcção, concepção e texto Joana Craveiro
Com Alexandra Freudhental, Ana Lúcia Palminha, Carlos Fernandes, Carlos Nery, Daniel Moutinho, Elisabete Rito, Estêvão Rosado, Francisco Madureira, Gustavo Vicente, Inês Minor, Inês Rosado, João Ferreira, João Silvestre, Lavínia Moreira, Mafalda Pereira, Maria Emília Castanheira, Maria José Baião, Rosinda Costa, Simon Frankel, Tânia Guerreiro, Tozé Santos, Vera Bibi e Violeta D’ Ambrosio

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