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 Devemos sempre perdoar os cobardes, mas nunca ser como eles
Inês Félix Devemos sempre perdoar os cobardes, mas nunca ser como eles

Para falar sobre a II Guerra Mundial, comecemos por um outro amor

Por Miguel Branco
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O novo espectáculo de Tiago Vieira, para ver entre quinta-feira e sábado na Rua das Gaivotas 6, serve-se do manifesto para repensar o amor, à boleia de Penélope. Uma bela ruína.

Uma mesa cheia de terra. Onde sete corpos criam desenhos diversos, esfregam-se, lavam-se, pisam-na. No meio, um atulhado de objectos díspares, peluches enforcados, livros, tecidos coloridos. Ao lado está um sofá velho, com gravilha à frente. O cenário caótico, rugoso, cheio de textura e possibilidades de tropeções, tem tudo que ver com a ruína que é Devemos sempre perdoar os cobardes, mas nunca ser como eles, nova criação de Tiago Vieira, que esta quinta-feira se estreia na Rua das Gaivotas 6. É a primeira parte de um tríptico dedicado à II Guerra Mundial.

Composto por sete manifestos escritos pelo criador, o espectáculo gravita particularmente em torno da figura de Penélope, a mulher de Ulisses, que na Odisseia de Homero aguarda o regresso do marido. É uma fixação antiga para Tiago Vieira. “Este espectáculo começa com uma grande obsessão que tenho com a figura da Penélope, que se foi transformando ao longo dos tempos. No início esta obsessão estava ligada a uma ideia de prostituta, as prostitutas como corpos que esperam como Penélope. A isso juntou-se uma outra obsessão, pela cultura alemã, autores alemães, que me fez chegar a esta zona da II Guerra Mundial”, contextualiza, admitindo que esta última e trágica temática estará mais aprofundada no segundo pedaço do tríptico.

Devemos sempre perdoar os cobardes, mas nunca ser como eles

Inês Félix

Para já, Penélope. A Penélope do imaginário de Tiago Vieira, diferente daquela que é descrita por Homero. É através dessa mulher que chegamos ao amor. O amor não como lugar quentinho no sofá, mas o amor como revolução, o amor como ímpeto violento, espástico, um amor que em nada tem que ver com a ideia de sofrimento amoroso, que Tiago Vieira considera uma construção capitalista. “Comecei a associar a Penélope a uma ideia de amor. Há aquela frase do Roland Barthes: ‘Quem é que diz que um amor não correspondido é um amor infeliz?’. Isso bateu-me, quando era miúdo. Comecei a mudar a minha percepção da Penélope, deixei de a ver como esta figura submissa que espera, se a Penélope foi fiel foi por um acto revolucionário e não por um acto de menina bem-comportada. No meu imaginário ela esteve com estes pretendentes. A Penélope tornou-se, para mim, numa figura revolucionária de desejo, em contexto de guerra”, explica.

Devemos sempre perdoar os cobardes, mas nunca ser como eles

Inês Félix

A acompanhar os manifestos está um pseudo-coro – não se confunda isto com a figura clássica e grega do coro – que pinta uma paisagem para aqueles textos, que varia entre uma força extrema e uma aparente automatização de movimentos, como se os corpos não estivessem a fazer aquilo. São corpos marginais: “A base coreográfica é a da desmultiplicação dos corpos, da contaminação, da espera, da repetição, da violência, da exaustão”, afirma. Pois claro. O amor cansa.

Rua das Gaivotas 6. Qui-Sáb 21.30. 6-8,50€.

De Tiago Vieira
Com Hugo Teles, Marta Rijo, Izabel Nejur, Patrícia Andrade, Teresa Machado, Marta Caeiro, Tiago Vieira

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