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Reinar Depois de Morrer
D.R.

'Reinar Depois de Morrer' devolve-nos Inês de Castro a partir de sexta

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Reinar Depois de Morrer é a nova produção da Companhia de Teatro de Almada, com estreia esta sexta-feira. A encenação de Ignacio García devolve-nos Inês de Castro, ainda que morta. Não, viva.

O amor nunca escolheu circunstâncias. Deu-se. Vai-se dando, quando por dois corpos é sugado. Em tempos em que não se escolhia, em que não nos deixavam escolher, mais complicada se tornava a tarefa de estar com quem se queria estar. A lenda de D. Inês de Castro e de D. Pedro I, essa falsa ilegitimidade que dois povos quiseram vender, ficará para sempre nos livros e imaginários ibéricos.

Reinar Depois de Morrer, nova produção da Companhia de Teatro de Almada, é um texto de Luis Vélez de Guevara escrito em 1635, tem encenação de Ignacio García e adaptação de José Gabriel Antuñano. Estreia esta sexta-feira no Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB), inserido na Mostra Espanha 2019.

Explique-se, já agora, que Ignacio García é o director do Festival Internacional de Teatro Clásico de Almagro, um dos importantes festivais de teatro clássico do mundo, que decorre na pequena Almagro, perto de Ciudad Real. E explique-se ainda mais que Ignacio García já havia estado em Almada. “Foi há quase três anos que fizemos A História do Cerco de Lisboa aqui no TMJB", recorda. "Mais tarde, estávamos a pensar num projecto que pudesse ser ibérico, um pouco seguindo o sonho de Saramago, de uma cultura ibérica, e chegámos à conclusão de que esta era a obra perfeita. É espanhola mas de temática portuguesa e é uma lenda portuguesa com personagens espanholas."

E a vontade de isto ser coisa ibérica era tanta que até se dividiu a equipa em dois, isto é, metade espanhola, metade portuguesa. Ainda que para esta estreia García trabalhe com um elenco português, existirá também o mesmo espectáculo com um elenco espanhol, com direito a que em Madrid, em Junho, num só dia, se possam ver ambas as versões.

Em palco, começamos no funeral de D. Inês de Castro, sepultada no Mosteiro de Alcobaça, para gáudio de uns e desespero de outros, como D. Pedro I. Toda a estrutura da peça é uma espécie de cabra cega, isto é, andamos aos apalpões porque não vemos bem, ou, por outro, até vemos, mas não saberemos nunca se isto é real ou é sonho, se é dilema interior ou pesadelo de olhos abertos. Estamos nessa fronteira, até imaginar o pós-vida podemos. Pelo meio, vemos a perseguição a este amor imbatível, a prisão de Pedro, o rapto dos filhos, a carga malévola do seu assassino Álvaro Gonçalves, a rivalidade com a princesa Branca de Navarra, ou o odioso rei Afonso IV de Portugal.

“A relação entre poder e liberdade interessava-me muito. O poder político pode aniquilar liberdades facilmente. Porque o poder o que quer é poder, é dominar, é decidir”, clarifica o encenador. “Um ser humano rebelde como Inês de Castro é incómodo para o poder e por isso acabam com ela, porque ela decide ser livre e decide não aceitar a mentira, ainda que lhe tenham oferecido essa saída. É um confronto entre poder e honra, entre dignidade e força.”

Mas não só. Há mais por este cenário que pode ser descrito como um pseudo-half-pipe coberto a azulejo português e quatro janelas para a liberdade. “Também me parece que é uma obra muito importante no que diz respeito a uma certa transcendência mística. Vivemos num tempo de um materialismo imposto pelo capitalismo. Parece que tudo o que é importante se pode comprar e vender, que se encontra no mercado. E aqui falamos de outras coisas: de bondade, de beleza, de virtude”, conclui. Tudo coisas que ainda importam.

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