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Raquel Castro
Bruno Simao Raquel Castro em "Turma de 95"

Raquel Castro está de novo no recreio (e nos anos 90)

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Turma de 95 é um regresso à escola de Raquel Castro, e à sua turma de 9.º ano. Com isso vem também um auto-retrato e uma viagem aos anos 90.

O embate, meio envergonhado, de nos vermos numa fotografia antiga de turma. Esse fosso entre a memória daquilo que éramos e aquilo em que nos tornámos. Espetar o dedo no estúpido que fazia pouco de nós, rir de um certo episódio menos feliz, repetir as alcunhas todas. Não é que aqui tenha sido assim: Raquel Castro não tropeçou em caixas cheias de pó com fotografias e negativos, mas o que escrevemos acima serve para gerar o ambiente de Turma de 95, espectáculo que a artista estreia sexta-feira no TBA.

Foi através dos Third Angel – companhia inglesa que já passou por Portugal algumas vezes e que tem relação próxima com a mala voadora e com a artista Paula Diogo – e do espectáculo Class of 76, estreado em 2002 pela mão de Alexander Kelly, fundador da estrutura, que Raquel Castro enfiou a cabeça na areia movediça da memória do tempo escolar. Esse tempo com tanto de liberdade quanto de prisão. Só que quando Kelly montou a coisa a internet não tinha as potencialidades que hoje lhe são conhecidas para juntar familiares deslaçados e amigos cujas vidas deixaram de se cruzar. Portanto, obrigado internet, diz Raquel Castro perante essa aparente árdua tarefa que se mostrou relativamente tranquila.

É por isso que este espectáculo é muito menos essa busca e muito mais os resultados dessas conversas/encontros. E é, seguramente, um destapar da história pessoal da artista, bem como uma ilustração livre dos anos 90, o Top+, Baywatch, os Nirvana, Beethoven II ou até o cloreto de etilo, que é o spray utilizado para as lesões dos desportistas, mas que na escolas era mais conhecido como “peixe aranha” e dava uma sensação de perda de controlo do corpo que durava um minuto. Mas nem tudo tem piada. Alguns dos colegas de turma de Raquel Castro dizem que hoje as pessoas não têm tempo para nada, estão sempre cansadas, a ditadura do trabalho e da sociedade das notificações e da perda de relações interpessoais. “Sim, isso está lá e ainda bem, porque isso é um reflexo da sociedade de hoje. O que tentei fazer foi, usando as histórias deles, contar a minha história em articulação. E também retratar aquela época, retratar a época de hoje, como juntar estes ingredientes todos para criar uma coisa mais complexa”, explica a criadora.

O palco estará praticamente descoberto. Uns bolinhos de lado e Raquel. Ela que, com uma folha de kapaline, vai mostrar-nos os rostos de toda a turma que até esse momento não são possíveis de ver (a luz da sala impossibilita que vejamos a projecção). É um mecanismo cenográfico cheio de pinta, que dá à peça cariz de coisa antiga, proporcionada pela foto da turma de 95 do Colégio dos Salesianos – Oficinas de São José. E sim, é isto. E não há problema nenhum que assim seja, que a simplicidade reine, que o artifício do teatro não esteja presente, que seja uma história narrada em palco: “Interessava-me que o espectáculo tivesse mais elementos performáticos, porque me interessa como artista, mas cada coisa desse género que tentava parecia não resultar, o espectáculo é isto e não vale a pena estar a inventar. É uma história”, conclui.

TBA. Sex-Sáb e Ter 21.30. Dom 17.30. 5-12€.

a partir de Class of 76, dos Third Angel
criação e interpretação Raquel Castro
apoio à dramaturgia Alexander Kelly

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