A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
Televisão, Séries, Drama, Histórico, Guerra, The Underground Railroad (2021)
©Kyle KaplanThe Underground Railroad de Barry Jenkins

‘The Underground Railroad’: a via dolorosa da América negra

Na nova série da Amazon Prime Video, Barry Jenkins filma um dos mais traumáticos períodos da história norte-americana: o brutal estertor da escravatura.

Por
Hugo Torres
Publicidade

Abraham Lincoln assinou em 1862 a Proclamação da Emancipação, uma ordem executiva que abolia a escravatura na plenitude dos Estados Unidos. O seu alcance ficou então muito aquém do que se pretendia, mas três anos mais tarde, tendo a União dobrado o Sul confederado e vencido a Guerra Civil americana, o conteúdo legal da Proclamação seria reconfirmado e reforçado através da 13.ª Emenda à Constituição. Os negros tornavam-se, formalmente, pessoas livres. Como sabemos hoje bem demais, esse momento histórico não pôs fim a séculos de sofrimento, injustiça e desumanidade para com os afro-americanos. Tudo isso continua, embora as correntes já não estejam lá. Houve, no entanto, algo que deixou de fazer sentido: as rotas e a rede informal de abrigos que, desde finais do século XVIII e até à abolição da escravatura, eram usadas para escapar das plantações e das garras dos senhores do Sul em direcção aos estados livres do Norte ou ao Canadá. Um mapa paralelo, secreto, de que os próprios intervenientes só conheciam parte (para evitar infiltrados), conhecido como “the underground railroad”. Os caminhos-de-ferro subterrâneos.

Era uma metáfora. A ferrovia era o progresso que conduzia a um outro destino. Não existia qualquer troço ferroviário debaixo da terra. Nem ali nem em parte alguma do mundo. O que não impediu Barry Jenkins de imaginar a realidade dessa forma quando, ainda miúdo, ouviu falar da “underground railroad”. Muitos anos mais tarde, estava o realizador prestes a estrear o seu filme-revelação – Moonlight, que venceu três Óscares em 2017, incluindo o de Melhor Filme –, encontrou essa mesma versão fantasiosa num livro de Colson Whitehead, precisamente intitulado The Underground Railroad, que lhe chegou às mãos antes de ser publicado. Jenkins percebeu de imediato a pérola que tinha diante de si. “Assim que li o livro, tive a certeza absoluta de que o queria [adaptar]”, disse, numa entrevista recente ao Guardian. “E eu não sou essa pessoa. Normalmente, leio algo e penso, bom, é possível que isto dê um grande filme, e pouso-o. Mas, para este, mobilizei toda a gente: temos de conseguir isto.” E tinha razão para o fazer: The Underground Railroad viria a ser distinguido com o National Book Award e o Pulitzer de ficção. A Amazon Prime Video viabilizou o projecto logo em 2017, partilhando a produção com a Plan B de Brad Pitt. Uma série de dez episódios com estreia nesta sexta-feira, 14 de Maio.

A história não está presa ao elemento ficcional dos caminhos-de-ferro subterrâneos. É um drama histórico sobre os terrores do esclavagismo e da supremacia branca, que persegue Cora (Thuso Mbedu) e Caesar (Aaron Pierre) na fuga dos campos de algodão da Geórgia, onde são propriedade do inefável Terrance Randall (Benjamin Walker). Randall trata os escravos como gado, decidindo com igual ligeireza e violência sobre a morte mas também sobre a vida. É ele quem escolhe os indivíduos que devem “procriar”, e quando, assistindo à intimidade forçada para garantir que o negócio tem meios para se expandir. A relação dos supremacistas com a natalidade afro-americana é, aliás, uma das menos gráficas mas mais brutais questões abordadas pela série. Ora os bebés são tratados como mercadoria, ora os supremacistas encapotados tentam controlá-la esterilizando mulheres e usando homens como cobaias. É o que vemos numa cidade aparentemente progressista da Carolina do Sul, onde fica uma das estações da tal ferrovia. Cora e Caesar vão lá parar. Arriscam tudo e sentem finalmente alguma segurança. Mas será sol de pouca dura.

O medo é uma constante. A raiva, também. São estes sentimentos que movem a série, não são as obras de engenharia fora de tempo. Do lado dos espectadores, por muito que se conheçam os mais sórdidos detalhes deste período, a incredulidade é inescapável. Uma das personagens com que a história de cruza na Carolina do Norte, Martin (Damon Herriman), sintetiza o sentimento enquanto a sua carroça atravessa uma alameda cheia de pessoas negras enforcadas nas árvores: “A selvageria de que um homem é capaz quando acredita que sua causa é justa”. Barry Jenkins, que também já adaptou James Baldwin (Se Esta Rua Falasse, 2018), não nos poupa. Pelo contrário, mostra-nos a tragédia olhos nos olhos. Chega a pôr-nos no lugar das personagens, posicionado a câmara para dar o ponto de vista de Big Anthony (Elijah Everett), enquanto este está a ser queimado vivo após uma fuga mal sucedida; ou para nos pormos na pele de um bebé indefeso, ao colo dos algozes do seu pai – o que lhe acontecerá? Mas Jenkins não permite que este projecto seja apenas um doloroso mergulho no passado e lembra-nos, através da personagem de um caçador de escravos, Ridgeway (Joel Edgerton), que o respeito pelos outros não é sempre crescente, um caminho em constante progressão, gerações fora, sem revezes nem contradições.

Com uma banda sonora de Nicholas Britell à altura (compositor que, além de tudo o resto, nos deu a música de Succession), The Underground Railroad é uma série poderosa e o mais provável é que deixe marca. No ano da graça de 2021, certamente.

Amazon Prime Video. Sex (Estreia).

+ Oito séries para ver em Maio

+ Leia a edição desta semana: Esplanadas

Últimas notícias

    Publicidade