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Os Praga levam água com gás e “Timão de Atenas” ao CCB

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Timão de Atenas, a nova criação do Teatro Praga, que estreia sábado no CCB, parte da música de Purcell e das palavras de Shakespeare para dizer que não sabe se é melhor ser party-animal ou eremita. 

Top, top, top. Migaaaa. Ai eu a-dooo-ro. Que luxo. Isto é bom é para fazer contactos. Eu não quero estar sempre a falar de mim, mas. Esse poema é, assim, um murro no estômago. Ponha-se aspas em todas estas expressões, imagine-se o ambiente de festa aonde só se vai por conveniência, para massajar egos alheios – e deixar que façam o mesmo com o nosso – e, claro, para sacar dinheiro para a próxima criação.

A primeira parte de Timão de Atenas – novo espectáculo do Teatro Praga, que está no Centro Cultural de Belém de sábado a segunda-feira – é uma dessas festas de sorriso forçado, em que cabem filósofos, prostitutas, poetas, pintores, militares, todos eternamente à espera do vinho e dos canapés que tardam em chegar, da bailarina que costuma descer do tecto. Só que – como diz a obra original, de Shakespeare – esta é a vingança de Timão de Atenas, eterno mecenas de toda esta gente, que quando a ele faltou o dinheiro não lhe deu um tusto. Vai tudo acabar a comer água com pedras. E vai tudo ficar tremendamente ofendido.

Este é o terceiro espectáculo do Teatro Praga no CCB que une música de Henry Purcell – aqui tocada pelo Luduvice Ensemble, liderado por Fernando Miguel Jalôto – e as palavras de Shakespeare ou uma adaptação das palavras de Shakespeare. Já em 2010 tinham feito Sonho de Uma Noite de Verão e, em 2013, A Tempestade.

Portanto Timão de Atenas é uma espécie de fim de uma trilogia e “é dedicado à ideia das estruturas, da instituição, do lado mais material do espectáculo, a arquitectura, o financiamento”, adianta o dramaturgo José Maria Vieira Mendes.

Depois da festa de tapete cor-de-rosa, com uma pintura da Acrópole ao fundo, duas colunas e pouco mais, depois de toda a ironia própria das palavras de José Maria Vieira Mendes servirem o tal ambiente frívolo e de luxo, há um corte radical. Deixamos o social em direcção ao individualismo. Estamos na floresta com Timão, exílio que cumpriu depois de se desiludir com as pessoas e com o mundo civilizado. Só que há gente com sorte, mesmo aí ele encontrou dinheiro, mas decidiu ficar e com isso continua a receber visitas dos tais interesseiros, ainda que Timão só responda vagamente, só diga “hum, hum” ou “pois” ou “vou lá ter depois do jantar”, ainda que Timão esteja mais a querer meditar, estar ao computador e beber água das pedras do que outra coisa qualquer.

O Teatro Praga quis-se afastar da leitura mais simplista de Shakespeare – bom vs mau; sociedade vs natureza; dinheiro vs experiência – para “perceber que são ambas [social e isolamento] mais ou menos a mesma coisa só que têm é mecanismos estruturais diferentes, há momentos na tua vida que estás sozinho e que te estás a cagar para o mundo todo e há outros em que estás a conviver num contexto que não é o mais agradável para ti, pode até ser tóxico, mas tens que estar em prol da ideia de abertura e comunhão. O espectáculo em vez de dizer isto é melhor que aquilo, é mais: há os dois”. E escolher um deles não parece ser grande opção.

De William Shakespeare e Henry Purcell. Criação Teatro Praga. Com André e.Teodósio, Cláudia Jardim, Diogo Bento, Joana Barrios, Patrícia da Silva e Pedro Penim, João Abreu, David Mesquita, Marcello Urgeghe. Música Ludovice Ensemble

CCB. Sáb e Seg 21.00. Dom 16.00. 5-22€.

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