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Notícias / Teatro e artes performativas

Quatro mulheres, quatro histórias, quatro desgraças no D. Maria II

Malfadadas
Filipe Ferreira

Em Malfadadas, Isabel Abreu e Aldina Duarte cantam-nos e contam-nos intempéries de quatro personagens históricas do teatro e da mitologia. Numa co-criação com Miguel Loureiro e Filipe Raposo que se estreia nesta quarta-feira.

Mary Tyrone viciou-se em morfina depois de dar à luz o segundo filho. Blanche DuBois foi excomungada pela família depois de se ter enrolado com um aluno de 17 anos – e já antes o seu marido se havia suicidado devido a uma traição. Medeia, enfim, Medeia é Medeia e mata os seus filhos por se sentir rejeitada. Eurídice morreu com uma picada de cobra a tentar ser fiel a Orfeu, que por desconfiança a condenou para sempre ao inferno de Hades. Estas Malfadadas, espectáculo que reúne Aldina Duarte, Isabel Abreu, Filipe Raposo e Miguel Loureiro, partilham a desgraça e o palco do Teatro Nacional D. Maria II a partir deste sábado.

Há dois anos, Aldina Duarte e Isabel Abreu juntaram-se para ver o que é que desse encontro saía, “sem o objectivo de fazer um espectáculo”. E depois lembraram-se que no repertório de Aldina Duarte, mais precisamente no disco Contos de Fados (2011), estavam quatro fados, escritos por Manuela de Freitas e Maria do Rosário Pedreira, que falavam destas quatro personagens: Mary Tyrone da peça Longa Jornada, de Eugene O’Neill; Blanche DuBois, de Um Eléctrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams; Medeia, também ela uma personagem mitológica e peça de Eurípedes; e ainda Eurídice, ninfa da história mitológica, mulher de Orfeu. “Pensámos que podia ser giro pegar nestas quatro mulheres e perceber onde é que elas se encontram e onde é que nós nos encontramos”, explica Isabel Abreu.

São quatro mulheres invadidas pela desgraça, nem sempre desprovidas de culpa, mas figuras frágeis, trágicas, de triste fado. Isabel e Aldina chamaram Miguel Loureiro para coser e colar estas linhas dramatúrgicas, e Filipe Raposo para fazer a música original, ao piano, e criar um objecto “híbrido entre um recital, uma casa de fados, entre uma postura do fado, com a fatalidade do fado e estas gramáticas destes quatro vórtices femininos, destes quatro furacões”, como descreve Miguel Loureiro.

Cenograficamente, o palco da Sala Garrett estará descarnado, aberto, ocupado por um piano, duas cadeiras, tripés, projectores ligeiramente rebaixados, cabendo à luz e ao som grande desse jogo de ambiente, dessas sombras negras próprias de floresta, de uma outra estação do tempo. É esse embalo que faz o piano circular numa espécie de circuito, em quatro posições distintas, servindo momentos arrepiantes, fados que se violentam junto ao nosso rosto, na voz de Aldina Duarte, ou outros, mais teatrais, mais à boleia da interpretação de Isabel Abreu. E sim, o piano e os dedos de Filipe Raposo são, em grande medida, o equilíbrio desta intempérie por vezes excessivamente violenta. “A música é tão necessária como os outros elementos e tanto pode ser um pórtico que abre uma janela escondida para uma nova zona do texto como o fecha; como é também um canal iniciático para algo que vai acontecer. Ela traz em si mesma uma carga milenar, porque nos quatro fados existe essa herança milenar daquilo que é música tradicional”, enquadra o compositor.

Elas estavam desgraçadas. E nós com elas ficámos.

TNDMII. Qua e Sáb 19.00. Qui-Sex 21.00. Dom 16.00. 9-16€. 

criação Aldina Duarte, Filipe Raposo, Isabel Abreu e Miguel Loureiro
com Aldina Duarte e Isabel Abreu
música original Filipe Raposo

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