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'Perplexos' é a nova criação das Causas Comuns

'Perplexos' é a nova criação das Causas Comuns
Estelle Valente

É o caos pelo joelho. São quatro actores enterrados num lamaçal do absurdo, bem terapêutico. Perplexos, texto de Marius Von Mayenburg, com encenação de Cristina Carvalhal e interpretação de Nuno Nunes, Sara Carinhas, Pedro Lacerda e Sílvia Filipe, estreia esta quinta-feira no São Luiz.

Pedro está irritado e com razão. Nuno e Sílvia, que lhe  ficaram de regar as plantas durante as férias – a Pedro e a Sara, sua mulher –, podiam ter visto o correio, podiam ter avisado que tinham chegado duas cartas com avisos de corte da luz. Pois podiam, podiam se de repente Pedro não virasse filho de Sílvia e de Nuno e tivesse Sara como babysitter, podiam se esta casa ainda fosse a sua, se isto não fosse um carrossel de personagens, uma narrativa surreal, uma colagem de colagens, o teatro dentro do teatro. 

Estamos tão enfiados na lama do absurdo que até as personagens parecem perplexas. Estão elas e estamos nós, tudo responsabilidade de Cristina Carvalhal, que encena este Perplexos, de Marius von Mayenburg, a partir de quinta-feira no São Luiz. 

Quando Aida Tavares endereçou o convite à directora artística das Causas Comuns (estrutura que dirige desde 2004) esta soube logo que era a vez de Perplexos: “Tem esta coisa do humor que tem uma primeira camada de fácil acesso, uma história cheia de gags. E depois tem todo um outro lado de interrogar as convenções do teatro, a personagem, o espaço, a quarta parede. Achei que era a peça ideal para apresentar num teatro à italiana, como se fazia antigamente, uma comédia de portas, de costumes, sendo que acaba por destruir isto tudo, dá a volta e não é nada disso.”

É o quê, então?  É o caos, isso seguramente. Mas é o caos em relativa normalidade, ou seja, um adulto arruma lixo debaixo do sofá; um filho chama nazis aos pais; um alce caça sexualmente um esquiador num Airbnb que já foi habitado por nazis e que agora pode servir para aparições de Darwin ou Nietzsche. É, no fundo, um telefone estragado, uma caldeirada de contracena, como clarifica Cristina Carvalhal: “As personagens não transitam todas ao mesmo tempo. Quando o espaço ou as relações entre personagens mudam, eles estão durante algum tempo a jogar coisas diferentes, no fundo também é sobre o jogo teatral, cada um vai reagindo ao outro.” 

Para ficar melhor, só uma reacção nossa: mergulhar na segunda camada, perceber que também se aborda a optimização genética através do arianismo, a descriminação sexual e racial, o nada de Nietzsche, “porque se nos acabarem com os referentes, com a linguagem que antes instalámos para poder ler a realidade, estaremos perante a impossibilidade de obtenção da verdade”, diz a encenadora. 

E diz muito bem. Diz tão bem que aqui chegámos com a certeza de estar perante uma peça profundamente política, que põe o dedo na ferida, no desvirtuar do essencial, no falso altruísmo que diz que não é racista e que faz a reciclagem. Pois, pois. É claro que Pedro está irritado. E é claro que os seus pais são nazis.

São Luiz Teatro Municipal. Qui-Sáb 21.00, Dom 17.30. 5-12€.

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