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Joana Vasconcelos
Bruno Lopes Valkyrie Octopus

"Plug-in": uma viagem electrizante ao mundo de Joana Vasconcelos

A partir desta sexta-feira, a nova exposição de Joana Vasconcelos ocupa os dois edifícios do MAAT. Uma valquíria gigante e um carro que canta são algumas das peças para ver até Março.

Beatriz Magalhães
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Beatriz Magalhães
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Até para os mais distraídos, a nova instalação à entrada do MAAT não terá passado despercebida. Defronte do rio, à luz do sol de um Outono quente, brilha o diamante de um anel invulgarmente grande. Chama-se Solitário e é uma das peças mais icónicas de Joana Vasconcelos, que, até 25 de Março, apresenta-se com a exposição “Plug-in” nos dois edifícios do museu. 

É o regresso de Joana Vasconcelos a Lisboa, depois de uma década sem expor na capital portuguesa. A autora já decorou o Palácio de Versalhes e o Guggenheim de Bilbau, mas agora está de volta à cidade que a viu nascer enquanto artista. “Isto é um momento raro, porque jogar em casa é muito mais divertido do que no estrangeiro”, confessa, entre risos, durante uma visita dirigida à imprensa. Das idas ao baú às criações mais recentes, a mostra conta com seis peças marcantes na carreira de Vasconcelos, das quais duas nunca tinham sido expostas em Portugal, e uma peça inédita. 

Aclamada com mais de 30 prémios e, tendo vencido, em 2000, a primeira edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, Joana Vasconcelos garante ter trazido ao Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia um conjunto de peças especialmente monumental, no qual destaca um forte ênfase na arte pública. Desta vez, conta a artista, “não estamos só dentro, mas também estamos fora”, colocando a tónica na multiplicidade de facetas que o trabalho de Vasconcelos pode assumir.

Antes de entrar na exposição, é impossível não reparar nas duas instalações que integram a paisagem à beira-rio. A primeira é uma circunferência constituída por 110 jantes de automóvel douradas e coroada por uma pirâmide invertida formada por 1450 copos de uísque em cristal Atlantis, que simula um diamante gigante. Solitário conjuga assim dois dos mais estereotipados símbolos de luxo - automóveis e diamantes -, aludindo ao falso sentido de felicidade que estes objectos transmitem e questionando os papéis masculino e feminino na sociedade. Pousada a céu aberto, encontra-se também I’ll be your Mirror, uma máscara veneziana, inteiramente composta por espelhos. A obra dialoga com a envolvência do público, convidando-o a entrar e a encontrar a sua imagem reflectida. “Só há reflexão quando há paralelismo”, assinala a artista.

Solitário joana vasconcelos
PPINASolitário

A Árvore da Vida, ainda em fase final de montagens, dá-nos as boas-vindas ao edifício da antiga Central Tejo. Com 13 metros de altura, o loureiro, de tons avermelhados e dourados, tem 140 000 folhas no total, bordadas à mão. Concebida e produzida durante o confinamento, em 2020, a obra representa “um novo recomeço” e foi originalmente exposta, este ano, na Sainte-Chapelle de Vincennes, em Paris.

Já no edifício do principal, na Galeria Oval, está a maior das peças desta exposição, inicialmente encomendada para o casino da MGM de Macau, em 2015. A Valkyrie Octopus emprega uma diversidade de tecidos, croché e passamanaria, entre eles lãs da Brancal e bordados de Viana do Castelo e de Niza, que lembram as cores de Lisboa, bem como as texturas do mar. Composta por um corpo central, cabeça, cauda e diversos braços, a valquíria cruza também o labor artesanal com a componente tecnológica, através da inserção da luz, tornando-se um jogo de volumes, texturas e cores. O público é convidado a imergir e tocar na peça, que interliga as tradições portuguesas e macaenses.

Joana Vasconcelos
Bruno LopesValkyrie Octopus

 

War Games, um clássico Morris Oxford, leva os visitantes a pensar na ideia de segurança e nas suas dimensões. Cravado com dezenas de espingardas de plástico e luzes LED que se apagam e acendem ininterruptamente, o interior do carro transporta centenas de bonecos de peluche que se agitam e chamam à atenção. Este faz parte de uma trilogia sobre rodas, ao qual se sucede Drag Race, peça estreante da exposição. O Porsche 911 Targa Carrera revela-se uma espécie de modelo moderno do famoso Coche dos Oceanos. As figuras com motivos marinhos, cinzeladas em talha dourada, pelos artesãos da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, tornam o carro numa visão de opulência, característica do barroco português, do qual Joana Vasconcelos vai buscar grande parte da sua inspiração.

O terceiro e último veículo recebe o seu título da música “Strangers in the Night”, de Frank Sinatra, que, não coincidentemente, toca em contínuo a partir de colunas integradas na peça. Em 2001, na primeira exposição individual da artista na antiga carpintaria, neste mesmo local, a obra marcou presença. Retorna agora em jeito de retrospectiva da carreira da artista plástica. Em contraste com a canção de amor duradouro, o décor interior de uma cabine de peep-show aberta, forrada exteriormente de farolins de carros que piscam sem parar, remetem para o imaginário de homens que recorrem à prostituição nas ruas da cidade. 

Além das peças grandiosas às quais o público já está acostumado, a mostra conta ainda com uma exposição inédita dos desenhos de Joana Vasconcelos. Numa escala redonda, o mesmo desenho é apresentado em diferentes técnicas. Estes desenhos deram origem à piscina inaugurada no Festival de Arte de Edimburgo, em 2019. Outros desenhos, de formato diferente, conjugam papéis antigos portugueses, parte do leque de inspirações da artista, que se interessa pelos motivos do folclore português.

Com curadoria de João Pinharanda, a exposição pode ser visitada no MAAT Central e na galeria do MAAT, até 25 de Março.

MAAT, Belém. Qua-Seg 10.00-19.00. 8€-23€

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