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Ivone Dias
©DRIvone Dias, em Silêncio - Vozes de Lisboa

‘Silêncio – Vozes de Lisboa’ documenta o fado da gentrificação

O documentário ‘Silêncio – Vozes de Lisboa’ estreia-se esta quinta-feira. Já vimos e falámos com três das mulheres que lhe deram voz.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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A comunidade de músicos ligados ao fado, em Alfama, está em risco de desaparecer. Confrontadas com o processo de gentrificação que há anos atormenta este bairro alfacinha, Céline Coste Carlisle e Judit Kalmár, duas estrangeiras, decidiram produzir um documentário em jeito de alerta, que sugere que paremos para ouvir as histórias que estes artistas têm para contar. Silêncio – Vozes de Lisboa estreia-se esta quinta-feira.

“O meu bairro continua a ser o meu bairro.” Ivone Dias tem 87 anos e nasceu a cantar fado. Filha de Alfama, teve de deixar o bairro de sempre há quatro anos em direcção a Massamá, onde vive com a filha, porque a sua casa já não tinha condições para lá morar. “Ela [senhoria] não fez obras… mas foi ali a minha vida toda”, lembra a mulher que, embora se tenha mantido longe da fama, é uma das figuras mais conhecidas de Alfama, aonde regressa sempre que pode. Canta e encanta no restaurante Esquina de Alfama.

Ivone foi a principal inspiração para o documentário Silêncio – Vozes de Lisboa. A ela juntou-se uma outra mulher, mais jovem, que fez a ponte entre Alfama e Almada, onde também se ouve a canção de Lisboa: Marta Miranda, conhecida vocalista dos Oquestrada que, com o seu companheiro Jean-Marc, fundou a Tasca Beat, um vibrante espaço cultural em Alfama que também não sobreviveu à pressão provocada pela especulação imobiliária. Este Silêncio acompanha as duas cantoras e através delas um mundo de canções que vai desaparecendo. Mas Alfama segue no coração de quem vai e de quem vai ficando.

O documentário é um trabalho sonhado por Coste Carlisle, artista plástica suíça residente em Lisboa há mais de duas décadas. No entanto, só recentemente Céline encontrou na jornalista húngara Judit Kalmár a parceira perfeita para concretizar o que tinha imaginado: um filme que contasse as histórias de Lisboa através dos poemas do fado e que conseguisse, entre a música e os problemas sociais, chamar a atenção das lutas da população para preservar a sua cultura. “Falar de gentrificação é uma coisa; sentir a emoção e o dilema das pessoas afectadas é outra sensação”, dizem.

A rodagem decorreu entre Novembro de 2017 e Abril de 2018, antes do advento das máscaras. Só agora chega às salas nacionais, com estreia comercial no Cinema City Alvalade, porque, primeiro, se demorou na montagem e, depois, porque antes de regressar a Lisboa deu a volta ao mundo em festivais. Estreou-se na Coreia do Sul em Setembro do ano passado, no International Intangible Heritage Film Festival, e depois passou por quase 30 festivais, do alemão Dok.fest Munchen ao argentino FIDBA. Em Portugal, começou pelo Cine Eco em Seia, seguindo para o Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, e para o FESTin, onde esgotou duas sessões em Dezembro, no Cinema São Jorge.

Céline continua a emocionar-se ao ver o filme. Afinal foi também uma espécie de anfitriã desta história, aparecendo em frente à câmara, normalmente junto a Ivone, de quem é amiga há 20 anos. “Não queria ser filmada, mas a Judit disse que eu tinha de estar e foi na montagem que o filme começou a ganhar forma”, explica Céline. “Lisboa é a minha casa, é aqui que sinto que pertenço. Acho que todos nós temos a missão de amar a cidade e fazer qualquer coisa por ela. Temos de nos dedicar e tentar perceber a cultura em que vivemos, os que estão à nossa volta e não chegar lá com as nossas normas. Acolher a cultura, o lado bom e o lado mau. Aqui há espírito de comunidade, as pessoas respeitam-se, acolhem, abraçam. E de cada vez que agora olho para o filme, tenho imensa nostalgia desse tempo em que dava beijinhos”, recorda Céline com saudade.

"É interessante como a Céline se torna parte da comunidade. Ela é uma parte importante desta viagem. E tem sido uma longa viagem, temos estado a trabalhar neste filme há quatro anos. Claro que a Covid não facilitou, mas deu-nos a oportunidade de ir a mais festivais internacionais”, diz Judit, sublinhando as duas dimensões do documentário: “o fado como parte da cultura portuguesa e o problema da gentrificação, um problema global que conseguimos mostrar através de uma perspectiva especial”.

O filme também tem trazido oportunidades para os músicos que dele fazem parte. Duas delas vão acontecer em Lisboa, primeiro no festival Felizmente Há Lugar!, em Marvila, a 25 de Setembro, e depois num concerto no Museu do Fado, a 29 de Setembro. Em ambos vai poder testemunhar ao vivo o talento destes músicos, em eventos de entrada livre que apenas pedem a sua reserva.

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