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Tiago Nacarato vem ao Centro Cultural Olga Cadaval

Por Ana Patrícia Silva
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Tiago Nacarato tem portugueses e brasileiros encantados com ele, e vem, depois de conquistado o Porto, tocar ao Olga Cadaval, em Sintra, esta sexta-feira.

Bastaram cinco palavras de “Onde Anda Você” de Vinicius de Moraes para Tiago Nacarato deixar boquiaberto o júri do The Voice. Foi um dos concorrentes mais mediáticos do programa e a sua interpretação teve um inesperado eco no Brasil, onde os seus pais nasceram – do país irmão chovem elogios, artigos na imprensa e solicitações para concertos. No Porto, a cidade onde nasceu, Tiago teve, em Fevereiro, uma maratona de seis concertos no Passos Manuel e desde aí que não parou de tocar. Esta sexta apresenta-se  ao público lisboeta no Centro Cultural Olga Cadaval.

E o Brasil aqui tão perto

Tinha três anos quando pisou um palco pela primeira vez, num bar algures pela Ribeira. O culpado foi o pai, também músico, com quem aprendeu a ouvir Caetano Veloso, Maria Bethânia, Djavan, Elis Regina, Noel Rosa e João Gilberto. Dele absorveu a pronúncia quando canta certas canções – apesar de morar em Portugal há 30 anos, o pai nunca perdeu o sotaque.

O futebol foi falando mais alto, até que aos 16 anos recebeu o presente que mudou a sua vida: um violão. Teve aulas de guitarra jazz com Pedro “Peixe” Cardoso (Ornatos Violeta), integrou a Orquestra de Guitarras e Baixos Eléctricos, passou por bandas de garagem, até perceber que o que realmente queria era ser compositor de canções.

Anos mais tarde, deu de caras com uma roda de samba do colectivo de músicos luso-
-brasileiros Bamba Social. “Foi amor à primeira vista. Os ritmos, a alegria, o suor nos corpos que dançavam sem parar, as mulheres, o sorriso em cada cara. Deixou-me completamente apaixonado pelo movimento que se estava a instalar na minha cidade natal.” Pouco a pouco integrou-se no projecto, onde tem agora uma participação mais destacada.

O que o atrai na música brasileira? “A MPB, o samba e a bossa nova remetem-me para o mesmo imaginário: um povo mestiço, corajoso e criativo que, apesar das dificuldades sociais e políticas, tem a habilidade de se servir da arte para plantar sorrisos num povo pobre, gritos de guerra num povo descontente e amor num povo descuidado.” No Porto, há uma comunidade brasileira a semear um novo som na cidade: “Ter uma comunidade de outro país trazendo um novo ritmo, novos acordes, novas melodias e uma maneira diferente de tocar, qualquer que seja o instrumento, só pode enriquecer a cultura portuguesa. Defendo a ideia de que o novo surge de uma fusão de ideias e de um encontro entre várias influências.”

E por falar em saudade

Num programa que privilegia a pirotecnia musical e os malabarismos vocais, é raro ver um rapaz de 27 anos a interpretar Vinicius de Moraes só com voz e violão. “É mais brasileiro que muitos brasileiros!”, “E eu achando que o melhor de Portugal era a comida... Não tinha ouvido esse moço ainda” e “Depois dos portugueses terem roubado todo nosso ouro, vem mais um portuga roubar meu coração”, são alguns dos comentários vindos do outro lado do Atlântico. “Penso que representar o Brasil com um clássico da bossa no contexto que foi, noutro país e com uma reacção tão espontânea e positiva dos mentores possa ter originado um sentimento de orgulho nos brasileiros”, explica Tiago. A arte intensamente simples e bela da bossa nova é mais difícil do que aparenta. Ouvir poesia devagar, cantada baixinho, é uma heresia nestes tempos frenéticos. Ouvir um forasteiro a valorizar a cultura brasileira com tanto carinho teve um sabor especial.

Tiago entrou no The Voice a convite da produção do programa, era um dos favoritos à vitória, mas falhou a final por pouco. “O The Voice fez-me conhecer o universo da música de massas e o efeito que isso tem na sociedade. Sair à rua e ser reconhecido, as revistas, as selfies... Foi necessário uma fase de adaptação e aprendizagem. Saber lidar com um mar de opiniões, sejam elas boas ou más, não é a coisa mais fácil do mundo.”

“É difícil lidar com as expectativas que toda a gente cria à tua volta. Acho que ainda não aprendi a lidar bem com este ponto, fiz até uma canção chamada ‘Paisagem’ em conjunto com o Márcio Silva (Edu Mundo). Aprendi que nunca mais quero encarar a música como uma competição e admito achar isso uma estupidez.” E acrescenta: “A minha participação no The Voice mudou muita coisa na minha vida, menos o rumo que tinha definido para a minha carreira. Muito antes da participação no programa já tinha bem presente na minha cabeça aquilo que quero fazer e o tipo de artista que quero ser.”

Segue-se agora o álbum de estreia. “O álbum está numa fase muito inicial, tenho algumas composições e estou a definir a estética sonora. A ideia é ter canções minhas, músicas de amigos, uma ou duas parcerias e todo ele cantado em português. Tenho influências de vários estilos” – Tiago ouve Chet Baker, D’Angelo, Dave Brubeck, Snarky Puppy, Miguel Araújo, António Zambujo – “por isso vou convidar músicos diferentes para cada música para chegar à estética que pretendo. Tudo feito com carinho e com calma”.

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