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'Real Dog', de Solange Freitas, estreia esta quarta no Negócio/ZDB

Por Miguel Branco
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Quem nunca acordou a querer assaltar um banco que atire a primeira pedra. ‘Real Dog’, a nova peça de Solange Freitas para ver até sábado no Negócio/ZDB, parte da ideia de "baseado em factos verídicos" para fazer a sua versão de uma história real. Ou não. 

22 de agosto de 1972. John Wojtowicz decide assaltar um banco em Brooklyn para pagar a operação de mudança de sexo do seu amante. Arrancavam os movimentos de igualdade de género, de transexualidade, assim como os grandes eventos mediáticos com cobertura em directo. Era a excitação da televisão, que era tanta que mal se soube da história – mal vieram os tais movimentos ou meros populares apoiar a causa de John – o então Presidente Nixon viu o seu discurso interrompido. Isso John conseguiu. Isso e muito mais. 

Real Dog, nova criação de Solange Freitas – que trabalhou durante largos anos com Catarina Vieira e ainda com tempo para se cruzar com John Romão, Tiago Cadete, Mickaël Oliveira, entre outros – para ver no Negócio/ZDB de quarta a sábado, é mais sobre o filme que Sidney Lumet (realizador norte-americano) viria a fazer em 1975, é mais sobre a vídeo-instalação que Pierre Huyghe (artista plástico francês) fez com John em 1999, do que sobre o assaltante. É mais sobre o “baseado em factos verídicos”, sobre como fazer uma reconstituição nunca é rigorosamente factual, sobre como a memória é uma tipa de quem devemos sempre desconfiar. 

No arranque anuncia-se o evento, está lá a mesa que serviu todo o processo até aqui chegarmos e que continua a ser o centro do espectáculo, com dois telefones – porque a polícia precisa de negociar; porque os actores precisam de falar –, uma maquete do edifício do banco de Brooklyn e uma tela onde se projectam imagens diversas, sobretudo aquelas que saem do revólver-câmara. Que, como Solange Freitas (que também conta com Luís Puto e Rui Neto na co-criação e interpretação) confirma é um objecto que sucinta uma ideia de fazer teatro: “Sim, há um bocado aquela ideia do documental, de uma maneira de ver o teatro. Tem essa coisa da reconstituição, quase forense”, diz antes de Luís Puto acrescentar: “É a reconstituição da reconstituição da reconstituição da nossa própria reconstituição”. 

Solange Freitas chegou a John Wojtowicz – que depois do filme de Dog Day Afternoon (1975) ficou mais Dog do que John, alcunha que lhe é dada no grande ecrã – depois de ver a obra de Huyghe. Depois viu o filme, depois quis fazer diferente. Isto porque, embora Dog não se tenha revisto naquele filme foram os direitos do mesmo que permitiram pagar a operação do amante, com quem viria a casar. 

O trio em cena quase que também assaltou o banco. Também parecem atrapalhados como John e os dois parceiros de crime, “como é que é agora? como é que continuamos isto?”. Ora é precisamente essa vontade, ou hesitação, essa disputa com a memória, que é o motor de Real Dog. Até porque, afinal, quem é que sabe o que jantou ontem? 

Negócio/ZDB. Qua-Sáb 21.30. 5€-7,5€.

Direcção Solange Freitas Co-criação e interpretação Luís Puto, Rui Neto e Solange Freitas Música Teresa Castro (Calcutá e Mighty Sands).

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