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O Ladrão de Barulhos
José FradeO Ladrão de Barulhos

Silêncio, que se vai ouvir ‘O Ladrão de Barulhos’

O LU.CA estreia esta sexta-feira ‘O Ladrão de Barulhos’, num misto de teatro, música, dança e mímica.

Por Raquel Dias da Silva
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A relação entre a música e a arquitectura é o exemplo perfeito de como duas artes e formas de pensar o mundo se envolvem tão organicamente que só nos apercebemos do fenómeno quando temos o prazer de nos sentarmos para 40 minutos de pura exploração electro-acústica. É precisamente essa a proposta da escultora Inês Botelho e do arquitecto compositor Diogo Alvim. Mas num formato pensado para crianças a partir dos três anos, que estreia esta sexta-feira, 27 de Novembro, a partir das 18.30, no LU.CA – Teatro Luís de Camões.

“É uma excelente oportunidade para trabalhar questões universais, que fazem parte da Física e que, ao mesmo tempo, são tão deslumbrantes, de um ponto de vista estético”, diz Diogo, depois de interpretar o próprio O Ladrão de Barulhos, num dos últimos ensaios técnicos deste trabalho que é fruto de uma reflexão conjunta que anda a fazer com Inês Botelho há mais de dez anos. “Tivemos a sorte de ter uma bolsa de criação da Gulbenkian, em 2010.”

No palco, uma Atleta, a bailarina Marta Cerqueira, confronta-se com uma Orelha especial à procura dos sons provocados pelo lançamento de bolas, rodas e outros objectos do quotidiano. Do lado de cá, conseguimos ver e ouvir tudo. Do lado de lá, a acústica dá lugar à electrónica e o visual ao imaginário. “Há uma referência forte aos movimentos orbitais e cósmicos”, revela a escultora, responsável pelos milhares de desenhos projectados em stop-motion no cenário.

E o que é o som exactamente? O impacto de uma bola a saltar ou de uma roda a rolar ou de uma vassoura a varrer. No fundo, uma onda capaz de se propagar pelo ar através da vibração das suas moléculas. E cuja velocidade não só depende do meio em que se desloca como se altera de acordo com as suas características – em teatros e cinemas, por exemplo, o sistema de som é projectado de forma a haver o mínimo de regiões de interferência destrutiva (isto é, obstáculos à propagação das ondas sonoras, como um muro sem frestas).

“Queremos explorar também o lado científico do som e como se traduz em imagem, objectos e movimento”, esclarece o arquitecto e compositor de música instrumental e electro-acústica, que se mostra entusiasmado por partilhar as maravilhas da fusão do som e do espaço. “A ideia é pôr os miúdos a ver situações normais, mas de uma maneira diferente. Uma nota musical é um conceito abstracto, mas uma bola a saltar é uma bola a saltar. A experiência do som toda a gente a tem, por mais que o Einstein possa complicar a coisa.”

Um convite à escuta activa – assim se resume esta criação interdisciplinar sobre a beleza dos sons inesperados, naturais (como o ondular da água do mar) ou humanizados (como coisas que escorregam, caem, batem, partem, saltam, giram e viram). “Temos uma escuta muito funcional, [sobretudo na rua], para nos protegermos e reconhecermos o espaço. Mas é possível ter uma escuta estética”, garante. “Este espectáculo de facto conduz a essa leitura de que podemos ir para a rua ouvir música.”

Essa sensibilidade – que nos ajuda a desligar o piloto automático – educa-se, pratica-se, desenvolve-se. “Era bom ouvir os miúdos a dizer ‘olha, o comboio a chegar parece música’, porque ele passa mesmo por notas, faz ritmo e melodia”, acrescenta Inês. “Somos pessoas mais ricas se soubermos ouvir música no folhear de um livro ou fazer música quando pomos os dedos em cima de uma superfície qualquer.” Ou quando batemos a palma das mãos uma contra a outra. Clap, clap, clap. É o som dos aplausos.

Calçada da Ajuda, 76-78-80. Sex 18.30, Sáb-Dom 11.30. Bilhetes: 3€/crianças e 7€/adultos.

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