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Palco, Teatro, Performance, Revista cor-de-rosa
©Bruno SimãoRevista cor-de-rosa

Revista à portuguesa, agora sem estereótipos

Estão lá as vedetas, os comentários cáusticos, o limbo entre o tom divertido e o trágico. ‘Revista cor-de-rosa’ é revista à portuguesa, mas com contemporaneidade.

Escrito por
Joana Moreira
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“Não tenho particular vontade ou nenhum motor para vir criticar a revista”, diz Ana Sampaio e Maia, 31 anos, responsável pela direcção e dramaturgia de Revista Cor-de-Rosa, o espectáculo que está em cena no espaço Escola de Mulheres, em Lisboa, de 10 a 20 de Fevereiro.

Com a declaração de intenções feita, a actriz e criadora, que foi uma das fundadoras do colectivo Silly Season, entregou-se à exploração de uma nova abordagem do género teatral, abraçando a formalidade dos códigos cénicos e juntando-os a um texto que só poderia ter sido escrito no tempo presente. “A minha avó dizia, quando eu estava nos Silly Season, que gostava muito de me ver, mas que não percebia nada daquilo. ‘Ó filha, tu devias era fazer uma revista e escrever uns versinhos, tu tens tanto jeito para escrever’”, recorda. Socorrendo-se da memória colectiva do género, Ana criou então esta peça, que não se cola à revista, mas se guia por ela. Por exemplo, o tom leve e cómico mantém-se como veículo para tratar questões menos risonhas, como é o caso da precariedade em que vivem os profissionais da cultura.

“Há um lado que salta de mim que é bastante político”, admite, minutos após o ensaio. “Se queria fazer algo que fosse político sobre o meio artístico e sobre factos actuais portugueses e de uma forma que talvez enverede por um campo que é o do humor, porque não fazer uma revista?” Fugindo à tentação (ou até umbiguismo) de ter um grupo de actores a falar para actores sobre actores, o desafio foi descobrir ganchos para fazer rir que não caíssem nos estereótipos. “O conteúdo, mais do que a forma, da piada, de tudo aquilo que é o campo do humor, é bastante envelhecido. Continua a bater-se. Para além de se utilizar o espaço da revista para se criticar as classes de poder, sempre que se pode coloca-se uma piadazinha sobre o corpo da mulher ser muito bem feito, sobre o negro da esquina, e acho que isto é que está ultrapassado”, afirma. “Não quero fazer parte de um rol de alguém que continua a perpetuar esse tipo de questões, sejam elas levantadas com mais ou menos piada”, garante. 

Palco, Teatro, Performance, Revista cor-de-rosa
©Bruno Simão

Durante pouco mais de uma hora, desfilam pelo palco personagens simbólicas – a interpretação é de Ana Sampaio e Maia, Catarina Clau, Joana Cotrim, Miguel Cunha, Rita Morais e Sérgio Brito –, como a actriz que sonha com musicais (e que por isso canta “All that jazz” a cada minuto), o actor que vê nas redes sociais a sua porta para uma carreira de sucesso (e que alterna texto com um falso momento promocional a uma marca de cosméticos), a jovem que fala dos signos e ascendentes (antes de falar do currículo) ou o actor reivindicativo que organiza as manifestações pelo sector. O que os une? Um casting com uma oferta miserável – que, apesar de tudo, todos desejam. Há ainda um texto carregado de referências contemporâneas, muitas através de nomes de código: Teresa Pouquinho, John Tufão, Fulano Jerónimo ou Erro Penim (este último refere-se a Pedro Penim, que em 2014 também contribuiu para a reinvenção da revista à portuguesa, como co-criador de Tropa-Fandanga, espectáculo do Teatro Praga que chegou ao D. Maria II).

“Esse é o caminho que a revista costuma seguir, basear-se em factos que antecederam o ano da estreia da revista”, explica Ana Sampaio e Maia. Por isso, não falta um final à altura, com a recriação do poderoso momento de protesto de Marina Mota num programa matutino na televisão portuguesa, em 2020. Apelando à “dignificação da classe”, a actriz reclamou o direito ao trabalho e defendeu o sector cultural. “A cultura faz parte. A cultura faz parte da identidade de um povo e a identidade de um povo não é Shakespeare”, disse em directo. Tal como Mota, também Maia não tem pudor em aproveitar o seu tempo de antena. No final de Revista cor-de-rosa anuncia-se a próxima revista – um desejo verbalizado do que a encenadora ensaia como próximo passo. “Se eu tenho vontade de fazer outra revista para o ano? Tenho, imensa vontade. Não sei como é que isso se defende numa candidatura à DGArtes, mas gostaria imenso.”

Espaço Escola de Mulheres. Rua Alexandre Braga, 24 A (Estefânia, Lisboa). 10-20 Fev. Qui-Sáb 21.00 Dom 18.30. 7€

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