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"Órfãos". Este medo que nos é tão familiar

Por Maria Ramos Silva
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Até onde estaria disposto a ir para proteger um irmão? E um filho? Faria justiça pelas próprias mãos? Silenciaria um crime? Como está o seu nível de tolerância ao que é novo, diferente e forasteiro? Alerta: ninguém sai ileso de Órfãos, a encenação de Tiago Guedes que se estreia sábado, 2 de Dezembro, no São Luiz.

Ninguém se lembraria de convidar a tragédia para jantar mas ela é óptima a fazer-se de convidada. É assim que começa esta refeição quase em tempo real. Danny (Tónan Quinto) e Helen (Isabel Abreu) estão sentados à mesa, preparados para celebrar a notícia de mais uma gravidez. Ainda não sabem mas são um casal à mercê dos efeitos do dinamite quando Liam (Romeu Costa), irmão de Helen, entra porta dentro com a camisola ensanguentada, depois de ter atacado um "cabrão de um monhé" na rua, num bairro habitado por inúmeros problemas.

Se a dura arte da vida é da ordem do possível e do razoável, não se espere que haja meio termo como nos bifes. Tudo aqui é mal ou bem passado. A violência urbana é gratuita, o racismo é epidemia grave, e quem sabe se aquele indiano não era só um inocente pai de família a caminho de casa. "No fundo somos todos potencialmente monstros. Não há limpos nem sujos, bons nem maus. A pergunta que o espectador fará é 'o que é que fazia'? O que fica no final é a destruição de um homem bom. Como é que um homem bom perante certas circunstâncias se suja e se destrói, mesmo que seja pelas razões certas", aponta Tiago Guedes, que parte do texto de Dennis Kelly, traduzido por Francisco Frazão.

Para o encenador é o retomar do fio à meada de um certo estilo naturalista e escrita musical, primeiramente inspirado em Blackbird do escocês David Harrower, que levou ao palco do D. Maria II há uns anos. Seguiu-se a descoberta de After the End, do inglês Kelly (n.1969), e por fim o encontro com Órfãos. "Identifiquei-me muito com os temas do medo, da família. Até onde é que és capaz de ir para proteger os teus e quais são as consequências disso? É um texto de actor e queria muito este exercício frenético de ritmo e de respeito pelo texto".

Regressemos a esta mesa e a esses actores. Há um mundo exterior, fonte de ameaça, e um aparente refúgio dentro de portas. Há um eles e um nós. Haverá até uma linha que separa as dores daqueles que cresceram sem pai nem mãe, com todas as suas heranças, azares e predestinações, de todos os outros filhos. Há sempre dois campos possíveis, e apenas dois campos possíveis, nesta alucinante partida de pingue-pongue a três. É aqui que entram Isabel Abreu, Romeu Costa e Tónan Quito, um triângulo sempre à beira da vertigem. 

"Um quer-se salvar, ela quer proteger o irmão, o marido quer fazer o que está certo e ao mesmo tempo ser o homem que ela quer que ele seja. Tudo se corrompe. É uma peça angustiante nesse aspecto. Sempre quis que este fosse um salto. Começas e não largas até ao fim. Quero que o espectador tenha esse mergulho. A qualidade dos assuntos não aguenta se te dá muito tempo para pensar", concorda Tiago, esperando que a maioria do público se incline para a personagem de Danny, a criatura que quer acreditar que o mundo ainda está bom para consumo, apesar do lastro de degradação. 

"Há uma relação de grande protecção entre os irmãos mas em última instância também existem filhos. Parece que no final nada consegue sobreviver. É como se o esgoto entrasse pela casa adentro. Tens medo do estrangeiro, do que vem de fora. O medo controla tudo", aponta Isabel. "Todos têm o seu percurso. Não havendo espaço para destacar alguém, do principio até ao final, a diferença maior é na personagem do Danny, de repente vai-se revelando", acredita Romeu. 

Qual é então o caminho, num mundo extremado onde todos os dias se erguem muros?, interroga-se Tónan, tomando a voz de todos nós. "Ou vivemos isolados e extinguimo-nos, deixamos de ter filhos, por causa do problema lá fora, com medo do vizinho da frente, ou temos que tentar olhar para os casos como eles são e vivermos como comunidade". 

São Luiz Teatro Municipal. Ter-Sex, 21.00. Dom 17.30. 12€

+ Teatro. 12 peças obrigatórias em Dezembro 

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