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Omara Portuondo.
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Omara Portuondo: “Vou morrer em palco. Nada mudou”

A histórica cantora cubana Omara Portuondo despede-se dos palcos portugueses em Julho. Falámos sobre ‘Vida’ e a morte.

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
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Omara Portuondo é um dos maiores nomes da cultura latina. Nascida em 1930 e dedicada à música desde a adolescência, a sua carreira precede e acompanha a revolução cubana. E, aos 92 anos, parece continuar de boa saúde, com um disco acabado de editar e planos para as próximas gravações. É por isso – e porque sempre disse que iria morrer em palco – que pode causar algum espanto ler que a sua próxima digressão por Portugal, que arranca a 1 de Julho Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, passa pelo Coliseu Porto Ageas no dia 8, e termina no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 14, será a última. A despedida. Mas o plano mantém-se. “Vou morrer em palco”, garante, quando interrogada sobre o que mudou. “Nada cambiou. Uma digressão mundial de despedida não se faz num ano nem em dois, porque tenho de me despedir de muitos países. Espero morrer num desses palcos.”

Desfeito o equívoco, não se fala mais de morte. Até porque o seu último disco é o oposto disso. Pausa: assim que ouve a palavra “último”, Omara mete este interlocutor na ordem. “Este não é o meu último disco. Tenho mais quatro guardados e gravados, para editar. E vou gravar mais um ainda este ano.” O mais recente disco, então, é o oposto disso, da morte. Chama-se Vida e é precisamente uma celebração da “vida e dos anos e anos de trabalho” de uma das grandes vozes do bolero, do feeling, do jazz e do son cubanos, que surge rodeada de novos e velhos amigos e cúmplices, numa série de duetos. “Colaborámos devido à paixão, respeito e amor que sentimos uns pelos outros”, sumariza. A vontade de juntarem as suas vozes era tanta que nem deixaram a pandemia de covid-19 separá-las. “Trabalhámos remotamente. Gravei as minhas vozes em casa”, conta. “Foi uma experiência nova e diferente, porque a minha casa não tem as condições de um estúdio.”

Quando lhe perguntam quem foram os músicos que mais a tocaram, neste disco e ao longo dos anos, desde Édith Piaf e Nat King Cole, no início do seu percurso, a colaboradores recentes como C. Tangana, passando pelos camaradas do Buena Vista Social Club, opta pela via diplomática. “Todos me influenciaram, todos têm o seu estilo e uma maneira própria de interpretar as canções”, garante. Insiste-se na tecla C. (Tangana), que já havia colaborado com Eliades Ochoa, seu parceiro no Buena Vista Social Club, numa canção de El Madrileño, e a convidou para se juntar a ele em “Te Venero”, uma das novas faixas incluídas na edição alargada do disco. “É uma grande pessoa, muito humana e talentosa. Gostei muito do que partilhámos. Foi muito gentil quando veio a Cuba para gravar o tema.”

Já que estamos numa de diplomacia, tenta-se falar sobre a revolução cubana – em conversas anteriores, para outros lados, Omara sempre foi directa e pareceu genuinamente orgulhosa das conquistas comunistas. Que impacto tiveram os acontecimentos de 1959 na sua carreira? “A revolução não afectou em nada a minha carreira.” E na sua vida pessoal? “Também não mudou nada. A única coisa que mudou a minha vida foi o meu trabalho.” A sua dedicação, subentende-se. Então e o Buena Vista Social Club, isso há-de ter mudado muita coisa, não? “A minha vida continuou a mesma, só que com mais trabalho e exposição internacional. O mais bonito foi aquilo que partilhámos e termos voltado a trabalhar juntos.” Muitos desses músicos já nos deixaram. Mas parece que ela vai continuar cá por muito tempo. A celebrar e a partilhar a vida.

Coliseu dos Recreios. 14 Jul (Sex). 25€-70€

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