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Para Chico Buarque, esgotar coliseus parece fácil

Por Ana Patrícia Silva
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Músico, poeta, escritor e dramaturgo, Chico Buarque é especial. Não é por acaso que os quatro concertos no Coliseu dos Recreios, entre quinta-feira e domingo, estão esgotados; é por 7 razões como estas que se seguem.

1. É um dos maiores poetas da língua portuguesa. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Chico Buarque descodificou o mosaico da alma humana, forneceu material inspirador para sarar feridas e curar corações partidos. É um artesão das palavras que lê as entranhas das pessoas. Um talento raro que brilhantemente casa letras com música – música baseada nas tradições do samba e da bossa nova do seu nativo Rio de Janeiro. Sensível aos que sofrem, inventou versos impossíveis para o amor e o quotidiano.

2. É a voz da independência. Sem perder o lirismo poético, cumpriu o dever de manifestar a sua consciência e denunciar o pior do Brasil. Durante a ditadura militar brasileira foi um contestador do regime, registando o clamor de um povo impedido de gritar a sua indignação contra a situação do país. Tornou-se um símbolo da independência contra o poder estatal e fortaleceu o coro de descontentamento dos dissidentes. Quando os censores o silenciavam, criava novos personagens e escondia a denúncia nas entrelinhas.

3. É homem e é mulher. Ao colocar-se no lugar dos outros, Chico Buarque capta a complexidade das relações humanas. Decifra os anseios e angústias, os sonhos e sentimentos mais íntimos do universo humano. Além disso, é um dos poetas que mais sensivelmente exprime o feminino. São inúmeras as canções em que interpreta um eu lírico feminino, em que dá voz às mulheres nas mais variadas situações da vida e em que as faz fugir dos padrões estabelecidos pela sociedade, celebrando a sua liberdade e sexualidade fluida.

4. É um poeta do povo. Os grandes autores carregam o sofrimento e os sentimentos do mundo real aos ombros e transformam-nos em matéria poética. Chico dá voz a quem não a tem em astuciosas formas musicais. Esteve sempre do lado do povo, das mulheres, dos oprimidos, denunciou as marcas da escravatura e o peso do racismo. Através das suas angústias, sente as dores do seu tempo e da sua gente. Tem uma capacidade infinita de registar e ampliar outras vidas. As pessoas identificam-se com ele porque ele se identifica com as pessoas.

5. É poderoso. Chico tem uma alma grande, onde vai amontoando as coisas da vida sem perder a capacidade de se deslumbrar. Mergulha no mundo para abastecer a alma e depois devolve ao mundo a sua alma engrandecida. Tem um poder gigante de comunicar, aproximar e representar.

6. É um pensador do Brasil. A obra de Chico Buarque confunde-se com a própria história do Brasil. É um dos mais sábios repórteres da MPB, traçando, desde os anos 60, um retrato fiel do país, dos seus contrastes e da sua beleza. Para saber como estava o Brasil, bastava ouvir os seus discos. Ele soube aproveitar as dificuldades de uma época para forjar uma estética própria e construir uma obra que dificilmente encontra paralelo. Na música, ou em qualquer arte.  Nos seis anos que passaram até ao lançamento do álbum Caravanas (2017), Chico viu o seu país a desagregar-se. Num momento de radicalismo político e fundamentalismos, Chico Buarque já não é a voz unânime que chegou a ser, mas a sua música continua a lembrar um passado que não se deseja ver repetido.

7. É um veterano ainda com muito para dizer. O álbum Caravanas vai ser tocado na íntegra no Coliseu e conciliado com canções antigas. É um disco onde Chico continua iluminado. Mostra que a actualidade pode ser permeada por lirismo, subtileza e elegância. Mesmo que não pareça, é um documento destes tempos. Autores como Chico conseguem incutir significados mais profundos do que a superfície. Basta mergulhar nele. Com 73 anos, continua atento a um mundo cheio de ódio e combate-o com amor.

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