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Plutonio: “A possibilidade de morrer faz-te querer viver com mais força”

Plutonio
©Pluma Plutonio

Plutonio enche o palco do Coliseu, esta sexta-feira, num espectáculo que tem tanto de concerto como de consagração. Antecipámos a efeméride com o músico.

Na música de Ricardo de Azevedo cabe uma realidade que nem todos os olhos conseguem ver. Um subúrbio condenado ao esquecimento mas nunca ao silêncio, porque as confissões nem sempre precisam de paredes, se os ouvidos estiverem no sítio certo. Plutonio é a voz de um bairro nesse subúrbio, uma história de superação perto daquilo a que o cinema nos habituou. Mas o percurso do músico do Bairro da Cruz Vermelha, que chega esta sexta ao Coliseu dos Recreios, não se fez à frente de câmaras. Sacrifício, o último trabalho, ganha por isso uma dimensão colossal – se por um lado lhe resume os 34 anos, por outro, actua como um testamento ao presente. “Ia mentir se te dissesse que o Coliseu era um sonho meu porque quando comecei a fazer música nunca achei que ela lá chegasse, que tivesse dimensão para sequer encher, quanto mais esgotar.”

Dos dias de GhettoSupastars (grupo que unia os emcees Honat, BX, Katanga, Apollo G e o próprio Plutonio), trouxe a fome, um indício indispensável à caminhada degraus acima, contudo, o começo agradece-o a um dos pesos pesados do movimento, Chullage. “Ele vem de uma realidade parecida com a minha. Nunca tinha encontrado em português alguém que me fizesse sentir da forma como o Chullage me faz sentir.” Faltava o empurrão para seguir estrada fora, que chegou da Bridgetown em 2015, label que condensa talentos como Richie Campbell, Mishlawi, Dj Dadda ou Dengaz. “Já fazia música desde a adolescência mas não a levava de forma séria e quando comecei a trabalhar com eles passei a perceber esse lado mais profissional.”

Talvez seja essa a razão dos ritmos metamórficos com que constrói as músicas: Plutonio é hip-hop sem o ser, é R&B sem o ser, é afrobeat sem o ser, porque tudo tem, no final, uma respiração própria. “A minha música é reflexo do que eu sou. Não tem propriamente um estilo, até porque eu sou mais do que isso.” E se as melodias prendem o público, facto consumado pelo número estratosférico de visualizações dos seus vídeos no YouTube, as letras são outra metade da equação. Ele sabe-as duras, mas se a vida também o foi, havia ele de fugir? “Se as pessoas tiverem uma boa educação em casa, o que ouvem fora é relativo. Ouvi um monte de coisas dentro da música que gostava e, se calhar, não fiz metade. O que fiz nem foi pela música, foi pelos sítios onde andei, com as pessoas com que andei, as circunstâncias em que me meti. Até porque havia gente que não ouvia o mesmo que eu e fizeram coisas bem piores.”

Pode parecer contraditório que alguém que sabe o que é ser baleado o diga. O “sangue no pergaminho”, como ele o canta na faixa “Sacrifício”, produzida por Sam The Kid, é uma das alusões mais fortes ao passado. “Pensares na possibilidade de morrer, faz-te querer viver a vida com mais força. Aquela fase fez-me re-acordar para a vida e comecei a dedicar-me cada vez mais a fazer música.”

É, também, um rasgo de salvação que o havia de colocar num outro caminho, aquele que o pôs em palco, no Brasil, a abrir para Erykah Badu, que o coloca na frente do movimento em Portugal e que o leva a um Coliseu dos Recreios esgotado. Se há surpresas? Há. Mas o véu fica por levantar desta vez. “Vou ter convidados surpresa. Não os quis anunciar porque gostava que as pessoas lá fossem por mim. Vou deixar para o momento, que eu sei que o pessoal também gosta das pessoas que lá vão estar. É o show que mais ensaiei, mais preparado de sempre. Estou com muita vontade de tocar.”

Coliseu dos Recreios. Sex 20.00. 18€.

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