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Tiago Rodrigues imagina “Um outro fim para a menina Júlia”

Um outro fim para a menina Júlia
Filipe Ferrreira Um outro fim para a menina Júlia

O novo espectáculo de Tiago Rodrigues é Um outro fim para a Menina Júlia, a partir de Strindberg. Estreia esta sexta-feira no Teatro Nacional D. Maria II e é sobre sermos felizes com um copo de vinho.

Uma perna de presunto – não cenográfica, atenção – é a estrela deste welcome drink. Isso e a forma meticulosa como se dobram os guardanapos ou como se discutem vinhos – há sempre quem prefira mais seco, há sempre quem prefira mais frutado, como se fossem antónimos – para ver qual se tornará vinho da casa.

Sejam bem-vindos ao Pequeno Hotel do Lago, uma espécie de futuro hipotético de Menina Júlia, de Strindberg. É nesta pensão de estação de comboios que encontramos João e Júlia, eles que no original se enamoraram e mergulharam na impossibilidade da moral dominante, um criado e uma filha de um conde? Nem pensar. Strindberg sugere-nos que ela pega na faca e, provavelmente, ter-se-á matado. Tiago Rodrigues quis pensar como teria sido se eles tivessem sobrevivido e fugido, como tanto equacionaram naquela fatídica noite da sua juventude. Um outro fim para a Menina Júlia é o novo espectáculo do director artístico do TNDMII e é precisamente por lá que estreia, esta sexta-feira.

O truque foi fazer disto uma espécie de batedeira. Levar tudo para cena e carregar no botão para misturar. Mistura-se a ficção com o original, ou seja, Tiago Rodrigues e Strindberg e misturam-se actores mais novos com outros já consagrados. Tudo e todos coexistem, sem se desintegrar, sem perder a identidade correspondente à sua época. “E se ela não se tivesse matado? Quis encontrá-los trinta anos mais tarde, sem saber que ia voltar ao Strindberg. Depois percebi que podia ser interessante a coexistência destas figuras mais maduras, que olham para aquele tempo em que ela se podia ter suicidado e dizem ‘que exagerados que nós éramos, mas afinal correu tudo bem’. E nós podemos dizer: correu tudo bem...resignaram-se, aburguesaram-se, normalizaram-se, mas ao mesmo tempo também negociaram com a vida, amadureceram”, explica Tiago Rodrigues.

Há como que um congelar – interrompido apenas por pequenas movimentações mecânicas como encher copos de vinho ou cortar mais presunto – das personagens mais novas quando as mais velhas estão a agir, ou vice-versa, aquele espanto incrédulo de pensar “eu já fui assim?” ou “a sério que é nisto que me vou tornar?”. Motivado pela convivências, nos corredores ou nas salas de ensaios, de actores com quarenta anos de casa e de actores estagiários acabados de formar, Tiago Rodrigues atirou-se à escrita “ao lado de Strindberg”, puxando pelo que queria, esbatendo sobretudo a questão religiosa, e um pouco, ainda que não assim tanto, a luta de classes tão evidente do texto de Strindberg.

Um outro fim para a menina Júlia

Filipe Ferreira

 

 Evidente, também, é a simplicidade, as pequenas coisas – como isto chamar-se Pequeno Hotel do Lago, embora não esteja junto ao Lago de Como, como era o sonho de João e de Júlia, mas antes a alguns quilómetros, porque “é muito triste as coisas chamarem-se o que são”, diz menina Júlia, a mais velha, claro. No meio deste jogo temporal, Tiago Rodrigues começou a lembrar-se dos seus avós: “A possibilidade de olhar para o passado e perceber como cedemos nos nossos sonhos, de como nos convencemos que se calhar somos felizes com coisas que aos 20 anos diríamos: nunca. E depois comecei a ver os meus avós, que tinham uma pensão à beira de uma estação e comecei a fazer uma espécie de defesa de uma apologia do quotidiano, da simplicidade e de como podemos ser felizes com um copo de vinho e um pedaço de presunto”. Assinamos por baixo.

TNDMII. Qua-Sáb 19.30. Qui-Sex 21.30. Dom 16.30. 6-11€.
Texto e encenação Tiago Rodrigues (a partir de Strindberg)
Com Helena Caldeira, Inês Dias, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Paula Mora, Vicente Wallenstein

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