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Palco, Teatro, Teatro Griot, O Riso dos Necrófagos
©Sofia BerberanO Riso dos Necrófagos de Zia Soares

Resgatar memórias da violência colonial para projectar o futuro

Este mês, o Teatro Griot estreia um espectáculo na Culturgest que é precedido por uma conversa online esta sexta-feira. Falámos com a encenadora, Zia Soares.

Por Mariana Duarte
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Em 1953, quase uma década antes do início da Guerra Colonial (1961-1974), acontecia em São Tomé e Príncipe um dos muitos episódios de violência colonial perpetrada pelo regime fascista português: a Guerra da Trindade e o Massacre de Batepá, que procurava estrangular os protestos dos santomenses contra o trabalho forçado nas roças de cacau e café e nas obras públicas. Esta “operação de limpeza”, como a denominavam as autoridades portuguesas, resultou em assassinatos, torturas, prisões, rusgas, violações, deportações e o envio de cidadãos para campos de trabalho forçado. Ainda assim, perante estas e muitas outras evidências, há quem continue a insistir na ficção de Portugal como o “bom colonizador”.

Se é certo que a Guerra da Trindade e o Massacre de Batepá foi um acontecimento representativo da saga de crimes levados a cabo pelo colonialismo português, por outro lado foi também um importante movimento de resistência organizado por parte dos santomenses. Apesar de estarem em clara desvantagem, lutaram com o que tinham – machins (catanas), instrumentos para colher o cacau, pedras –, acrescentando mais um capítulo à longa história de resistência anticolonial, da Revolução Haitiana à Guerra dos Palmares. Importa olhar este conflito como um episódio fundacional “daquilo que é o São Tomé livre e independente de hoje, bem como “do movimento de libertação dos países actualmente designados de PALOP”, lembra Zia Soares, encenadora, actriz e directora artística da companhia Teatro Griot, que no dia 20 estreia a sua nova criação na Culturgest, O Riso dos Necrófagos, directamente inspirada neste confronto.

Paralelamente, o espectáculo é acompanhado por dois momentos: Que Ritual Entre a Vida e a Morte?, uma conversa online entre Zia Soares e a artista e investigadora Raquel Lima (esta sexta, no Facebook da Culturgest, entre as 12.00 e as 13.00), e Utopia Machim – Resistência no Lugar dos Tempos, uma conferência presencial, a 27, sobre a história esquecida (ou convenientemente omitida) da relação colonial entre Portugal e São Tomé e Príncipe, com a participação de António Pinto Ribeiro, Inocência Mata, Miguel de Barros e Beatriz Gomes Dias.

Este miniprograma em torno de O Riso dos Necrófagos vai ao encontro de um dos objectivos do Teatro Griot, que passa pelo resgate e construção de memória num território europeu e português em que as epistemologias das populações negras e afrodescendentes são permanentemente secundarizadas e desvalorizadas. “Para os brancos portugueses há um suporte de memória muito bem montado, que prevalece, que se impõe, que se quer hegemónico. Eu não tenho esse dispositivo de memória à minha disposição”, diz Zia Soares. “Tenho memórias fraccionadas, desfocadas, relatadas. E isso também me deixa numa posição de enorme liberdade criativa. O que a companhia faz, e o que este espectáculo faz, é a produção de memória do porvir, ainda que baseada em memórias desfocadas do passado.”

Palco, Teatro, Teatro Griot, O Riso dos Necrófagos
©Sofia Berberan

E foi também a partir de uma memória do passado de Zia Soares que a ideia para este espectáculo começou a ganhar forma. “No quinto ano tive dois colegas gémeos, de origem santomense, que me falaram da Guerra da Trindade e do Massacre de Batepá. Aquilo deve ter-me ficado escondido em algum sítio”, conta. Quando já estava no Teatro Griot, esta memória não lhe saía da cabeça. Foi falando com amigos santomenses a viver em Portugal, foi investigando cada vez mais sobre o tema até que, há dois anos, surgiu a oportunidade de fazer uma residência artística em São Tomé e Príncipe. Aí começou a desenvolver o projecto. “A minha pesquisa passou por ir conhecendo os movimentos da ilha, os gestuários, as pessoas.” A integração desse trabalho de campo e dessas vivências no espectáculo foi um processo “bastante abstracto, mas ao mesmo tempo muito concreto”.

“É como se eu tivesse trazido uma grande mala em que algumas coisas são palpáveis – como as catanas e os búzios que são utilizados no espectáculo – e outras que não se vêem, mas que compõem o processo dramatúrgico da peça”, explica a encenadora. Em O Riso dos Necrófagos há um trabalho aturado de movimento, sempre em paralelo com o texto e com a música, esta da autoria de Xullaji, rapper e músico anteriormente conhecido como Chullage. “O gestuário foi uma recolha muito importante ao longo da minha pesquisa”, nota Zia Soares. Nesse aspecto, destaca como referências o tchiloli, tradição teatral santomense que encontra eco também no trabalho de figurinos de Neusa Trovoada; “a observação de necrófagos”, em particular os abutres; e a marcha ritualística de 3 de Fevereiro, em que se homenageiam os santomenses assassinados no massacre.

“É uma marcha de quase cinco horas, desde a Praça da Independência, no centro de São Tomé, até à praia de Fernão Dias, onde foi construído um enorme dispositivo em que muita gente foi presa e massacrada, e é hoje um memorial”, contextualiza a criadora. Este itinerário, onde “tudo está amplificado”, dos sons aos movimentos dos corpos, reverbera na cadência cerimonial, febril e fantasmática que atravessa o espectáculo, erguido por nove intérpretes: Benvindo Fonseca (histórico bailarino do Ballet Gulbenkian), Binete Undonque, Daniel Martinho, Gio Lourenço, Mick Trovoada, Neusa Trovoada, Vera Cruz, Xullaji e Zia Soares. Já o texto foi construído por Zia a partir das suas impressões e recolhas, incluindo de documentação histórica realizada por investigadores africanos, como o professor Carlos Espírito Santo. As palavras da encenadora são cruzadas com trechos de obras de Alda Espírito Santo e Conceição Lima, duas escritoras santomenses.

Com este novo espectáculo, o Teatro Griot dá mais um passo no movimento artístico de contra-memória que tem vindo a construir. Reivindica as narrativas que não foram manipuladas pelos invasores, coloca em diálogo o pré-colonial, o colonial e o decolonial, e articula os vários “vocabulários de resistência”, que também se inscrevem no presente para forjar outros futuros.

Culturgest Lisboa. 20 a 23 de Abril às 19.00. 14€

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